Saúde  

Pequenos notáveis

Por Fernanda Dias – opiniaoenoticia.com.br

Portadores da Síndrome de Asperger têm habilidades lógicas que chamam a atenção, mas não são capazes de entender códigos sociais como metáforas.

“Eu tenho tanto. Pra lhe falar. Mas com palavras. Não sei dizer. Como é grande. O meu amor. Por você…”. É cantando a letra de “Como é Grande o Meu Amor Por Você” que a pequena Gabriela Dias Amado consegue falar com facilidade uma frase inteira. No dia a dia, a menina de quatro anos, em geral, usa as palavras soltas para exprimir o que quer. Em contrapartida, aos dois anos, já era capaz de montar sozinha um quebra-cabeça de 120 peças. Apesar da dificuldade de formular enunciados, é a sua inteligência que a destaca em um grupo de crianças da mesma idade. Ao perceber o comportamento diferente da filha, a mãe de Gabriela resolveu procurar ajuda. E, em setembro, descobriu que a menina é portadora da Síndrome de Asperger, também chamada de Síndrome do Gênio: um transtorno da mente que faz com que as pessoas apresentem dificuldade de relacionamento interpessoal, fixação por determinados assuntos, áreas de interesse acima da faixa etária e olhar quase sempre perdido:

“Desconfiei que houvesse algo de errado. Quando bebê, era como se não tivesse criança em casa. A Gabriela não chorava, não resmungava de ficar sozinha. Eu só sabia que ela estava em casa porque ia espiar o berço de vez em quando. Com um mês e meio, ela dormia a noite toda. Mas, com dois anos, ela passou a ficar muito irritada e até arrancava o cabelo ou me agredia. Não podia ouvir um não. Na escola, se não fizerem a brincadeira do jeito que ela gosta, ela joga os brinquedos de lado e fica emburrada” – revela a compradora Glaucimara de Sousa Dias, de 26 anos.

O atraso no desenvolvimento da linguagem não é um sintoma comum a todos os portadores de Asperger, e sim uma peculiaridade do caso de Gabriela. Já a dificuldade de conviver em grupo e entender os códigos sociais é uma das características mais marcantes da síndrome. Os portadores de Asperger compreendem a linguagem dos computadores, das artes e da matemática com grande facilidade, mas são incapazes de entender emoções e situações sociais mais complexas. Isso faz com que eles sejam demasiadamente honestos e até mesmo ingênuos. O chefe de psiquiatria da Santa Casa, Fábio Barbirato, explica que eles sequer conseguem entender metáforas: “A professora de um paciente falou que ele comeu feito um boi, e ele ficou chateado. Achou que ela estava falando que ele parecia com um boi. A percepção deles é totalmente literal”, esclarece.

Por causa disso, a família tem que funcionar como um tradutor de todas as questões da vida, ressalta a neurologista infantil Carla Gikovate. “Se alguém da turma está sendo sarcástico ou irônico, os pais e professores devem explicar o que aconteceu. É preciso dar toques e dicas de como se portar”. Para Carla, os pacientes podem aprender até mesmo a expressar seus sentimentos.

Poucos podem ser considerados gênios

Em uma entrevista à revista Pais & Filhos de Portugal, um dos maiores especialistas em Asperger, o psicólogo Tony Attwood, ressaltou que, por serem extremamente inteligentes, eles acabam gerando grandes expectativas nos familiares quanto a questões profissionais. Mas, pela dificuldade de conviver com o outro, muitos acabam de fora do mercado de trabalho:

“Todos os que o rodeiam têm altas expectativas. O raciocínio dos pais, professores, companheiros ou colegas de trabalho é o seguinte: estas pessoas são altamente competentes nas áreas tecnológicas ou artísticas. Certamente devem também possuir competências no campo social para coisas aparentemente tão simples como manter uma conversa polida ou ler expressões faciais. Mas o fato é que quem tem Asperger não possui essas capacidades. Será capaz de inventar fórmulas matemáticas complexas, mas não percebe quando está a aborrecer de morte o interlocutor ou não hesita em chamar estúpido um professor ou o chefe se acha que se tratam de pessoas realmente estúpidas”, afirmou Attwood à publicação.

Barbirato explica que, diferentemente do que muitas pessoas pensam, os portadores de Asperger não são gênios. Segundo ele, menos da metade vai ter um intelectual acima da média. Eles são inteligentes como qualquer outra criança, mas têm um interesse maior por determinado assunto e se especializam nisso: “Tenho um paciente que sabia o nome de todas as pontes. As pessoas podem achar que ele é superdotado, mas, na verdade, o que ele tem é um interesse restrito àquilo. Ele acaba decorando naturalmente”, explica Barbirato.

Gabriela não foge à regra. Gosta tanto de quebra-cabeças que é capaz de montar um de 60 peças em minutos e sem a ajuda de ninguém: “Ela me chama para montar com ela só pela companhia, mas me corrige o tempo todo. É só eu pegar uma peça que a Gabriela me corrige, antes mesmo de eu tentar encaixá-la”, conta Glaucimara.

Tratamento multidisciplinar

Em geral, os portadores de Asperger têm consciência de suas dificuldades e limitações. Segundo Carla, a maior parte dos pacientes, depois de certa idade, passa a perguntar o que se passa com ele. “Aos oito ou dez anos ele já sabe que tem alguma coisa errada: percebe que tem mais memória do que os outros, que tem gostos diferentes ou dificuldade de entender piadas”. A consciência dos pacientes sobre o transtorno ajuda no tratamento, mas quanto antes a síndrome é detectada, ainda melhores são os resultados. Barbirato ressalta que é comum adolescentes com Asperger terem pânico, depressão ou timidez patológica. “Isso acontece porque eles não são aceitos no seu grupo de faixa etária. Quanto antes começa o tratamento, melhor ele vai entender como lidar com as mais diversas situações”.

Depois de descobrir que Gabriela era portadora da síndrome, Glaucimara logo buscou tratamento para a menina. Agora, ela é uma das três pacientes com Asperger atendidas pelo Centro Municipal de Atenção à Pessoa com Autismo do Rio de Janeiro (Cema-Rio), que é ligado à prefeitura e oferece atendimento gratuito à população. Segundo a fonoaudióloga Tânia Soares, o Centro adota uma abordagem multidisciplinar no tratamento, em que participam médicos, psicólogos, nutricionistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, fisioterapeutas e profissionais de educação física. Os usuários aprendem a desempenhar tarefas do cotidiano, fazem terapia de linguagem e trabalham a interação social.

De acordo com Tânia, não existe uma abordagem universal: “Como a própria classificação e definição do transtorno é objeto de debates internacionais, na elaboração do Cema, estudamos as aplicações de diversas linhas teóricas no tratamento. Em cada caso, buscamos uma abordagem adequada com base nessas pesquisas”.

O transtorno foi relatado pela primeira vez em 1944 pelo médico austríaco Hans Asperger. Mas, somente em 1994, foi oficialmente reconhecido no “Manual de Diagnóstico e Estatísticas de Desordens Mentais” e classificado como Distúrbios do Espectro do Autismo. Barbirato explica que, no entanto, o portador de Asperger não é autista, embora tenha características semelhantes. A principal diferença está na questão cognitivo-intelectual. O paciente com Asperger não pode ter déficit intelectual.

Segundo Barbirato, a causa da síndrome é genética: “A chance de uma pessoa com Asperger ter alguém da família com o mesmo transtorno é muito grande. Acredito que até 2012 teremos os genes do Asperger mapeados, o que permitirá que as mulheres detectem se seu filho tem ou não a síndrome ainda durante a gravidez”.

Para Attwood, a síndrome de Asperger é uma deficiência e sim uma forma diferente de ver o mundo: “Estas pessoas possuem, habitualmente, um grande desejo de aprender e procuram a verdade e a perfeição usando ferramentas mentais diferentes do que seria de se esperar. A sua principal prioridade pode ser a resolução de problemas, ao invés de satisfazer as necessidades sociais e emocionais dos outros. Será isto uma deficiência?”, indagou ele. Para Glaucimara, não. É por isso que Gabriela vai encarar este ano o desafio de mudar de escola. Afinal, ela tem muitas coisas para aprender a falar…

Escrito por: Fernanda Dias

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3 comentários para “Pequenos notáveis”

  1. ? Rodrigo Amado disse:

    Olá, sou o pai da Gabriela e essa matéria sobre minha filha é muito interessante. Realmente cada dia vivido por essa linda menina se percebe uma melhora muito grande. Quando encontro minha filha e ela vem me chamar de papai, diz saudades de você! amo voce papai. Como é bom ouvir essas palavras dela. Eu fico emocionado por ela estar conseguindo vencer essa fase. Sou separado da mãe dela + ela cuida muito bem de nossa filha. Sei que nas mãos dela está bem. Ela é muito inteligente, faz coisas que nos surpreende. Tenho muita saudades de minha pequenina. Hoje com 5 anos de idade e cada dia + e + linda. Fique com Deus minha Gabi e papai te ama de montão. Vc sempre estará em meus pensamentos. AMO VC MINHA LINDA.

  2. ? Fabiana disse:

    Adorei esta entrevista, acho muito importante a abordagem deste tema para sociedade poder destinguir os problemas das pessoas.
    Sou tia da Gabriela, e amo muito a minha sobrinha, ela realmente é muito inteligente e tenho certeza que ela vai se desenvolver muito bem no tratamento, a minha irmã tem feito de tudo para que de certo e eu confio muito nela, hoje em dia a Gabi já conversa um pouco comigo no telefone e eu só falto chorar de alegria, agradeço muito a DEUS por ela existir em nossas vidas, pois ela é um anjo que Deus nos deu.

    • ? Hannah Amado disse:

      Olha isso é verdade eu so a prima de gabi e eu convivi um bom tempo com ela é muito intenligente mais tem uma dificuldade para aprender a falar mais aos poucos ela ta falando quando ela ven na casa da vo e ela fala com migo nossa eu me surpriendo (oi hannah)
      ela tambem me chama para brincar de querbra cabeça eu me surpriendo pr inquando que eu to ali para achar o par do quebra cabeça ela ja ta la quase terminando nossa ela é muito esperta