Palavras, palavras

Crônica do Alexandru Solomon

No mundo do “sabe com quem está falando?”, a pior das coisas é ser um “sub”. Ninguém quer conversar com os “sub” e muito menos com os “sub” dos “sub”. Não é um simples capricho do acaso, tampouco uma discriminação desprovida de motivo. Somos racionais – até certo ponto – e queremos falar com quem decide, para que tudo se resolva de maneira fácil, expedita e, se possível, indolor. Então, gastar tempo e energia junto a quem nada apita e que, na melhor das hipóteses, terá de se incomodar, com empenho duvidoso, para levar à frente nossa mensagem, confessem, desanima. Nada mais frustrante do que, levados por uma indicação errada – uma palavra de sentido ambíguo, ou pior, uma anástrofe mal digerida – fazer fila no guichê errado, no qual conseguiremos, na melhor das hipóteses, uma senha para ingressarmos em outra fila. Vez por outra, erramos na apreciação, pensando estar na presença de um reles portador de recados, para descobrir, algo tardiamente, que por um imperdoável erro de apreciação, tenhamos perdido o bonde da história — da nossa história, pelo menos. Felizmente, os seres que decidem ocupam salas vistosas, zelosamente vigiadas por secretárias ferozes. Reverenciemos, pois, as molduras, com o risco de ignorar a Mona Lisa!

Mesmo venerando os poderosos, é imperioso lançar um olhar enternecido aos demais, aos ‘sub’. Como imaginar cenas de “Guerra e paz” sem o exército de figurantes? São os recrutados às pressas, inocentes úteis, sem a menor noção de sua importância de subsubcoadjuvantes. Dependendo do horário de chegada ao estúdio, poderiam integrar, em dias alternados, um ou outro dos exércitos beligerantes… Algo assim: “quem chegar antes das nove, faz parte do exército napoleônico, depois disso, será soldado russo e os últimos serão os camponeses, que terão de correr no meio das explosões de obuses de festim”. A grandeza dos átomos da figuração consistiria precisamente em ser diminutos, anônimos, insignificantes. Quase como na realidade militar e — por que rejeitar a evidência?—…parlamentar. Deputado atrasado na hora da votação fica na situação do cachorro que caiu do caminhão de mudança. Não é por coincidência que essa coleção de Tartufos afirma ter vindo para… mudar. O que iriam mudar fica mergulhado no claro-escuro da dúvida. Comprova-se a afirmativa de ser a vida imitação da arte. A de engabelar. Aplica-se a essa brava gente –os parlamentares – de forma cruel, talvez, o bordão napoleônico: “Do sublime ao ridículo há um passo só”. Seria a condição de simples coadjuvantes que torna desprezíveis, indistintamente boa parte dos integrantes do baixo médio e alto clero, relegados à condição de meros “sub”, incapazes de dar o passo que os separaria do sublime? Se, ao menos, fossem apresentados à decência! No entanto, não é por acaso que são cortejados. Possuem poder, algo além da firmeza das suas flexíveis opiniões de aluguel, que deixa perplexos os que acreditam haver um sentido no discurso que anestesia. O jogo é um pouco mais complicado do que, um dia, foi imaginado por Montesquieu. Seria essa apreciação apenas uma pobre abordagem maniqueísta? Resta o consolo de que não se pode fazer omelete sem quebrar… o sigilo bancário.

Não há apenas os bons e os maus. Os “Nós” e “Eles” só existem nos jogos de cartas. São meras palavras. Sem contar que – e aqui não cabe sombra de dúvida – os “Nós” de ontem podem se tornar os “Eles” de hoje”, para emergir como os “Nós” de amanhã, por falta de melhor opção. Como estimar a dimensão dessas transições? Foi assim que encontrei a resposta à pergunta que mal soube formular. A chave do enigma da grandeza transcende as palavras e se resume na avaliação da sombra. Se for a de um vulgar passarinho ou de uma águia, bastaria ajustar a distância entre o objeto e o anteparo sobre o qual irá se projetar, para torná-las equivalentes, ou até inverter-lhes a importância. Passarinhos ou águias, evoluem com graça na cena nacional, deixando-nos o privilégio de, resignados, admirar-lhes os discursos tão diferentes do comportamento dos seus autores.

Essa apreciação parece carregada de descrença, mas é claro que a suspeição não é fruto do acaso. De alguma forma, pertencemos á seita dos peixes que idolatram o anzol. Uma eventual revolta não passa de uma tímida reação ao invencível poder das palavras. Só poderá negar a contundência das palavras aquele cuja cabeça jamais foi atingida por um dicionário.

 
Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus`, ´Bucareste` e ´Plataforma G`, (Ed. Letraviva).

Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Martins Fontes (www.martinsfontespaulista.com.br), Galileu(www.livrariagalileu.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br).

 

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