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Sumiço de submarino expõe crise nas Forças Armadas da Argentina

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Na última quinta-feira, 30, a Marinha da Argentina anunciou que descartou a ideia de encontrar viva a tripulação do submarino ARA San Juan, que no dia 15 deste mês desapareceu com 44 pessoas a bordo.

O modelo do submarino é o mais moderno dos três existentes na Marinha argentina. A tragédia iniciou um debate sobre a crise nas Forças Armadas do país. Desde o fim da ditadura militar na Argentina, em 1983, sucessivos governos reduziram os gastos militares. Eles caíram de 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB), em 1978, para menos de 1% no ano passado. A Argentina gasta uma parcela menor do PIB do que qualquer um dos seus vizinhos em suas Forças Armadas.

Do montante do PIB destinado ao setor, apenas uma pequena parcela vai para a compra de armas e equipamentos para a Marinha, Exército e Aeronáutica. O Ministério da Defesa argentino gasta cerca de 70% do seu orçamento com salários e pensões.

A austeridade muitas vezes causou problemas. Em 2013, o contratorpedeiro Santísima Trinidad ficou preso no porto; a Marinha levou três anos para conseguir retirá-lo. Em 2014, a frota de submarinos passou apenas 19 horas sob a água. Em 2015, os jatos de combate Mirage não podiam voar em dias nublados devido a problemas em seus instrumentos. Em 2018, quando a Argentina sediará a cúpula do G-20, o governo pode ter de alugar jatos de combate do Brasil.

Os argentinos especulam que a ineficiência e a corrupção contribuíram para o sumiço do San Juan. A Marinha insiste que o submarino estava em “perfeitas condições” quando partiu, mas há evidências que mostram o contrário. Em 2011, após uma revisão do San Juan, a então presidente Cristina Kirchner declarou que o submarino estava apto para “mais 30 anos de serviço”. Mas uma investigação do Ministério da Defesa, divulgada no último dia 26 de novembro, pelo jornal La Nación, sugere que o processo de licitação para o contrato de substituição de baterias continha irregularidades para favorecer certos fornecedores.

Os argentinos, agora, acreditam que as Forças Armadas do país precisam de reformas, mas não chegam a um acordo sobre a forma como ela deve ser feita. Primeiro, o país precisa decidir quais são os objetivos da política externa, argumenta Santiago Rivas da consultoria IHS Jane’s.

O aparato militar da Argentina provém da era da guerra fria e é projetado para combater ameaças que já não existem. A maioria dos especialistas em Defesa concorda que a Argentina, o oitavo país do mundo em área territorial, precisa de jatos de combate, navios e submarinos para dissuadir potenciais inimigos.

Alguns dizem que as Forças Armadas também devem lidar com o tráfico de drogas, terrorismo e pesca ilegal. Isso exigiria uma alteração na legislação. Em 2006, Néstor Kirchner, marido e antecessor de Cristina, decretou que as Forças Armadas só poderiam enfrentar “agressões externas”. O objetivo era evitar outro golpe de Estado. O atual presidente, Mauricio Macri, argumenta que a regra é muito restritiva.

A reforma nas Forças Armadas da Argentina pode exigir mais gastos do que o governo pode pagar. No momento, o país está tentando reduzir o déficit orçamentário, que foi de 4,6% do PIB no ano passado.

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