Renan Calheiros: Retrato de um político quando jovem — cabeludo, idealista, de esquerda

Por Ricardo Setti

Quem quer expulsar Renan Calheiros da presidência do Senado não imagina que um dia ele foi um rapaz cheio de sonhos de igualdade – quase um comunista

Da velha Murici, na zona da mata alagoana, onde o senador Renan Calheiros viveu sua juventude, só restam ruínas. Três enchentes do rio Mundaú, na década passada, a última em 2010, massacraram a cidade e acabaram com as construções da rua do Comércio, onde se concentrava a vida cultural e econômica por ali no final do século XX.

Os armazéns de secos e molhados que abasteciam os trabalhadores das usinas de cana do município – São Simeão e Bititinga 1 e 2 – sucumbiram à força das águas. Acabou a movimentação das pessoas para discutir política na calçada, na frente do armazém de Mozart Damasceno, e os velhos negócios faliram ou, seguindo a agência do Banco do Brasil, se mudaram para a parte alta do município, em torno da praça Padre Cícero.

Pouco do que se vê em Murici hoje fez parte da paisagem onde Renan circulou na adolescência e onde recebeu as primeiras lições de sua formação política. Em um período curto, Murici mudou completamente. Mudou tanto quanto o senador.

O 1,6 milhão de pessoas que aderiram ao abaixo-assinado para impugnar Renan na presidência do Senado por causa de denúncias de peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso talvez não consiga imaginar que um dia ele foi um bom rapaz do interior, que não era nem playboy nem desajustado e se dizia de esquerda.

Primogênito da prole de oito filhos de um dos homens mais populares da região, o comerciante de animais Olavo Calheiros, Renan foi um adolescente ponderado, sensato e razoavelmente bom nas contas. O pai e a mãe, Ivanilda, eram rígidos, mas carinhosos. Renan não usava a violência para resolver seus problemas. Preferia usar a conversa.

Teve uma infância pobre e sem luxos, bem diferente de Fernando Collor de Mello, por exemplo, político de sua geração com quem teria o destino cruzado. Mas recebeu exemplos dignificantes. Com a mente forjada nos negócios feitos pelo interior, Olavo tinha um pensamento democrático e transmitiu aos filhos uma visão crítica dos usineiros, símbolos do perverso poder oligárquico que em Murici se chamava Omena, e um senso de justiça inexistente naqueles tempos.

Ruínas da usina de cana de São Simeão (Fotos: Arquivo)

Ruínas da usina de cana de São Simeão (Fotos: Arquivo)

Renan era um jovem idealista. Influenciado pelo pai, afastou-se do reacionarismo das lideranças da região e condenava a ditadura militar. A casa dos Calheiros era um dos pontos de encontro da oposição. No final da adolescência, declarava-se socialista.

Foi quase um comunista. Recebeu os primeiros ensinamentos de Karl Marx no armazém de Mozart Damasceno, o “bom burguês”, homem de grande influência em Murici, que havia viajado para a União Soviética.

Mozart era filiado ao Partido Comunista e pela sua loja passavam muricienses influentes para tomar uma mistura de pinga de cabeça, aquela do começo da destilação, com refrigerante de laranja e canela que oferecia como uma especialidade. Quando estava na cidade, Olavo era um dos frequentadores.

Andava cerca de 500 metros e ia conversar com Mozart – a casa dos Calheiros, onde hoje mora a mãe e o atual prefeito, Remi, irmão caçula de Renan, na rua Durval de Góis Monteiro, continuação da rua do Comércio, ainda é a mesma.

Aos domingos, Renan podia ser visto trabalhando no armazém atrás do balcão. Mozart chamava alguns jovens promissores da cidade, filhos dos amigos, para ajudar nas vendas nos dias de movimento e ganharem um dinheirinho.

“O Mozart só recrutava os melhores meninos. Não queria saber de moleque. Tinha que ser bom aluno e saber fazer a prova dos nove. Os ajudantes ganhavam 2% do que vendiam”, lembra Clementino Damasceno, irmão e braço direito de Mozart e professor de matemática de Renan na escola Nossa Senhora das Graças. “Não me lembro de Renan como liderança política. Acho que só manifestou isso na faculdade, mas ele sempre foi atuante e enfático.”

Em 1971, quando foi fazer o curso científico em Maceió, Renan tinha poucos recursos financeiros e dividiu moradia com um de seus amigos de Murici, Manuel Lins Pinheiro, o Maninho, rapaz de posses. Moravam em um imóvel da família de Maninho e estudavam no colégio Élio Lemos. Nessa época, se aproximou do movimento estudantil e circulava pela sede da União dos Estudantes Secundaristas, no centro de Maceió. Mas o fato decisivo para sua carreira política aconteceu quando, aos 19 anos, ele passou no vestibular para a faculdade de direito na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

 

CARREIRA-RELÂMPAGO

Entrada da cidade de Murici

Entrada da cidade de Murici

Na segunda metade dos anos 1970, o movimento estudantil fervilhava em todo o país e Alagoas era um dos vértices dessa retomada. Na ilegalidade, o PC do B era a força política por trás do movimento. A União Nacional dos Estudantes (UNE) estava proscrita e as universidades proibiam eleições diretas para o Diretório Central. Elegiam-se representantes por áreas (exatas, biomédicas e humanas) a fim de impedir uma atuação mais centralizada.

Na Ufal, a principal liderança era o estudante de jornalismo Aldo Rebelo, atual ministro dos Esportes. Também se destacavam Maninho e Edberto Ticianelli, do direito, e Mário Agra Jr., da agronomia. Renan orbitava em torno desse grupo de comando, tinha um discurso consistente e ganhou fama de bom articulador. Estava afinado com a turma do PC do B e, graças a várias coincidências, acabou sendo candidato à presidência do diretório da área 3, de ciências humanas.

“O grande nome do movimento era Aldo, que não podia ser candidato por causa de um processo aberto pela reitoria”, lembra Mário Agra. “A candidatura de Renan só surgiu depois da segunda ou terceira opção.” A sorte sorriu para o jovem de Murici, que foi o único opositor eleito.

Depois da vitória, quando circulava para agradecer os votos, um professor se incomodou e exigiu que se retirasse da sala. Houve confusão e, da reitoria, surgiu uma ameaça de expulsão a Renan. Ficou a sensação de que tentavam calá-lo. O caso transcendeu os limites da Ufal e balançou a opinião pública. Renan virou o enfant terrible da política alagoana, o cara que combatia a corrupção e desafiava as estruturas.

 

Rio Mundaú (Foto: Alagoas24hora / Arquivo)

Rio Mundaú (Foto: Alagoas24hora / Arquivo)

Em 1978, decidiu se filiar ao MDB, partido que agrupava as forças políticas populares e de esquerda, e se lançou candidato a deputado estadual. Com o apoio do PC do B, fez campanha dentro e fora da universidade sem gastar um tostão e teve votos nos 101 municípios do estado. Ganhou uma vaga na Assembleia Legislativa e, imediatamente, começou a atacar Collor, novo prefeito de Maceió, recém-nomeado para o cargo pelo governador Guilherme Palmeira, da Arena.

No primeiro discurso, chamou Collor de “príncipe herdeiro da corrupção”. Era cabeludo e usava óculos de aros grandes. Naquele ano, cheio de energia, participou do 31º Congresso da UNE, em Salvador, quando Aldo foi eleito secretário-geral da entidade. Lançou o livro Em Defesa de um Mandato Popular e teve o primeiro herdeiro, Renan Calheiros Filho, com a esposa, Maria Verônica, moça de Murici que namorava desde a adolescência. Tornou-se líder do seu partido, que passou a se chamar PMDB. Renan foi o segundo Calheiros a conquistar um cargo eletivo. Olavo tinha sido vereador de oposição em Murici.

“Quando Renan era menino, falei para Olavo que ele levava jeito para a política, que iria ser um político danado de bom”, afirma Antônio Sebastião da Silva, o Braúna, outrora proprietário de um armazém na rua do Comércio destruído pelas enchentes do Mundaú. “Acertei, mas logo depois que virou deputado ele mudou e começou a ficar longe do povo.”

Renan nunca atuou politicamente em Murici, mas seu sucesso alavancou a carreira da família Calheiros – na sequência de suas conquistas, o pai seria prefeito da cidade e os irmãos seguiriam uma rota vitoriosa. Em 1982, ainda com o apoio dos comunistas, se elegeu deputado federal, assim como Collor, que renunciou à prefeitura e conquistou uma vaga na Câmara pelo PDS. Renan foi um deputado atuante, que se posicionou contra os arrochos salariais do governo e a favor de Tancredo Neves (e contra Paulo Maluf) para a presidência.

Líder do governo na Câmara, em junho de 1990 (Foto: Lula Marques / Folha Imagem)

Líder do governo na Câmara, em junho de 1990 (Foto: Lula Marques / Folha Imagem)

Quatro anos depois, se reelegeu com 55 mil votos. Foi o segundo deputado federal mais votado do estado, mas dessa vez sem o PC do B ao seu lado. Apoiado por João Lyra, poderoso usineiro, deu sinais claros de que mudava de lado e começava a jogar às favas os ideais do passado. Aproximou-se de Collor.

 

CHOQUE DE REALIDADE

Renan alegava que essa aproximação com seu inimigo mais explícito tinha relação com o objetivo comum de enfrentar as oligarquias. Filiado ao PMDB, Collor o converteu em coordenador político da campanha vitoriosa para o governo de Alagoas e, um mês depois de eleito, começou a criar uma plataforma de lançamento de sua candidatura para a eleição presidencial de 1989.

No santinho da eleição para deputado federal

No santinho da eleição para deputado federal

Difundiu uma imagem de homem destemido, o “caçador de marajás”, ao enfrentar os funcionários públicos com altos salários e cobrar uma dívida de US$ 140 milhões dos usineiros com o banco do estado. Apoiado pelo parceiro de Murici, criou o PRN para enfrentar o presidente José Sarney e se lançar à eleição. Collor conquistou a presidência e Renan foi nomeado líder do governo na Câmara.

Ficou com a responsabilidade de convencer os deputados a aprovar as medidas econômicas do governo, por exemplo. Achava que tinha absoluta confiança do presidente. Decidiu, assim, entrar na disputa pelo governo de Alagoas pelo PRN, convencido de que não lhe faltaria apoio. Collor estaria ao seu lado. Puro engano.

O presidente recusou se engajar na campanha de Renan e, no seu lugar, escolheu como candidato outro deputado alinhado com o governo, Geraldo Bulhões, do PST. Renan acabou perdendo a eleição, em dois turnos conturbados, o segundo adiado por problemas de corrupção.

O atual presidente do diretório municipal do PT em Murici, Marco Aurélio Moura Cunha, que mora bem na esquina da praça Padre Cícero, era fiscal do PMDB no clube Fênix Alagoana naquela eleição de 1991 e foi levar os números da apuração para o candidato derrotado em sua casa, em Maceió. Encontrou um homem desolado.

Sentado à beira da piscina em um dia modorrento de sol, Renan balançava as pernas dentro da água e olhava ao longe. Cunha chegou perto de Renan, que agradeceu a entrega dos documentos. Tomara uma inacreditável invertida de Collor. Desde seu início na política, nas barricadas da Ufal, jamais havia se sentido tão sozinho e injustiçado.

Tomou um choque de realidade. E sofria. E sofreria mais nos meses seguintes, sem emprego, cargo eletivo ou de confiança e, principalmente, sem nenhuma perspectiva política. Dormiu governador e acordou desempregado. Cunha foi convidado para almoçar com o candidato derrotado.

Disse que era vegetariano e aceitou comer uns ovos estrelados que Renan mandou providenciar. “Acredito que Renan, afinal, traiu as próprias origens, aquilo que, na verdade, ele representava”, diz Cunha, que nasceu em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, e chegou a Murici em 1979 para trabalhar no Projeto Rondon. “É lamentável quando um político que poderia se aliar com interesses legítimos abandona o povo.”

Com Sarney, um de seus mentores (Foto: Ag. Brasil)

Com Sarney, um de seus mentores (Foto: Ag. Brasil)

Depois de uma fase de ostracismo, em que virou executivo da extinta Petroquisa, estatal com participações em petroquímicas, Renan voltou forte à política, mais precisamente ao Senado, onde está há 18 anos. Virou uma medalhão. Os outros irmãos Calheiros também ganharam destaque – sua família não perde uma eleição para a prefeitura há 16 anos em Murici: Remi e o filho de Renan se revezam na administração.

Seja como for, a política que fazem é conservadora, sem investimentos na melhoria da educação e da saúde, e orientada para práticas clientelistas, como a distribuição do Bolsa Família (84% da população da cidade, cerca de 6 mil famílias, recebe o benefício) e de casas nos conjuntos habitacionais Mundaú e Olavo Calheiros, construídos para os desabrigados das enchentes.

Qualquer pensamento progressista que os Calheiros possam ter exibido algum dia no passado desapareceu. Sua cidade tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país – a 4 994ª posição entre 5,5 mil municípios – e enfrenta sérios problemas com a violência do tráfico de drogas. Murici se desumanizou.

Com Collor, o inimigo preferido (Foto: Lula Marques / Folhapress)

Com Collor, o inimigo preferido (Foto: Lula Marques / Folhapress)

Não existem mais usinas de cana no município porque as três faliram e nem coronéis malvados, mas a maneira de fazer política continua sendo medíocre: o objetivo de todas as iniciativas, menos do que o bem-estar comum, é preservar o próprio poder e fortalecê-lo. Parece ser essa a lógica que move Renan e os Calheiros. Os homens mudam quando envelhecem e, infelizmente, muitas vezes é para pior.

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