Saúde  

Por que o uso do preservativo ainda é tão negligenciado?

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camisinha-wikipedia-e1457378930591A estudante universitária Daniela Assis*, de 23 anos, instalou em seu celular o aplicativo de namoro Tinder por incentivo das amigas. Depois do término de um namoro de quatro anos, sentia-se insegura, e o aplicativo foi um modo de conhecer pessoas novas. “Eu achava que não sabia mais flertar, já estava muito confortável na relação com o meu ex.”

Depois de poucas semanas e conversas com alguns rapazes, marcou um encontro em uma festa. Daniela já conversava com Pedro* pelo aplicativo há alguns dias antes de encontrá-lo pessoalmente.

Divertiram-se na festa e Daniela ficou à vontade. Pedro sabia que ela havia terminado o namoro recentemente e parecia preocupado em não pressioná-la a nada.

No momento do que seria a primeira relação sexual entre os dois, Pedro avisou-a que não tinha consigo um preservativo, perguntando se havia problema. Daniela, que também não tinha um preservativo, hesitou, mas acabou concordando.

“Eu sabia que estava errado, que deveria ter insistido pra sairmos para comprar uma camisinha ou, se fosse o caso, parar por ali. Mas na hora, parece que esquecemos. Eu só pensei que ele era um cara legal, e eu tomava pílula, então acabou acontecendo.”

camisinha pixabay

Entre os jovens, a prática do sexo sem camisinha parece comum

Casos como o de Daniela não são incomuns. Assim como ela, muitas pessoas, cada vez mais, deixam de lado o preservativo na hora da relação sexual. De acordo com a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira (PCAP), de 2013, apenas 54% dos brasileiros usava camisinha em todas as relações. Entre os jovens entre 14 e 25 anos, o percentual é ainda menor. Apesar destes números, 94% dos brasileiros reconhece que o preservativo ainda é o modo mais eficaz de prevenir doenças sexualmente transmissíveis (DST).

Principalmente entre os jovens, a palavra do parceiro muitas vezes é o suficiente para que o sexo desprotegido aconteça.

“Antes de começar o relacionamento mais constante sem proteção, sempre perguntei das condições de saúde da pessoa’, diz Gisele Costa*, de 20 anos, que conheceu seu namorado graças a um aplicativo de namoro. “Mas nunca vi nenhum exame concreto, acreditava na palavra da pessoa.”

Em uma entrevista ao Opinião & Notícia, Gisele conta que já foi pressionada para deixar o preservativo de lado.

“Pressão para o sexo em si, não, mas para fazer sem camisinha, sim. Eu estava meio alcoolizada, infelizmente. Aí na hora da excitação, não quis parar, entende? E como eu tomo pílula regularmente, não tinha a preocupação da gravidez.”

A atendente de banco Juliana Faria* diz que também já sofreu este tipo de pressão, mas não se sentiu confortável para continuar.

“Ele dizia que ‘bala com embalagem não tem graça’.”

Como Juliana, há quem sempre insista no uso do preservativo.

“Sou bem rígido em relação à camisinha, ando sempre com as minhas, pois sou medroso. Mas já aconteceu de eu encontrar alguém e a pessoa ‘esquecer’ ou falar que não gosta de usar. Eu dou logo duas opções: ou usa ou tchau”, conta o estudante de publicidade Adriano Branco, de 24 anos. “Mas existe um grupo que transa somente sem camisinha, e é um grupo GRANDE. Segundo eles, o preservativo tira o prazer.”

O músico Bruno Pacheko, da banda Lítio, também diz sempre se proteger.

“Até hoje, o que mais vai ter quando se é jovem são os pais, amigos dos pais, parentes, professores, ‘tiozões’ do churrasco que dizem ‘não vai transar sem camisinha, não quero ser tio, não!’ Ouvindo isso toda hora, fica difícil não usar a famigerada.”

homem-camisinhaPara a psicóloga Maria Manuela Barros, o principal motivo desse descuido ainda é a falta de coragem de dizer “não” ao parceiro.

“Aliada à ‘emoção do momento’, o jovem se empolga e deixa de pensar nas consequências. O parceiro diz que é melhor, alega que a menina não confia nele e então, não querendo deixar o clima ir embora, ela aceita.”

De modo geral, a preocupação parece ser, principalmente, com gravidez, e não com as DSTs. Além dos riscos mais conhecidos, há uma ameaça silenciosa, que vem crescendo. Desde 2008, o Ministério da Saúde constatou um crescimento acentuado dos casos de sífilis em gestantes e recém-nascidos. O sexo e o sexo oral são importantes vias de contaminação.

“Ainda há muito tabu acerca da gravidez indesejada e, como o aborto no Brasil é ilegal, muitas meninas e mulheres ainda travam uma batalha interna entre o que ela quer e o que é aceito. Então, o número de mulheres que se desesperam com a possibilidade de uma gravidez indesejada ainda é enorme.”

Outra razão muito apontada é o fato de o jovem não ter vivido a época em que a Aids era uma ameaça constante e terminal.

“Atualmente apenas comenta-se sobre a época da Aids, mas diversas outras doenças foram sendo descobertas. Atualmente, o novo vilão é o Papiloma Vírus Humano (HPV). Como toda doença terrível, esta também pode permanecer ‘escondida’, ainda que transmissível, ou seja, o indivíduo a tem, mas não apresenta quaisquer sintomas, não é detectada, Mas transmite para outros. Outro motivo que faz com que os jovens relaxem é a negação em usar camisinha ao realizar sexo oral, por exemplo. A doença ainda é transmitida, mas o cuidado em questão é ignorado porque ‘é frescura’.”

Entre os entrevistados pelo Opinião & Notícia, apenas um não conhece pessoas que praticam sexo sem o preservativo.

*Alguns nomes foram modificados, para proteção dos entrevistados

Caro leitor, 

Para você, por que o preservativo ainda é deixado de lado?

É um problema só dos jovens?

 

Por Erica Dourado 
Fonte: Opinião&Notícia

 

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