Saúde  

Pet terapia: um atendimento animal

Cherry

Quando Cherry entrou no Prontobaby – Hospital da Criança, na Tijuca, na zona norte do Rio, na semana passada, não teve enfermeiro, paciente ou médico que não parasse para dar uma espiada no que estava acontecendo ali.

Cherry é uma cadela de 10 anos, que faz parte do Projeto Pêlo Próximo. Todas as segundas-feiras, das 15h às 16h, a equipe de voluntários leva animais para este hospital, que é apenas uma das inúmeras instituições onde atendem.

Adriana Cabana

A psicóloga Adriana Cabana, coordenadora do Centro de Apoio ao Familiar do Prontobaby, explica que as crianças que participam da visita têm que estar dentro de um protocolo do hospital, ou seja, precisam se encaixar num perfil específico que segue regras da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH). No Prontobaby, as crianças têm que ser maiores de dois anos, não podem estar com doenças infectocontagiosas nem estar com um acesso (tubo, sonda ou dreno) profundo, nada que possa causar dano para ela ou para o animal. “Elas têm que ter autorização por escrito dos responsáveis. A gente sempre preconiza as crianças que estão hospitalizadas há mais tempo”, explica Adriana.

Em uma área delimitada e devidamente higienizada, Cherry e os voluntários aguardavam a chegada das crianças. As reações eram as mais diversas, desde a criança que receia chegar perto do animal até aquela que já vem abraçando. Os voluntários entram em ação e propõem tarefas. As crianças escovam o pelo, escutam o coração de Cherry, fazem curativos de brincadeira em sua pata e escutam histórias com marionetes. Por uma hora, elas esquecem que aquele mesmo ambiente é um hospital.

Roberta Araújo

A coordenadora do projeto Roberta Araújo, que também é uma das idealizadoras do Pêlo Próximo, conta que sempre adorou animais. “Eu via que nem todas as pessoas tratavam os animais da mesma forma como a minha família fazia, com respeito, carinho, como um membro efetivo da família. Depois de mais velha, confesso que não fiquei muito satisfeita em ver o cachorro só como companhia. O que eu via é que eles ofereciam muito mais, sem tanto retorno dos seres humanos”. Por isso, ela e uma amiga começaram a pesquisar na internet e viram que instituições no exterior já faziam Atividade Assistida por Animais (AAA), Terapia Assistida por Animais (TAA), além de promover a Educação Assistida por Animais (EAA).

Roberta, então, se capacitou e reuniu um grupo multidisciplinar, com voluntários da área de saúde, educação, além de comportamentalistas e adestradores para avaliar os animais. Afinal de contas, nem todos os animais são aptos para o trabalho. “O cão pode ser maravilhoso para você, dono, mas não ser o mesmo para as outras pessoas. O animal tem que ter uma tendência natural para fazer este trabalho. Ele deve ser extremamente receptivo com pessoas e outro animais. Além disso, precisa ser extremamente dócil, e não pode de forma alguma revidar a nenhum tipo de agressão. Nós lidamos muito com autistas, por exemplo, que podem ter reações inesperadas e acabar agredindo o animal. O animal não pode de forma alguma responder a agressão. O máximo permitido é que ele se afaste ou se esquive da violência”, explica Roberta.

Os animais são avaliados antes e durante sua participação no projeto. Quando o cão envelhece, os atendimentos no projeto diminuem. Não se deve tirar o animal de uma vez, pois ele pode entrar em depressão.

Cada animal tem seu veterinário particular, mas o Pêlo Próximo tem um veterinário que atende a todos eles. Os animais precisam passar pelo crivo deste profissional para participar. O trabalho filantrópico é mantido através de doações e os animais são bancados por seus próprios donos. No entanto, existe o sonho de ter uma sede própria do Pêlo Próximo, onde poderiam ocorrer mais atendimentos. “No projeto, há fisioterapeuta, psicóloga, terapeuta ocupacional, entre outros profissionais, mas são todos voluntários [com ou sem animal], eles têm seus próprios trabalhos. O sonho é ter patrocinadores que possam regar esse jardim da solidariedade”, conta Roberta.

No total, 25 animais participam do projeto. Além de cachorros, também há calopsitas, que são destinadas a atividades com idosos. Segundo a coordenadora do projeto, as crianças sentem nervoso com os pássaros e podem acabar apertando o animal, o que pode resultar em óbito.

As abordagens são diversas. Em escolas, os animais podem ajudar a intervir indiretamente em casos de bullying, gagueira ou timidez exacerbada. Já no Instituto Benjamin Constant, referência nacional na área de deficiência visual, na Urca, na zona sul do Rio, são usados dois tipos de cães. Um para treinar as crianças para um futuro cão-guia, treinando caminhada, autoestima, segurança e individualidade, e outro que fica com aqueles que são mais debilitados. Neste caso, o atendimento é feito com Penélope, uma cadela que sofreu maus tratos e perdeu a perna traseira.

De volta ao Prontobaby, as crianças se encantam com o pelo macio de Cherry. “No mesmo dia ou no dia seguinte, a gente passa nos leitos para saber como foi a visita e o feedback que recebemos é ótimo. As crianças perguntam quando vai ter de novo. Elas melhoram com a interação, isso diminui o estresse e tem um efeito muito bom no psicológico do paciente”, explica a psicóloga Adriana Cabana. O trabalho de Cherry foi concluído com sucesso.

Fonte: Opinião&Notícia

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