Saúde  

O tabu entre a palmada e o diálogo

Por Vivian Vasconcellos – opiniaoenoticia.com.br

Especialistas afirmam que, quando se trata de violência contra crianças, a família é responsável pelos maiores casos de agressão. Segundo Gilberto Velho, autor de Violência, Reciprocidade e Desigualdade: uma perspectiva antropológica, a violência contra crianças e adolescentes ultrapassa o ataque físico e estende-se a ameaças e abusos psicológicos. Neste cenário, pais e educadores discutem quais as melhores formas de educar. A palmada ainda é considerada por uns um eficaz gesto para educar os filhos e por outros, uma forma agressiva de humilhação.

Psicólogo e fundador do Instituto NOOS, Carlos Zuma é um dos associados da Rede “Não Bata – Eduque” e é contra qualquer forma de agressão a crianças e adolescentes. “Educar exige o responsável dar limites, o que não significa bater”, conta ao Opinião e Notícia. Com argumentos de disciplina rigorosa e tradicional, alguns pais desafiam Zuma, dizendo que, apesar de terem recebido esse tipo de educação, não sofrem por isso.

Na maioria das vezes, a violência é aprendida ou vivenciada. O psicólogo busca um trabalho para que o indivíduo relembre o que sentia na época em que apanhava. “O indivíduo passou por cima daquela situação, mas não tem como ele dizer que gostava desse tipo de agressão.” De acordo com historiadores, o castigo físico em crianças foi introduzido no Brasil pelos padres jesuítas no século XVI, conhecido como palmatória. “Se for para mantermos a tradição, não seríamos civilizados. Temos que mudar nesse sentido”, afirmou Zuma.

A Associação Brasileira de Crianças Abusadas e Negligenciadas afirma que anualmente 4,5 milhões de crianças são vítimas de abuso e negligências. Dentre muitas agressões, existem questões sociais e culturais a serem tratadas. Para a psicanalista e professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio Junia de Vilhena, é preciso considerar também a negligência com que o Estado trata essas famílias, não dando suporte educacional e social para as situações do dia-a-dia. “Uma mãe que tranca o filho em um quarto durante todo o dia é considerada uma agressora? Mas e uma mãe que tranca os filhos para que eles não se misturem com o tráfico, na porta de casa?”

A alternativa para as agressões física e verbal — palmadas, beliscões, tapinhas na mão, pontapés, puxão de cabelo, rejeição ou desqualificação da criança ou do adolescente, xingamentos, entre outros, todas consideradas inaceitáveis pela rede “Não Bata- Eduque” — pode ser mais simples do que parece. O diálogo é apresentado como essencial, uma vez que crianças não nascem sabendo e precisam entender o que fizeram errado. Tirar objetos importantes para crianças e tirá-las de atividades que as interessem naquele momento, como brincar com os amigos e ver TV, também são eficazes, se implementados com um tempo razoável, de acordo com cada idade.

“Mais importante que criticar é elogiar a criança que têm atitudes boas e produtivas ou quando apresenta um bom comportamento. Não podemos partir do princípio que tudo o que a criança faz é uma obrigação dela”, comenta a psicanalista Junia de Vilhena.

Ambos os especialistas entrevistados afirmaram que muitos pacientes que apresentam comportamento agressivo sofreram agressões quando crianças. Tão grave quanto, eles afirmaram que pode acontecer o outro extremo: o adulto se tornar passivo, introspectivo e com baixa auto-estima.

O instituto “Não Bata – Eduque” visa a Reforma Legal, a fim de “assegurar a vigência plena de legislação efetiva para a proteção de todas as crianças, incluindo a proibição explícita dos castigos físicos e humilhantes”.

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