Quando a educação será prioridade?

 Por Percival Puggina – opiniaoenoticia.com.br

Na esteira do recente surto de crescimento da economia brasileira começam a surgir demandas por recursos humanos qualificados. 
 
Na esteira do recente surto de crescimento da economia brasileira, começam a surgir demandas por recursos humanos qualificados. O próprio governo federal, diante do fracasso do nosso sistema educacional capturado e idealizado pela esquerda, decidiu criar mecanismos para a importação de talentos. “Como seria bom termos gente mais bem preparada!”, dizem uns. “Precisamos de logística e recursos humanos melhores!”, reclamam outros. Logística e gente? Vá lá. Um binômio esquisito, mas serve para dizer isto: é muito mais fácil, rápido e barato duplicar a infindável BR-101 do que prover a educação ao povo. Quem desejar um Brasil mais qualificado, sob o ponto de vista educacional, terá que arrumar um banquinho e aguardar pelo menos uma geração inteira. Isso se começarmos amanhã de manhã bem cedo.

“Uma geração inteira?”, talvez exclame, preocupado, o leitor destas linhas. Sim, uma geração inteira porque antes de começarmos a alfabetizar melhor nossas crianças será preciso refazer um longo percurso que começa pela formação dos professores naquelas usinas dos recursos humanos do sistema que são as universidades (estou pensando, principalmente, nos professores dos professores). Ao mesmo tempo, haverá que abrir caminho até os registros e válvulas que comandam a entrada e saída de recursos do erário. E, também concomitantemente, acabar com as iniquidades instaladas na tradição brasileira, entre elas a que faculta ensino superior gratuito a quem poderia pagar por ele. Em menos palavras: melhores professores, mais recursos financeiros, mais bom senso.

Se abrirmos a janela para uma espiada no Brasil real, será impossível não perceber que vive-se a cultura do não saber. Poucos são os alunos que querem aprender. Menos numeroso ainda os que têm hábitos de leitura. Separa-se o lixo na cozinha, mas não se separa o lixo inserido na educação e nos meios de comunicação. É a epifania da ignorância! Cultura? Não a mencionarei sequer. A infeliz, com todas as formas de arte, só tem lugar em guetos quase desabitados. A literatura exige alguém que a produza e gente capaz de a apreciar naqueles objetos que rumam para se juntar, nos sótãos e nos porões, às lamparinas e às máquinas de escrever.

Visite, leitor, o site do movimento Todos pela Educação. É um bom site, frequentado principalmente por pessoas envolvidas com os temas da educação no Brasil. Na maioria, professores. Da última vez que o acessei estava aberta uma enquete pedindo aos visitantes para expressarem sua opinião sobre a “principal qualidade de um bom professor”. Eram quatro as escolhas possíveis. “Dominar a matéria” tinha 9,9% dos votos. “Saber ensinar a matéria” tinha 28,9%. A resposta que teve a larga preferência (58,7%) foi “Perceber as dificuldades de cada um”. Entende-se aí por que os professores se empenham tão pouco no aprimoramento e atualização do seu saber específico. As consequências são visíveis no desempenho dos alunos.

Educação não é charuto. De charutos podemos dizer que tais são de qualidade e que tais não o são. Com educação não é assim. Ou ela é de qualidade ou não é educação. E só a teremos quando as elites brasileiras colocarem crachá no peito, adesivo nos carros e forem aos parlamentos e aos governos clamar por ela com a mesma intensidade com que reclamam dos impostos que todos pagamos. Note-se, por fim: parte desses impostos vai bancar as disputas corporativas, ideológicas e partidárias de um sistema educacional que se encontra entre os piores do mundo.

Percival Puggina é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões

 

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