O prazer é um pecado?

Na última semana, o Vaticano se mostrou incomodado com o tratado acadêmico de um freira sobre a sexualidade, e o papa o condenou, sendo assim responsável por disparar as vendas do mesmo, que atingiu a lista de best-sellers seis anos após a sua publicação.

Para a colunista do New York Times Maureen Dowd, esse é apenas mais um capítulo da empreitada do Vaticano para empurrar as freiras norte-americanas – e todas as mulheres católicas – de volta à submissão. Mesmo para uma igreja que se move lentamente, essa medida foi surpreendente. Just Love: A Framework for Christian Sexual Ethics (Só amor: um programa para a ética sexual cristã, em tradução literal), escrito pela irmã Margaret Farley, de 77 anos, professora emérita da Universidade de Yale, ex-presidente da Sociedade Teológica Católica dos Estados Unidos e uma estudiosa premiada, foi originalmente publicado em 2006.

“A Congregação do Vaticano parece tão hostil às mulheres quanto o Comitê Saudita para a promoção da Virtude e Prevenção do Vício”, afirma a mordaz colunista. “Passou anos analisando o texto, censuraram no dia 30 de março e só anunciaram a proibição na segunda-feira, 4?.

Para Dowd, a denúncia contra o livro da irmã Farley é baseada no fato de que ela lida com o mundo moderno como ele é. Farley se recusa a acreditar no mundo ilusório ao qual o Vaticano se apegou, onde os homens governam sem respostas malcriadas das mulheres, os gays são doentes, os divorciados não podem se casar, os homens e mulheres não podem usar métodos anticoncepcionais, a masturbação é um tabu e o celibato consagrado, mesmo com os escândalos globais de pedofilia.

Em uma prosa antiquada, porém rica em perspectivas históricas e globais, a irmã Farley afirma que a justiça precisa governar os relacionamentos. No interesse da justiça consigo mesmo, a  irmã Farley argumenta que a masturbação precisa ser “movida para fora do reino da moralidade e do tabu”. Para ela, Immanuel Kant, que considerava a masturbação “abaixo do nível dos animais”, deve dar lugar a Alfred Kinsey: “É certamente o caso de muitas mulheres do século XX, que descobriram um grande bem em se dar prazer – talvez especialmente na descoberta de suas próprias possibilidades para obter prazer – algo não muito experimentado ou mesmo conhecido em suas relações sexuais normais com maridos ou amantes”, escreveu. “Desta forma, pode-se dizer que a masturbação na verdade serve as relações ao invés de dificultá-las”.

Um sopro de ar fresco em uma igreja estupidificante, Farley trata da relação de pessoas do mesmo sexo e do casamento após o divórcio da mesma forma. “Quando se torna impossível manter um relacionamento conjugal, a obrigação de fazê-lo é liberada”, escreveu ela, acrescentando: “como na Idade Média, uma perna quebrada impossibilitava a continuação de uma peregrinação iniciada”.

Enfrentando o Concílio de Trento e uma igreja que assumiu uma posição contra o prazer, a irmã Farley afirma que a reprodução não é a única razão para os casais terem relações sexuais. “Fecundidade não precisa se referir apenas à concepção de crianças. Pode se referir a múltiplas formas de fecundidade do amor de outros, cuidar dos outros, fazer um mundo melhor para os outros”, escreveu.

Vaticano mão-de-ferro

O Vaticano não demonstrou misericórdia, proclamando que “o uso deliberado da faculdade sexual fora do casamento ou da procriação, ou por conta própria, está errado, que atos homossexuais são um desvio e que os casamentos são indissolúveis”. A irmã Farley emitiu um comunicado afirmando que ela não tinha a intenção de fazer um livro para criticar o ensino oficial da corrente católica, e os acadêmicos a defenderam.

De acordo com Maureen Dowd, esta última luta ignóbil com uma freira contribui para a imagem de uma Igreja Católica em constante atitude defensiva, em meio a denúncias de corrupção e escândalos sexuais, atacando qualquer um que tem a coragem de dizer o óbvio. A igreja simplesmente perdeu a noção do certo e errado.

O Cardeal Timothy Dolan da Arquidiocese de Nova York, criticou o New York Times depois que a jornalista Laurie Goodstein escreveu que o arcebispo de Milwaukee autorizou, em 2003, pagamentos de até US$ 20 mil para padres acusados de abusos sexuais como “um incentivo para eles concordarem com a demissão do sacerdócio”. O cardeal, através de um porta-voz, alegou que o dinheiro era “caridade” e não “suborno”. Mas se você fosse o pai de um menino abusado por um padre que foi embora com US$ 20 mil, talvez “caridade” não seria a palavra que lhe viria à mente, diz Dowd. Segundo a colunista, a crise institucional está tornando a igreja cada vem mais cruel.

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3 comentários para “O prazer é um pecado?”

  1. ? Maria Helena disse:

    SANTA IGNORÂNCIA.TUDO MUDA.EXATAMENTE PORISSO EXISTE A NOITE E O DIA.SÓ O VAT ICANO CONTINUA QUERENDO PERMANECER NA EPÓCA DAS FOGUEIRAS.TA LHERES DE OURO USADOS PELA IGREJA JÁ NAO IMPRESSIONA.A TODO MOMENTO VEMOS ESTAMPADOS NOS JORNAIS CASO DE PEDOFILIA COMO SE ISSO FIZESSE PARTE DO DIA DIA .LIMPAR UMA CASA DÁ TRABALHO,É BEM MAIS FÁCIL VARRER A SUJEITA P DEBAIXO DO TAPETE E CONTINUAR POSANDO DE.EU SOU O FAXINEIRO QUE INVENTOU A LIMPEZA.

  2. ? Deuteronomio11 disse:

    O Vaticano está preservando a sua doutrina, através da ortodoxia de seus ensinamentos. O que está fora de enquadramento deve ser posto de lado. Muitos católicos insatisfeito querem modelar o Catolicismo de acordo com seus interesses. Se está insatisfeito com os ensinamentos é só sair e procurar outra religião ou nenhuma.

  3. ? Luiz Cabral disse:

    O Vaticano precisa urgentemente rever suas posições.