Relógios de luxo – tradição e tecnologia na disputa pelos pulsos mais cobiçados

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Por Rosana de Moraes*
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Rosana de Moraes

Rosana de Moraes

Grande parte dos indivíduos que hoje têm menos de vinte anos jamais usou um relógio em seu pulso. Acostumados a verificar as horas (e muito mais) em seus smartphones, esses consumidores ignoram solenemente a indústria relojoeira.

Tal constatação vinha levando a previsões que proclamavam o fim dos relógios de pulso e, consequentemente, das verdadeiras joias da alta relojoaria suíça.

Além do desinteresse dos mais jovens pelos relógios tradicionais, vemos surgir agora modelos como o Apple Watch, que promete revolucionar os pulsos e o mercado, oferecendo tecnologia digital de ponta, conectividade e design impecável. Personalizável, ele permite escolher o layout do mostrador e as informações a serem exibidas. Entre outras funções, monitora batimentos cardíacos e comunica-se com o iPhone do usuário. A tela é touchscreen e é possível enviar dados para outro Apple Watch, fazer pesquisas, ver fotos e receber indicações para chegar a um determinado endereço, além de acessar redes sociais.

Charmes bem diversos dos que se busca num relógio suíço tradicional, porém incluindo caixas em ouro 18 quilates em certos modelos, o que certamente atrairá muitos novos consumidores.
Seria o fim da alta relojoaria?

Em primeiro lugar, é necessário entender melhor o que a alta relojoaria representa, lembrando conceitos que envolvem os produtos de luxo e que os afastam do raciocínio puramente utilitarista. Nesse universo, não é a função que determina o valor de um objeto. Caso fosse, o que justificaria a compra de um modelo cujo preço pode superar os oito dígitos, se as horas podem ser conferidas com precisão similar num exemplar de R$ 100,00? O mesmo vale para canetas, para bolsas e outros tantos itens de luxo que exercem alguma utilidade funcional.

O valor de um objeto de luxo deriva muito mais daquilo que o consumidor obtém dele do que daquilo que o fabricante nele inclui. É resultado de inúmeros componentes subjetivos, num mix que pode incluir satisfação pessoal, desejo de pertencimento social, de distinção, de status. Em suma, o valor de um objeto de luxo vem especialmente dos sentimentos que ele desperta.

Numa peça de alta relojoaria, conta o prazer de apreciar e entender a riqueza dos mecanismos, a arte da precisão e da minúcia, a beleza das formas, a elaboração por mãos humanas, o desejo de compartilhar informações com outros amantes do assunto. Trata-se da relojoaria-arte, um mundo para apaixonados, conhecedores e colecionadores, cujo entendimento nasce e cresce com o passar dos anos.

Mecanismo relógioNela desfilam indicadores de fases lunares, de signos do zodíaco, mecanismos sofisticadíssimos expostos sob fundos de safira transparente, cronógrafos, flybacks, tourbillons atenuadores da pressão atmosférica, calendários perpétuos…, tudo arrematado por designs primorosos e elaborado por artesãos, individualmente, ao longo de muitos meses. Tecnologia? Sim, da mais alta. Porém, de um tipo muito diverso das que observamos no mundo digital.

Porém, em paralelo a constantes inovações com charme mais tradicional, a indústria suíça começa a fazer concessões a tecnologias digitais. A mais que centenária Bulgari, por exemplo, acaba de apresentar, na feira da Basiléia, o seu Diagono Magnesium.

Considerado o primeiro relógio mecânico de luxo interativo, o modelo, de tecnologia inteiramente suíça, armazena dados confidenciais utilizando criptografia, o que permite ao usuário efetuar pagamentos bancários seguros, ativar sistemas de alarme ou desbloquear fechaduras eletrônicas. Segundo Jean-Christophe Babin, CEO da marca, a ideia é “conciliar relojoaria suíça mecânica com conectividade inteligente”. Nada de excessos tecnológicos de rápida obsolescência que, de fato, não combinariam com uma peça de luxo genuíno, de alto valor e que se propõe atemporal.

Desenha-se assim um novo momento para a relojoaria. Nele, de um lado o luxo tradicional se rende a algumas facilidades do mundo digital, mantendo sua afinidade com a arte; e, de outro, a tecnologia digital se rende a alguns charmes próprios da relojoaria tradicional.
Cada um à sua maneira, ambos trazem consigo aspectos subjetivos do consumo de luxo: beleza, alto valor, exclusividade, qualidade e uma boa dose de status.

Haverá espaço, assim, para as duas opções entre os apreciadores de informação e estilo de pulso: o luxo com toque tradicional dos ponteiros, rubis e engrenagens criados artesanalmente e uma pitada de tecnologia digital e o luxo da tecnologia de ponta e design avançadíssimo com toques preciosos.

A escolha não é excludente: todos temos nossos diferentes momentos. De calma e de urgência, de rock e de música erudita, de jeans e de black tie.
Os pulsos mais cobiçados do mercado estarão bem atendidos!

Rosana de Moraes - Cópia*Rosana de Moraes é publicitária e especialista em Mercado de Luxo.
Atua há mais de 20 anos no segmento e é professora na ESPM Rio.

 

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