Um carnaval de cinzas!

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Por Claudio Schamis
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Peço desculpas, mas aproveitando a quarta-feira de cinzas e já fazendo uma analogia de cinzas e do que foi esse carnaval, principalmente no Rio, hoje a coluna será um pouco egoísta e vai falar do que restou do Rio de Janeiro.

Eu fugi do Rio. Não pensei duas vezes, imagine três. Como muitos sabem, hoje tenho um trabalho, não um emprego. Sou motorista de aplicativos de mobilidade, justamente por falta de emprego e de uma oportunidade de voltar ao mercado formal de trabalho. E poderia estar animadíssimo em trabalhar no carnaval, que é supostamente uma época em que se pode ganhar um bom dinheiro — há controvérsias — dirigindo um Uber, um Cabify, um 99 Pop. Mas a minha experiência do carnaval de 2017 e o aumento impressionante da violência foram determinantes em me fazer,  como disse, fugir do Rio.

Mesmo vendo os relatos de amigos motoristas, tenho a plena certeza de que fiz a escolha certa.

Aqui do alto da serra, mais precisamente em Teresópolis, num condomínio chamado Fazenda da Paz, assisti ao show de horror que foi esse carnaval.

Fiquei enojado — na verdade mais ainda — da cidade (que já foi) maravilhosa cantada por Caetano Veloso, na famosa marchinha de carnaval “Cidade Maravilhosa”.

A cidade do Rio de Janeiro é linda realmente, mas vista do alto do Corcovado ou do Pão de Açúcar. Aqui no asfalto ela está podre, nojenta, irreconhecível e feia.

O Rio de Janeiro é um dos cartões postais do Brasil. Quem não conhece o Rio de Janeiro, mesmo que de ouvir falar? Só que o que aconteceu nesse carnaval é algo que temos que parar tudo e exigir uma solução.

Não é fácil, eu sei. Mas a violência no Rio está num nível que é até difícil de se definir. Ainda mais com a cidade falida do jeito que está, tudo tende a piorar mais ainda. E será que pode ficar pior? Sim, pode.

Estamos entrando numa era em que nós que trabalhamos para ter mais conforto, poder ter um bom celular, um bom carro, sair para se divertir, ter coisas que nos deem prazer. Estamos sendo obrigados a fazer opções somente porque não podemos ter isso, fazer aquilo, pois é perigoso.

Os arrastões, os assaltos e  as agressões, dentro e fora dos blocos, deram as cores desse carnaval. Perdeu-se totalmente a essência da festa em si. Da confraternização de ideias, povos e culturas. Conseguiram banalizar a cidade.

As cenas que vi e que o mundo viu são dantescas. São cenas que têm obrigação de envergonhar cada carioca que clama por paz. Turistas (e cariocas) agredidos, assaltados, vão cada vez mais fazer com que o Rio de Janeiro deixe de ser uma opção de turismo nas próximas férias. Ou uma opção de morar, principalmente no caso dos cariocas. Muitos estão fugindo do Rio.

E enquanto isso, as autoridades fazem pouco caso, quando tentam minimizar os acontecimentos. O prefeito do Rio, que foi para a Alemanha, diz para não bebermos e não tirarmos muitas selfies. O governador diz que o carnaval terá um reforço grande de policias e que será tudo maravilhoso. E ainda acusa a imprensa de fazer um alarde maior sobre a violência do que ela realmente é.

Governador! É fácil falar de dentro de um blindado, com segurança e podendo se locomover de helicóptero. Queria ver você enfrentando engarrafamento na Linha Vermelha, naLinha Amarela e na Avenida Brasil, as principais vias da cidade que foram fechadas algumas vezes por causa dessa mesma violência que você afirma que não é bem assim.

O Rio está sitiado. Estamos numa guerra civil. Bandidos assaltam indiscriminadamente a qualquer hora do dia e em qualquer bairro. Não existe mais fronteiras de onde é mais ou menos perigoso. Zona Sul, norte ou oeste… é tudo igual. E tudo a qualquer hora e momento. Até marmita eles estão roubando — e com equipamentos de guerra.

Somos uma cidade sitiada não declarada. Ainda não temos toque de recolher oficial, mas nós mesmos criamos um. As nossas rotas do nosso ir e vir não são muitas vezes pelo caminho mais rápido, e sim pelo menos perigoso.

E assim vamos sobrevivendo a cada dia. Rezando ao sair de casa e ao chegar com vida.

A violência não é um privilégio do Rio. Acredito que ela esteja presente no país inteiro com intensidades diferentes. Mas o grande problema é que um espirro no Rio de Janeira pode virar notícia internacional, não querendo desmerecer as demais cidades do Brasil.

E se o turismo no Rio de Janeiro pode ajudar a aquecer a economia com todos os desdobramentos que podemos ter, mais empregos, mais consumo e mais investimentos em empreendimentos, o que acaba refletindo no país como um todo, temos que exigir do governo estadual e federal uma solução. Tolerância zero.

Temos que nos conscientizar que a brincadeira de carnaval acabou e não devemos nos iludir que estamos em ano de Copa do Mundo. Vamos focar mais na nossa realidade e em nossas vidas, pois o resto é o resto.

Salve as baleias. Não jogue lixo no chão.

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