Saúde  

Testes preventivos de câncer são apostas no escuro

Por H. Gilbert Welch* – opiniaoenoticia.com.br

O começo de outubro trouxe dois progressos no mundo da prevenção ao câncer: o início do mês de combate ao câncer de mama e suas campanhas de mamografias regulares para mulheres, e uma nova recomendação da Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos, de que homens saudáveis não precisam realizar testes preventivos contra o câncer de próstata.

Essa é um situação inusitada: testes são bons para as mulheres e ruins para os homens. Mas quão diferentes são esses dois testes?

A resposta é: não muito. Nenhum deles é comparável à decisão de procurar ou não tratamento para pressão alta. Nesse caso, a resposta é simples – procure tratamento. Já os testes preventivos de câncer de mama e câncer de próstata são difíceis de darem resultados, e as diferenças estatísticas entre eles são mínimas. Indivíduos razoáveis, na mesma situação, poderiam tomar decisões diferentes, baseadas na sua avaliação de prós e contras dos testes preventivos.

Pessoalmente, eu, um homem de 56 anos, escolhi não fazer testes para detectar o câncer de próstata (e se fosse mulher, não teria feitos testes para detectar o câncer de mama). Alguns de meus pacientes fizeram essa mesma escolha, enquanto outros preferiram fazer os testes. Tudo bem, não há uma resposta certa. Testes são como jogos: há vencedores e perdedores. E enquanto os poucos vencedores ganham alto, os perdedores são vários.

Quando os médicos fazem testes preventivos de câncer, todos os incentivos – culturais, financeiros, profissionais e legais – apontam para uma única direção: não deixe passar nada. Como consequência, qualquer sinal de abnormalidade ganha proporções enormes, que gera duas espécies básicas de danos: falsos resultados positivos e diagnósticos exagerados.

O primeiro mal é muito comum nos testes preventivos de câncer de mama e próstata. Cerca de 20% das mulheres que realizam testes anualmente num período de dez anos são submetidas a biópsias motivadas por falsos resultados positivos. Diagnósticos exagerados são menos comuns, mas suas consequências são mais graves, porque eles levam a tratamentos desnecessários. Testes encontram anormalidades que se enquadram na definição patológica do câncer, mas que nunca crescerão ou causarão nenhum sintoma, muito menos a morte. Às vezes, pacientes esperam para ver se o câncer irá ou não crescer, mas muitos optam pelo tratamento imediato: uma vez que você ouve que tem câncer, é difícil esperar para ver o que acontece em seguida.

Pacientes exageradamente diagnosticados são os grandes perdedores aqui. Eles enfrentam cirurgias e quimioterapias desnecessárias. Cirurgias mamárias podem desfigurar os seios, e cirurgias na próstata podem causar problemas na bexiga e disfunção sexual.

A verdade é que nenhum dos testes funciona tão bem, e mesmo com os testes, a maior parte das pessoas destinadas a desenvolver tumores fatais e intratáveis vai continuar desenvolvendo tumores fatais e intratáveis. E quando o assunto é câncer de próstata ou de mama, não existem respostas certas, apenas apostas.

* Professor de medicina do Instituto de Políticas de Saúde e Clínica Médicas da Universidade de Dartmouth. Autor de Overdiagnosed: Making People Sick in the Pursuit of Health (“Superdiagnosticados: Deixando Pessoas Doentes em Busca da Saúde”).

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