PV rejeita Cesar Maia e instala crise em aliança pró-Serra no Rio de Janeiro

Fonte: vermelho.org.br

A coligação de PV, DEM, PSDB e PPS no Rio de Janeiro corre risco de se decompor, seis meses antes das eleições. O candidato a governador da chapa, o deputado Fernando Gabeira, do Partido Verde, é pressionado a recusar a inclusão do ex-prefeito carioca Cesar Maia, do Democratas, que concorrerá ao Senado.

Eliano Jorge para o Terra Magazine
“Esse assunto está sendo examinado para uma decisão dentro de 10 dias”, esquivou-se Gabeira. Nada quis adiantar. “Esse assunto vai ser visto no futuro. Estamos avaliando”.

Ele admitiu a existência de reações contrárias à presença de Maia, mas evitou maiores comentários. “Isso aí, ao que tudo indica pelos jornais e pela manifestação dos setores, há, não é? Tem que fazer uma pesquisa. Dá uma olhada em quem já se manifestou sobre isso e você vai encontrá-lo. Tá bom?”

Encontra-se facilmente, recorrendo-se ao próprio presidente do diretório estadual do PV, o vereador Alfredo Sirkis. “Cesar Maia não ajuda no jogo político. Somos contra a participação do DEM desde o início”, acrescenta, frisando, entretanto, que cabe a Gabeira decidir pela inclusão do ex-prefeito. “Existe rejeição gigantesca na classe média, que é a base eleitoral fundamental da candidatura do Gabeira”, ressalta.

– Para quem tem 35% em 2 votos para o Senado, e para o Senado vence com facilidade nos bairros ditos de classe média, só se na pesquisa a que ele teve acesso faltaram as páginas relativas, já que o instituto GPP, foi o mesmo – ironizou Maia, respondendo e-mail de Terra Magazine.

Gabeira permanece sob a dúvida. “Como eu disse, esse tema vai ser decidido ainda. Então, só posso dizer como ele vai ser decidido no momento em que ele for decidido”.

Cesar Maia considerou que as reações contrárias à sua participação têm sido “naturais numa coligação onde a convergência veio pela oposição ao governo do Estado”. Aproveitou para alfinetar: “E as restrições eram dos dois lados. Ganhou destaque de um lado pelo mais fácil acesso à imprensa”.

Ele confirmou ter recebido elogios públicos de Gabeira num evento do DEM, em 15 de março, quando parecia consolidada a união. “Sim, e até nossa participação veio por indução dele. Mas isso não importa. Entendo as pressões que ele recebe e respeito os constrangimentos dele”.

Todos por um

Não se leva em consideração a possibilidade de agregar à chapa o Democratas sem a participação de Maia. “Não, acho que esta hipótese não se coloca porque ele (Cesar) tem o controle do DEM do Rio de Janeiro. Nosso problema não é especificamente com o DEM do Rio de Janeiro, que tem bons quadros, como o deputado federal Índio da Costa. A questão não é esta, se centra mais na dificuldade com o ex-prefeito Cesar Maia e com seu filho, o deputado Rodrigo Maia”, opina Sirkis.

Questionado se aceitaria não se candidatar, tentando manter a aliança, o ex-prefeito escreveu: “Sou candidato ao Senado. Do ponto de vista político, lastimo essa situação, mas, do ponto de vista eleitoral, é muito diferente, pois me alivia em vários segmentos”. E desconversou sobre a reação a uma rejeição do PV. “Nossa máxima prioridade é a candidatura de Serra a presidente. O que for mais confortável a ele, será a nós”.

Como ainda não sabe quantos candidatos reunirá, Sirkis desconhece a duração do horário eleitoral, mas não valoriza os supostos três minutos que o Democratas acrescentaria. “Acho que, com o PV, o PSDB e o PPS, temos o tempo suficiente para ter um programa de televisão enxuto e eficaz. Demasiado tempo de televisão é tão ruim quanto pouco tempo de televisão. Não é isso que faz ser indispensável a aliança com o DEM”, analisou.

Entretanto, Cesar Maia parece ter bem clara sua relevância na eleição: “Evitar a vitória do (governador Sergio) Cabral no primeiro turno. Sem o DEM na coligação – peço registrar isso -, Cabral vencerá no primeiro turno. É o único vencedor deste imbroglio”. Atenção para nova estocada: “Será que foi isto que moveu alguns ‘aliados’ do Gabeira?”.

Ao preferir não adivinhar a decisão de Gabeira, o ex-prefeito insinua que os demais partidos aliados poderiam abandonar a chapa, como já ameaçou seu filho, o deputado Rodrigo Maia, presidente do DEM nacional. “Não faço a menor ideia. Mas quem comanda a coligação são os partidos coligados ao Serra – PSDB, DEM e PPS – e que apoiariam o Gabeira se ele quiser. Lembre que o presidente do PSDB (estadual) – prefeito Zito, detentor de uma grande quantidade de votos – tem declarado que não apoia o Gabeira. Uma situação intrigante e um pouco mais complexa que o binário proposto”.

Este é outro ponto delicado da aliança. “O palanque do PV será para a senadora Marina Silva. O governador José Serra poderá eventualmente aparecer no programa do Gabeira, prestando seu apoio a ele. Se o PSDB nos apoia, é natural que o governador Serra possa manifestar esse apoio”, esclarece Alfredo Sirkis.

Porém, o vereador não dá mostras de que a recíproca vá ocorrer. “Existe uma combinação de toda uma forma de proceder que, de fato, deixe claro que o apoio do Gabeira é à senadora Marina Silva, que é sua candidata presidencial no primeiro turno. Mas, claro, o Serra terá o direito de aparecer apoiando o Gabeira, não resta dúvida”, avisa.

Os demais partidos da coligação podem levar Serra a seus palanques. Mas… “Isso tem que ser sempre administrado de forma que não haja nenhuma ambiguidade em relação ao posicionamento do Gabeira em relação à campanha presidencial”, insiste nos cuidados Sirkis.

As mágoas

Sirkis não se constrange em relembrar os vínculos com o antigo aliado. “O Cesar Maia foi prefeito três vezes. Fui secretário de Meio Ambiente no primeiro governo e secretário de Urbanismo no segundo e no comecinho do terceiro”. Não faltam elogios até.

– Era um gestor extremamente competente, com estilo moderno de administrar, buscava se cercar de pessoas preparadas. Tínhamos divergências que eram administradas, ele permitia uma pluralidade de posições dentro da sua administração. Não era vulnerável ao clientelismo. Sempre tivemos diferenças ideológicas bastante acentuadas, mas, em nome de uma série de convergências relativas à cidade do Rio de Janeiro, trabalhávamos em cima de acordos programáticos, e de fato foram todos cumpridos por ele.

Claro que essa história sofreu um revés: “No segundo governo, começou a haver uma mudança, que eu identifico no momento em que o filho dele, o deputado Rodrigo Maia, passou a exercer um papel de protagonista. Nosso afastamento drástico se deu no terceiro governo”.

O político do PV diz ter encerrado a parceria no início de 2006. “O Cesar foi reeleito em 2004, no primeiro turno, o que mostra um apoio grande, que foi, de fato, durante muito tempo, um bom prefeito”, avalia Sirkis. “Transformou-se num mau prefeito”.

A relação azedou no auge da popularidade. “Ele, que é uma pessoa de uma psicologia muito complicada, teve, na minha percepção, uma reação estranhíssima depois da terceira vitória. Na semana seguinte, quis se lançar candidato a presidente da República, isso provocou quase um incidente entre nós, tivemos um entrevero. Comecei a sentir claramente que meu espaço de realização, dentro da administração, foi completamente solapado. Senti uma puxada de tapete enorme em relação à revitalização da área portuária, por exemplo”, rememora.

Sirkis se refere a uma série de mudanças: “Fundamentalmente, a questão da composição de governo e do grau de concessão à política tradicional e ao clientelismo. Começou a haver um verdadeiro êxodo dos melhores quadros da administração, que passaram a ser sistematicamente substituídos por pessoas dentro de um critério político-eleitoral e clientelista”.

Cesar Maia resume a questão. “Em 2006, última eleição, o PV se coligou ao DEM e ao PPS. Ele (Sirkis) foi candidato a senador com nosso apoio, como nosso tempo de TV, inclusive eu tendo dado depoimento no programa de TV dele. Em vários eventos estivemos juntos. Depois disso veio Pan (Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro) com total convergência. Só se foi em 2008 que isso ocorreu. Talvez por eu não o ter conduzido à secretaria, mantendo o subsecretário que, aliás, está no gabinete dele. Às vezes, as questões individuais e a vaidade pesam mais do que se imagina. Mas só não sei o que isso tem a ver com uma campanha para senador em 2010. Para mim está tudo bem, e eleitoralmente melhor se prevalecer a opinião dele”.

Fonte: Terra Magazine

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