Brasil  

Quando a maconha vira notícia e bandeira

Por Claudio Carneiro – opiniaoenoticia.com.br

 
Com maior ou menor intensidade, a discussão sobre a descriminalização do uso de drogas é assunto que vem e que vai – como uma onda — sempre trazendo personagens que se apresentam ou se afastam das discussões, dependendo da posição que acabaram de tomar. Um exemplo: saiu Fernando Gabeira – que abandonou a ênfase da causa – e entrou Fernando Henrique Cardoso – que a abraçou faz pouco. Com a progressão da intensidade e periculosidade de drogas como o “crack” ou o “oxi”, alguns antigos defensores da maconha recuaram. Pelo mesmo motivo, outros marcaram presença.  

O tema invade as páginas dos jornais e chega às telas do cinema. Esta semana, o Supremo Tribunal Federal – polêmico fórum de causas idem – liberou a antes reprimida Marcha da Maconha. Em seu argumento, o ministro Celso de Mello declarou que “nada se revela mais nocivo e perigoso que a pretensão do Estado de proibir a livre manifestação” no que foi acompanhado de forma unânime por oito ministros daquela casa – liberando a marcha da maconha em suas diversas versões e praças.

No escurinho do cinema, a discussão ganha personagens como Bill Clinton, Jimmy Carter e o próprio ex-presidente FHC. Grande barato do momento, o documentário “Quebrando tabus” de Fernando Grostein Andrade – irmão de Luciano Huck – relembra o discurso pra lá de antiquado do pra lá de reacionário ex-presidente norte-americano George Bush, pai do pra lá de mentiroso ex-presidente George W. Bush. Quando declarou guerra às drogas há 40 anos, Bush dizia ao povo norte-americano com o dedo em riste: “Usar drogas ilegais é contra a lei. E quando você for pego, será punido. Alguns acham que não haverá espaço nas cadeias. Pois fiquem certos, nós criaremos espaço”.

No mesmo documentário – onde Grostein ouve ainda estudantes, escritores, policiais e os ex-presidentes do México, Ernesto Zedillo, da Colômbia, César Gavíria e Suíça, Ruth Dreifuss – o médico Dráuzio Varella ensina que não se pode colocar na cadeia uma pessoa que está doente: “No futuro vão dizer de nós: olha o absurdo que faziam com as pessoas. Pegavam uma pessoa que usava droga e trancavam na cadeia”. De nossos escritores mais respeitados e parceiro de Raul Seixas em “Gita”, “Tente outra vez” e “Como vovó já dizia”, Paulo Coelho defende a verdade e transparência na campanha antidrogas: “Droga é fantástico. Você vai gostar. Mas cuidado, hein? Porque você não vai poder decidir mais nada. Basta dizer isso”, receita ele. No documentário de Grostein, Bill Clinton admite ter um irmão viciado em cocaína. Ele prega a descriminalização. Já o autor do livro “15 to life”, Anthony Papa, defende a descriminalização e a liberação: “Se você não consegue controlar drogas dentro de um presídio de segurança máxima, como vai controlá-la numa sociedade livre?”.

FHC pensa o mesmo ao afirmar que a repressão, nos padrões em que ela se dá, é uma guerra perdida que só fortalece o crime organizado. Quando curtia o barato dos ares palacianos que também embriagaram Lula, Cardoso – ele admite – não tinha consciência da problemática envolvendo a droga: “Pensar num mundo livre de drogas é uma coisa utópica. Nunca houve um momento sem droga. Agora, você pode reduzir o dano que a droga causa à sociedade”. O posicionamento de FHC em defesa das drogas mais leves – como a maconha – causou reações inesperadas no tucanato: titular da Secretaria Nacional Antidrogas entre 98 e 2000, Walter Maierovitch disse que seu ex-chefe é uma farsa. Maierovitch é defensor do modelo português que criminaliza o comércio mas não o uso — com o que FHC não concordava na época. Hoje, FHC, Gavíria e Zedillo defendem cinco pontos: transformar em pacientes do sistema de saúde os dependentes de drogas; dar enfoque de saúde pública ao que hoje é tratado como assunto policial; criar campanhas e gerar conteúdos que desestimulem o consumo; combate implacável ao crime organizado, à lavagem de dinheiro, tráfico de armas e controle de territórios; e erradicação do cultivo como repressão e programas de desenvolvimento alternativo.

A receita de cada um

Os dez anos de descriminalização das drogas em Portugal resultaram na diminuição drástica do uso e abuso de drogas bem como os danos como a criminalidade e a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis. O processo lusitano está sendo observado com interesse pelos Estados Unidos. Curioso da legislação portuguesa é que o tráfico continua ilegal mas os padrões em relação ao usuário mudaram: pode-se comprar, portar e usar drogas para uso pessoal para um período de dez dias – seja maconha, cocaína ou droga sintética. No aspecto econômico, o Estado português deixou de gastar dinheiro para reprimir, prender e processar. Os recursos foram realocados para as clínicas de dissuasão, com médicos especializados para os dependentes que requerem tratamento.

Tradicionais e históricos usuários de ópio – que traziam de seus territórios na Ásia – os holandesas fumaram seus primeiros cigarros de maconha depois da Segunda Guerra Mundial. Nos anos 70, o governo classificou as drogas em pesadas e leves. A maconha em pequenas quantidades passou a ser tolerada e vendida em cerca de 200 coffeeshops. Mas a partir do próximo ano, o paraíso para os maconheiros internacionais vai acabar — fato que pode abalar o turismo local, visto que 23% dos turistas frequentam coffeeshops.

Segundo a ONU, 5% da população mundial – pouco mais de 200 milhões  de pessoas – consomem drogas ilegais a cada ano. O vício movimenta cerca de U$ 322 bilhões – o equivalente a R$ 514 bilhões. A cannabis é a droga preferida de 80% dos usuários. Do total dos consumidores, 25 milhões sofrem de toxicomania grave. Italianos, suíços e franceses são os que mais usam maconha. Pela análise do esgoto, sabe-se que os norte-americanos de Nova York são os que mais aspiram cocaína em todo o mundo. No ranking das dez drogas mais perigosas para os seres humanos, os legalizados álcool e tabaco posam ao lado, entre outras, da heroína, da cocaína e anfetaminas.

Vítima de bruxismo que lhe causa dores e desconforto, a jornalista Lu Lacerda descobriu em duas tragadas de maconha um santo remédio para combater o problema noturno. Na busca oficial por uma receita, ela soube que médicos e psicólogos não podem prescrever ou garantir a ela o direito de usar a cannabis para fins terapêuticos. Ouvida pelo Opinião e Notícia, Lu Lacerda desabafou: “É um absurdo. Todo mundo compra droga aqui no país. Eu só não queria fazer algo ilegal. Tenho horror a drogas e de perder o controle. O que eu peço é que – como em 16 estados norte-americanos – a maconha seja vista como um medicamento”, concluiu.

Deixe um comentário