Os piratas cara-de- pau

Gazeta de Ribeirão – publicado no contasbaertas.com.br

Opinião
Carlos Brickmann

Dilma, segundo disse, não resistiu: no Rio, deixou o camarote, onde havia muitos puxa-sacos e poucos votos, e foi para a pista, testar o samba no pé. Dilma já sambou muito –a última vez, parece, quando Jararaca e Vicente Paiva lançaram “Mamãe eu quero”. E, cada vez que abre a boca no palanque, dança. Serra, segundo disse, foi ao Nordeste para curtir, não para fazer campanha. Quem lhe terá contado que “curtir” não é obrigatoriamente uma etapa na cadeia produtiva do couro? Já a insopitável vontade de cair no samba, que o levou ao Carnaval de Salvador, que fez com que descesse às ruas de Olinda para desfilar no Galo da Madrugada (avisando antes à TV) não deve ser novidade. Basta olhar José Serra para perceber que cuíca, tamborins e surdo balançam sua cintura. E, na Bahia, há acarajé, sarapatel, tapioca –aquele cardápio irresistível para quem, o ano inteiro, a-do-ra sanduíches de pão integral com queijo branco light e uma deliciosa folha de alface (é o que serve aos convidados, também, nas viagens do jatinho do Governo paulista). Na Bahia há sol, e o governador tem aquela cor de quem não dispensa um dia de praia. Aliás, em São Paulo, na Praia Grande, entrou no mar de roupa e tudo. Um impulso, explicou. É sal, é sol, é sul! E Dilma, depois de saracotear no asfalto com um gari, tomou-lhe a vassoura e passou a dançar com ela. Houve um certo temor de que Sua Excelência fosse aproveitar a condução e cair fora do Sambódromo, mas o ritmo palpitante a fazia sentir-se uma mestre-sala. Quem brincava de princesa acostumou com a fantasia.

ELA É QUEM É
Marina Silva, também candidata à Presidência da República, não é carnavalesca, não sambou nem foi a desfiles. Será tão difícil ser sincero como ela?

BATIZADO DE BONECA

Lembra da Aracruz, uma das maiores produtoras mundiais de celulose? Depois que foi vendida à Votorantim, passou a chamar-se Fibria. Trocou de nome, mas continua existindo. Mesmo assim, a candidata Dilma Rousseff, a tiracolo do presidente Lula, vai inaugurar uma unidade da Fibria em Mato Grosso do Sul. A unidade já funciona há quase um ano; mas, como foi inaugurada com a bandeira da Aracruz, talvez seja essa a justificativa da nova inauguração. E a viagem pode ser útil: Lula e Dilma vão tentar convencer o governador André Puccinelli, do PMDB, a desistir do apoio a Serra. Puccinelli é lá o maior adversário do PT.

‘LULA’ EM LIQUIDAÇÃO
Já que “Lula, o filho do Brasil” não deu certo no cinema, agora vai para o circo. Daqui a um mês, em Belford Roxo, no Interior fluminense, dois circos especialmente montados vão exibir o filme, a preços pra lá de populares: R$ 1. Os produtores e marqueteiros políticos jogam pesado para garantir números que possam ser usados na campanha: na cidade não há cinema e, nas regiões mais pobres, onde estarão os circos, não há qualquer tipo de diversão, nem mesmo aqueles cirquinhos com buracos na lona. É claro que a entrada de R$ 1, mesmo que multidões compareçam aos circos, não cobre as despesas. Mas os excelentes patrocínios obtidos pelos produtores garantem que prejuízo eles não terão.

AS ARMAS FRANCESAS
O leitor Vitor Bonavita não concorda com as críticas à compra dos caças Rafale e do usadíssimo porta-aviões São Paulo, ambos da França. Em sua opinião, os Rafale são superiores aos Grippen suecos e podem ser mais eficientes que os F-18, dependendo do armamento que vier com os supersônicos americanos; e lembra que foi preciso comprar um porta-aviões usado porque construir um novo pode levar dez anos, e até lá a Marinha ficaria sem aviação embarcada. Outro argumento do leitor é que os Rafale vêm no bojo de um amplo acordo armamentista com a França, que inclui submarinos e corvetas. OK; só que a Aeronáutica brasileira colocou o Rafale em terceiro lugar numa lista de três. Nenhuma outra Força Aérea do mundo, até hoje, apostou nos caças franceses. E até os submarinos Skorpene (o Brasil comprou quatro, mais o casco de um quinto, a ser equipado com motor nuclear) estão em debate: a Malásia, que já os recebeu, não consegue fazê-los cumprir a tarefa básica de um submarino, submergir. Mas o contrato foi bem feito: os franceses vincularam o negócio à contratação da empreiteira Odebrecht, sem concorrência, para montar o estaleiro.

OLHA O MST AÍ, GENTE!
O Tribunal de Contas da União mandou aprofundar as análises sobre convênios entre o Incra, órgão governamental encarregado da reforma agrária, e a Cooperativa dos Trabalhadores da Reforma Agrária de Santa Catarina, Cooptrasc. A Cooptrasc é uma das 43 “entidades privadas sem fins lucrativos” que recebem dinheiro do Governo Federal e são chefiadas por dirigentes do MST. Nenhuma delas poderia receber: diz a lei que “entidade, organização, pessoa jurídica, movimento ou sociedade de fato que, de qualquer forma, direta ou indiretamente, auxiliar, colaborar, incentivar, incitar, induzir ou participar de invasão de imóveis rurais ou de bens públicos, ou em conflito agrária ou fundiário de caráter coletivo, não receberá, a qualquer título, recursos públicos”. Só a Cooptrasc já pegou R$ 11 milhões. Os números são do site independente Contas Abertas.

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