Uma mala é uma mala e nada mais!

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Por Claudio Schamis
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O novo chefe da Polícia Federal, o doutor Fernando Segovia, que tomou posse e teve na cerimônia a presença (nem um pouco) ilustre do presidente Michel Temer, já chegou dando o seu recado e mostrando a sua linha de pensamento.

E não foi qualquer recado. Já deu o primeiro golpe criticando a ação da Procuradoria–Geral da República e da própria Polícia Federal no caso da investigação e das negociações que beneficiaram os irmãos Batista e a JBS. Mas não parou por aí. Disse ainda que “alguns aspectos do caso se tornaram um ponto de interrogação que fica no imaginário popular brasileiro”, como se fosse preciso elucubrar muito a respeito do assunto. E para fechar com chave de ouro não se deu por rogado e soltou: “Uma única mala talvez não desse toda essa materialidade criminosa que a gente necessitaria para resolver se havia ou não crime, quem seriam os partícipes e se haveria ou não corrupção”.

Por essa linha de pensamento, se uma cueca tiver uma marca de batom, ele iria argumentar que não necessariamente se configura um batom na cueca. A marca pode ser outra coisa. Pode ser o que parece, mas não é. Ou pode até ser um batom, mas que não necessariamente tenha sido deixado por um homem, por uma mulher. Seria mesmo isso uma cueca? E se o acusado nem for do tipo que usa cueca? Vai que ele usa calcinha?

Então seguindo essa mentalidade, uma mala entregue na calada da noite numa pizzaria para um deputado com R$ 500 mil, pode ser um milhão de coisas. Aliás, não. Podem ser quinhentas mil coisas. Pode ser a conta fiada dele na pizzaria, pode ser um presente, pode ser um empréstimo, pode ser um pagamento de um empréstimo. Pra que no século XXI usar algum meio eletrônico? Coisa retrógrada. A moda é “cash”.

Nessa hora começam as grandes questões. Com um chefe assim na Polícia Federal não precisamos de mais nada. Aliás, precisamos de um presidente igual ao que temos, que compra sua alforria por R$ 6 bilhões de forma escancarada e em plena luz do dia. Precisamos de deputados corruptos, precisamos de uma ALERJ (no caso do Rio de Janeiro) que manda soltar (tudo bem que já prenderam de novo) seu presidente, Jorge Picciani e dois outros deputados, todos da escuderia, do time de Michel Temer, o PMDB, precisamos também de ter estômago para ouvir em horário nobre a propaganda sem vergonha, nojenta, promíscua, vulgar do PMDB enaltecendo as coisas boas que ele fez e que ainda fará. Meu Deus!!!

Precisamos de um Senado igual ao que temos. Precisamos disso tudo, e de todo esse resto que temos, pois parece que sem isso, não vivemos. Sabemos viver só assim. Nessa ilegitimidade, nessa corrupção. Nesse desmando e nesses acordos, enquanto pessoas do bem morrem em filas de hospitais, crianças não conseguem ir para a escola, a população sofre no transporte público, sofrem na fila em busca de emprego quando há, pessoas que buscam a única solução no subemprego.

Imagina se conseguiríamos viver num país onde quando a Companhia de Trens vem a público pedir desculpas pelos transtornos causados, pois a composição saiu 22 segundos antes do horário, como aconteceu no Japão. Imagina se conseguiríamos viver num país (Dinamarca) onde um gari ganha R$ 10 mil e tem a chave da casa das pessoas para pegar o lixo? Fora outros exemplos espalhados pelo mundo.

Acredito que muitos começariam a reclamar. Que saudades daquela nossa bagunça.

Tenho quase pela certeza de que se consertar alguma coisa isso iria causar problemas sérios de ordem psicológicas nas pessoas. Como se perdessem a identidade. Iam ficar perdidos.

A ordem aqui é ainda, samba, futebol, feriado e caos.

Sei que não é para todos, mas é para a grande maioria. Pois se eles realmente quisessem mudar alguma coisa, eles mudariam sim. Começando pelas eleições.

Salve as baleias. Não jogue lixo no chão.

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