Brasil  

“Perto de Arafat, Havelange é um santo”

Por Bolívar Torres – opiniaoenoticia.com.br

Para o presidente da Academia Brasileira de Filosofia, que irá indicar veterano dirigente à academia sueca, nenhum brasileiro – ‘honesto ou desonesto’ – merece mais a honraria.

Há pouco mais de um mês, João Havelange, um dos mais polêmicos dirigentes da história do esporte, desligava-se do Comitê Olímpico Internacional devido a mais uma grave denúncia de corrupção envolvendo o seu nome. Agora, de suposto cabeça do caso ISL, escândalo do qual teria recebido US$ 1 milhão, pode acabar, aos 95 anos, como o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Nobel da Paz. Pelo menos, é o que espera a Academia Brasileira de Filosofia, que irá indicá-lo até fevereiro para a Fundação Nobel. O presidente da ABF, João Ricardo Moderno, já preparou a carta oficial destinada aos suecos.
 
A iniciativa tomou de surpresa o público brasileiro, que, em meio à desconfiança da população em torno da organização da Copa do Mundo no Brasil (e os constantes pedidos de demissão ao presidente da CBF Ricardo Teixeira, ex-genro de Havelange) vem reagindo com certa incredulidade nas redes sociais. Na imprensa, detratores recorrentes do veterano dirigente ironizaram a indicação. O jornalista esportivo Juca Kfouri, que há anos critica Havelange, ironizou em seu blog: “Ao propor o nome do fugitivo João Havelange ao Prêmio Nobel da Paz, o presidente da caricata Academia Brasileira de Filosofia (vá à página dela na Internet e confira quão caricata), João Ricardo Moderno, assumiu o seu contrário e passou a ser chamado simplesmente de — Retrógrado”.
 
O sociólogo Juremir Machado também fez piada em seu blog: “O Brasil jamais teve um filósofo, um pensador com ideias originais. No máximo, bons comentadores de filosofia. Mas tem uma Academia Brasileira de Filosofia. Que, pelo jeito, não pensa. (…) Havelange está mais para Academia de Polícia. Eu sugiro Ricardo Teixeira, genro de Havelange, para Prêmio Nobel da Química. Transforma cacaca em ouro e ouro em cacaca”.
 
Mas é justamente o toque de Midas do veterano presidente que em parte justifica, para Moderno, uma indicação ao prêmio sueco.
 
“O Havelange transformou o futebol num negócio bilionário, que gera 250 milhões de empregos e sustenta 1 bilhão de pessoas”, argumenta Moderno ao Opinião e Notícia. “Isso em si já é um bem fantástico à humanidade”.
 
Santo Havelange
 
Entre outras benesses ao ser humano, Moderno ainda atribui a Havelange a eliminação do “racismo contra os negros”. Mas, Havelange acabou com o racismo no mundo? “No mundo todo, não, claro. Apenas no futebol”, corrige. Ele acrescenta:
 
“Antes do Havelange, havia uma visão eurocêntrica e racista no futebol. A Europa foi berço de diversos movimentos racistas. Hitler matou judeus, Stalin matou judeus. Não há negros na Rússia. Mas Havelange integrou as nações africanas, árabes e asiáticas fazendo um espetáculo de paz. No futebol, os povos se unem e trocam a guerra por uma partida”.
 
Moderno não acredita que as inúmeras denúncias contra a FIFA, Havelange e diversos de seus colaboradores e aliados possa atrapalhar o sonho do Nobel. Aliás, nem o fato de ter um passado ligado ao comércio – e, segundo alguns biógrafos não-oficiais, ao tráfico de armas — soa como contraditório numa prêmio que visa a recompensar quem promoveu a não-violência no mundo.
 
“É ingenuidade achar que quem vende armas está contribuindo para a violência. E eu estou me valendo da trajetória do Havelange no futebol, que é impecável e exemplar”, elogia. “Nenhuma denúncia contra ele foi comprovada. Dizem que ele recebeu 1 milhão no caso ISL. Mas esse dinheiro não é nada para ele. Com 1 milhão você nem compra um apartamento de dois quartos no Rio de Janeiro”.
 
Na verdade, segundo Moderno, as denúncias seriam apenas a consequência de um temor dos europeus pela ascensão brasileira no cenário mundial.
 
“Querem atingir o Brasil”, ataca. “E também a ele pessoalmente. Estão com medo que Havelange coloque Ricardo Teixeira como sucessor do Joseph Blatter e que com isso tenha um brasileiro no comando da FIFA”, explica, citando o atual presidente da entidade máxima do futebol.
 
Para Moderno, outro fator que fortalece a candidatura de Havelange é a comparação com os vencedores anteriores.
 
“O que o Obama fez para vencer o Nobel? E o Arafat? O Arafat explodia pessoas, matava gente com faca! Tinha uma conta de US$ 8 bilhões que deixou para a viúva. Perto dele, Havelange é um santo”.
 
O presidente da Academia Brasileira de Filosofia não esquece de alfinetar os conterrâneos que não aprovaram a indicação.
 
“Brasileiro não respeita seus ídolos. Brasileiro só respeita bicheiro. Aí o Havelange é que é desonesto… Não existe brasileiro, honesto ou desonesto, que tenha feito mais pelo mundo do que João Havelange”.

 

 

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