Brasil  

O topete de Itamar vai fazer falta

 Por Rudolfo Lago* – congressoemfoco.com.br

“Os dois anos do governo Itamar Franco foram a constatação de que a elite política brasileira não constrói um país decente porque não quer ou não lhe interessa”

Uma tarde extremamente fria de inverno em Montevidéu. O então presidente Itamar Franco teria um encontro com empresários uruguaios. Autoridades e jornalistas aqueciam-se na federação de comércio aonde aconteceria o encontro. E nada de Itamar chegar. Os demais representantes brasileiros no encontro não davam qualquer informação sobre o paradeiro do presidente. Alguns começaram a se inquietar, imaginando algum acidente. Mas Itamar só tinha resolvido dar um bolo em todo mundo. Ele tinha resolvido dar um passeio num shopping center!

Itamar enlouquecia sua segurança e os jornalistas que, como eu na época, cobriam seu governo com gestos assim. Nesse mundo da pompa e circunstância do poder – em que os políticos guardam o DNA do péssimo hábito da nobreza portuguesa, de se comportarem como “fidalgos” (que quer dizer “filhos de algo”, como  se quem não fosse nobre então não fosse filho de ninguém) –, Itamar fazia questão de manter a simplicidade, fazia questão de não deixar de ser o homem comum. Que viaja e quer tirar um tempo para passear um pouco, que pega o fusquinha e vai ao cinema com a namorada, que toma uma decisão econômica depois de ouvir a cozinheira comentar que o pão francês anda muito caro.

Um traço que, às vezes, levado ao exagero, lhe trazia constrangimentos. Solteirão, aceitava o assédio de namoradas eventuais. Foi assim que aceitou, levada para lá pelo deputado Valdemar Costa Neto, Lílian Lemos sem calcinha para o camarote em que estava no Sambódromo do Rio. Pelo menos, fez história na imprensa brasileira, com o primeiro – e, se a memória não falha, único ainda – nu frontal publicado nas capas dos principais jornais do país.

A verdade é que, muito mais do que Lula que, apesar do vocabulário simples e das metáforas futebolísticas, sempre demonstrou imenso prazer com as benesses do poder, Itamar foi a melhor representação do homem simples brasileiro no comando do país. Especialmente por conta de um importante traço de personalidade: sua honestidade. Seus dois anos de governo foram provavelmente o tempo em que mais se aproximaram no Brasil a ética e a política.

Quando uma denúncia mais forte envolveu seu ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves, com o escândalo dos anões do orçamento, Itamar afastou Hargreaves do governo. Esperou que ele se defendesse como homem comum e só trouxe Hargreaves de volta depois que se comprovou a sua inocência. Qualquer semelhança com os casos José Dirceu, Erenice Guerra e Antônio Palocci…

Quando Itamar era presidente, um dos homens mais poderosos do país era Antonio Carlos Magalhães. ACM, ou Toninho Malvadeza, era conhecido pelos dossiês que produzia contra seus inimigos. Constrangia e chantageava com as denúncias que produzia. Um dos inimigos de ACM era o hoje deputado Jutahy Magalhães Júnior, que era então ministro de Itamar. ACM pede uma audiência com Itamar. Diz que levaria graves denúncias contra Jutahy. Não passavam de recortes velhos de jornal, e Itamar sabia disso. Para desmoralizar ACM, Itamar, então, abriu a audiência para a imprensa. ACM ficou com cara de tacho. Não tinha nada. Nem Jader Barbalho, na sua briga histórica com ACM, foi capaz de deixar o ex-senador baiano com cara de tacho.

Os dois anos do governo Itamar Franco foram a constatação de que a elite política brasileira não constrói um país decente porque não quer ou não lhe interessa. Se Itamar fosse presidente em outras circunstâncias, talvez não tivesse dado tão certo. O fato é que as principais forças políticas do país uniram-se para derrubar Fernando Collor e o condomínio corrupto que fora criado e empossaram Itamar, o vice, num processo legal, dentro das normas da Constituição. Itamar governou com o apoio desses mesmos partidos que estão aí: PMDB, PSDB, PFL, e com o PT – no oportunismo que historicamente o caracterizou, de não se envolver como protagonista para poder sempre se apresentar como alternativa (assim foi na eleição de Tancredo e na Constituinte) – fingindo que fazia oposição.

Pois esses mesmos partidos produziram dois anos de governo honesto e eficiente. Produziram um plano econômico, o Plano Real, que pôs por terra uma inflação incontrolável, que corroía qualquer possibilidade de estabilidade e desenvolvimento. As novas gerações não conseguem sequer imaginar o que era viver num país que tinha inflação de mais de 80% ao mês. Onde os preços dos produtos aumentavam várias vezes num único dia. Em que as pessoas não eram capazes de saber o valor de nada, nem dos seus próprios salários.

Naquele momento, os partidos entenderam que o governo Itamar tinha de dar cem por cento , porque, depois da deposição de um presidente, qualquer risco de crise institucional podia comprometer o futuro da democracia brasileiro. E o futuro dos seus próprios projetos. Por isso, adiaram por dois anos seus projetos de dilapidação do país.

Em torno de um presidente honesto, simplório até (por conta disso, chegou a ganhar o apelido de Forrest Gump, porque, mesmo às vezes parecendo idiota, como no episódio da falta de calcinha de Lílian Ramos, tudo dava certo com ele e para ele), que não demonstrava a mínima condescendência com a corrupção, construiu-se o futuro brasileiro.

Se hoje o Brasil tem uma economia estável, que transformou em “marolinha” os tsunamis econômicos que assolaram e ainda assolam os países mais desenvolvidos, se aqui tudo está calmo enquanto os gregos atiram pedras em policiais, os espanhóis ocupam as praças públicas e os empresários começam a achar que não vale a pena investir nos Estados Unidos, deve isso ao que começou a acontecer no governo Itamar Franco.

Um país que agora vai sentir muita falta do duro oposicionista que os poucos meses no Senado já esboçavam. A oposição de um homem sério era um item indispensável da democracia nacional. O topete de Itamar vai fazer muita falta.

*É o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, Rudolfo Lago atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultaram na cassação do senador Luiz Estevão

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