Brasil  

Qual o poder legítimo da Igreja?

Por Percival Puggina . www.puggina.org

“Todo o poder emana do povo”, dispõe a Constituição, afirmando um conceito político que as pessoas reconhecem como válido. Numa extensão indevida dessa mesma ideia, muitos creem que também na Igreja deva ser assim: o poder decidido no voto e a maioria deliberando sobre tudo que interesse ao povo de Deus.

Não, não estou exagerando. A ideia de escolher o Papa em eleição geral, por exemplo, está na cabeça das pessoas. Em outubro de 1991, durante a segunda visita de João Paulo II ao Brasil, a Folha de São Paulo publicou pesquisa de opinião sobre vários assuntos relacionados à Igreja. Diante da pergunta “como deve ser indicado o Papa?”, 50% dos católicos e 51% dos entrevistados optaram por uma eleição direta entre os fiéis. Diante daquilo fiquei pensando em campanha para Papa, com direito a horário gratuito e debate na tevê. No mesmo viés, todos estamos habituados a ouvir que “a Igreja precisa se adaptar aos tempos modernos” e parar de afirmar coisas “que as pessoas não aceitam mais”.

Aí estão as duas teses a que referi: o voto como a única fonte legítima do poder e a opinião da maioria entendida como fonte de doutrina. É incorreto importar da Política, para uso em outras realidades, conceitos que a elas não se aplicam. Muitos poderes não emanam do povo. Não emanam do povo, entre outros, o poder do pai e da mãe sobre os filhos, o poder de Deus, o do patrão, o das forças da natureza. Tais poderes, malgrado sua origem “não-popular”, são absolutamente legítimos e ninguém cogitaria de uma assembléia geral para eleger o Santíssimo, ou o chefe de família, ou o gerente, ou o raio e o trovão. Na Igreja, o poder foi dado pelo Pai ao Filho e pelo Filho aos apóstolos, aos quais enviou “da mesma forma” como o Pai o enviara, estabelecendo que ficaria ligado no Além tudo o que ligassem no Aquém.

Bem ao contrário do que a expressão possa sugerir, “democratizar a Igreja”, na forma como alguns pretendem, significaria tornar ilegítimo o poder que nela viesse a ser exercido e, por via de conseqüência, destrui-la, visto que ela é uma instituição onde o poder emana de Deus. Assim também, dispor sobre matéria moral com base em opiniões majoritárias representaria, na maior parte das vezes, renunciar à Revelação ou conceder “razão” aos homens contra a vontade manifesta de Deus.

 

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