Por que a Bíblia termina no Apocalipse?

A Bíblia, como todo bom frequentador de escola dominical sabe, tem um final Hollywoodiano. Não um final feliz, certamente, mas aquele onde todos os pontos soltos da trama dramática – deixados em aberto para a incerteza sussurrada do público (“Eu não entendo, quando mesmo ele disse que ia voltar?”) –, são resolvidos de repente, e um confronto final e emocionante entre o herói da ação e os caras realmente maus ocorre.O fim do Livro do Apocalipse tem todos os elementos que permeiam os sonhos de qualquer diretor de cinema: dragões, bestas do mar de sete cabeças, enormes animais terrestres com dois chifres , batalhas épicas envolvendo centenas de milhares de anjos e demônios e até mesmo, em Jezebel a tentadora, uma parte para Megan Fox.

Embora o Apocalipse quase não tenha entrado na Bíblia canônica (ele foi mal em pré-estréias e foi enterrado pelas autoridades apostólicas até que um dos chefões importantes da Igreja favoreceu a sua publicação), desde sua incorporação o Livro tem sido um grande hit. Todo mundo lê o Apocalipse; todo mundo fica animado com ele, e gerações após gerações têm insistido que ele pode até estar certo sobre o que está por vir no próximo Natal.

O que está por vir

Em seu novo livro sobre as páginas finais da Bíblia, Revelações: visões, profecia e política no Livro do Apocalipse, Elaine Pagels se arrisca, com cuidado, a trazer os devotos do livro sagrado de volta à Terra. Ela aceita que o Apocalipse foi provavelmente escrito até o final do primeiro século depois de Cristo por um refugiado místico chamado João, na pequena ilha de Patmos, na costa da Turquia (embora este não seja, ela insiste, o discípulo João de Zebedeu, a quem Jesus amava, ou o autor do Evangelho). Ela ordenadamente resume a ação espetacular: João, encontrando-se diante do trono de Deus, vê um cordeiro, uma imagem de Cristo, que recebe um livro selado com sete selos. Os selos são quebrados em ordem, cada um revelando uma visão mística: 144 mil fieis eventualmente são salvos como servos de Deus, no famoso “arrebatamento”. Sete trombetas em seguida soam, sinalizando a chegada de várias catástrofes – estrelas caem, o sol escurece, montanhas explodem, bestas aparecem. Ao som da sexta trombeta, duzentos milhões de cavaleiros aniquilam um terço da humanidade. Isso tudo leva ao Milênio, que não é o fim de todas as coisas, mas o reinado de mil anos de Cristo na Terra, que, por sua vez, finalmente leva ao fim de Satanás em um lago de fogo e ao verdadeiro clímax da narrativa: o Céu e a Terra que conhecemos são destruídos e substituídos por outros melhores.

Pagels revela que o Apocalipse, longe de ser concebido como uma profecia alucinógena, é realmente um conto codificado dos eventos que estavam acontecendo no momento em que João escrevia. É essencialmente uma charge sobre a crise no movimento de Jesus no final do primeiro século, quando Jerusalém já havia caído, o Templo destruído e o Salvador, apesar de suas promessas, ainda não havia retornado. Todas as imagens do êxtase e do arrebatamento, além do que os outros livros já haviam oferecido para formar a base da fé cristã, representam pessoas e eventos contemporâneos, os quais eram bem entendidos nestes termos pelo público da época. O Apocalipse realmente é um daqueles desenhos editoriais onde, por exemplo, o “Trabalho” é representado por um macacão e um martelo, “Capital” é um saco de dinheiro de smoking e cartola, e “Justiça Econômica” é uma mulher de tûnica fluida e um olhar preocupado.

“Quando João diz que ‘a besta que vi era semelhante a um leopardo, seus pés eram como os de um urso e sua boca era como a boca de um leão’, ele está editorializando a visão de Daniel para retratar Roma como o pior império de todos”, escreve Pagels. “Quando ele diz que a besta de sete cabeças eram ‘sete reis’ , João provavelmente se refere aos imperadores romanos que governavam a partir da época de Augusto até seu próprio tempo”.

Quanto ao assustador 666, o ‘número da besta’, o texto original acrescenta, “quem tem entendimento que calcule o número da besta, pois é o número de uma pessoa”. Isso provavelmente se refere, na Gematria — o sistema de numerologia judaico –, ao contemporâneo imperador Nero. Até mesmo a visão de João de uma grande montanha explodindo é uma referência pontual à erupção do Vesúvio, no ano 79 depois de Cristo. O Apocalipse, então, é um retrato altamente colorido de fatos e eventos ocorridos da época em que foi escrito, não uma profecia do futuro.

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

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