Todo mundo virou crítico gastronôico

A crítica de gastronomia já foi uma arte. Agora as pessoas postam suas opiniões enquanto ainda estão mastigando. Tom Harrow sente saudade dos velhos tempos. Da ‘Intelligent Life’*

Hoje em dia todo mundo é crítico. Se você gostar de comida e vinho você pode usar o Twitter, o Tumblr ou um blog para ter uma voz. Você pode até ser encorajado pelo número de leitores a continuar a escrever suas opiniões. Alguns chamam isso de meritocracia. Outros dizem que é útil para encontrar restaurantes menos conhecidos.

Eu acho que é muito barulho por nada. Sinto nostalgia do dia em que a crítica era uma arte. A maior parte dos blogs de comida e vinho oferece uma narrativa incessante e poucos insights. Um bom crítico, contudo, não faz um mero catálogo de pratos, mas os assimila de modo a criar iluminações. “Eu gostaria que os críticos de hoje provassem um pouco menos e pensassem um pouco mais”, disse Elin McCoy, autor e crítico da Bloomberg, numa conferência internacional de blogueiros no ano passado. Eu acrescentaria: e escrevessem um pouco menos. Em alguns casos, seria melhor se não escrevessem nada.

O crítico, outrora árbitro do bom gosto, tornou-se um mero cidadão da blogosfera. Agora as opiniões disparatadas de uma comunidade virtual interessada – mas não muito interessante – substituíram a autoridade dos especialistas. Há algo de bom nisso: todos nos tornamos mais confiantes para determinar nossos próprios gostos, e recomendações de restaurantes coletivas podem revelar joias ignoradas em lugares inesperados. Mas quem julga esses novos juízes?

Um blog pode ser uma plataforma útil para a subversão. Com mais frequência, trata-se de um depósito tóxico de narcisismo, má escrita e erros. E a blogosfera turva algumas fronteiras – entre crítica e autopromoção, propaganda enganosa e narrativa. No ímpeto de ser o pioneiro, os blogueiros podem mais facilmente ignorar uma regra assente da crítica: um restaurante deve estar aberto por pelo menos duas semanas até que um crítico faça uma resenha. Resenhistas profissionais podem até comparecer à inauguração, ao almoço para a imprensa etc., mas os melhores não escreverão nada até algumas visitas depois.

Todos têm direito à opinião, poucos têm a razão e a sensibilidade de expressá-la. Talvez eu seja rabugento, mas o registro de todas essas mordidas e goles frívolos estão ficando mais difíceis de engolir.

*Texto traduzido e adaptado pelo Opinião e Notícia

Deixe um comentário