Brasil  

O Haiti é aqui

Escrito por: Paulo Gurgel Valente
Fonte: opiniaoenoticia.com.br

Há pelo menos quatro profissões que influem diretamente nos destinos das vidas humanas: os médicos, pela interferência na saúde, os militares, através dos generais que ficam nos quartéis e enviam tropas às frentes de batalha, onde é certo que haverá baixas, os economistas, cujos planos econômicos equivocados condenam muitos à penúria e os políticos, aí considerados os “administradores públicos eleitos”.

No caso recente do Rio de Janeiro de abril de 2010, a contagem de, pelo menos, cem perdas humanas é devida à má administração de recursos financeiros da Prefeitura e do Estado, aí incluídos casos não publicáveis; atribuir à meteorologia a quantificação do índice pluviométrico, conhecendo-se a cidade e a região metropolitana desde a sua fundação, há praticamente 500 anos, e as características águas de março, extensivas agora a abril, é uma desculpa inaceitável.

A autoridade municipal tem todos os poderes para impedir construções nas encostas, desapropriar edificações ilegais e promover a relocalização e, se não o fez, foi por ineficiência, conjugada pelo populismo que herdamos do “socialismo moreno”, cuja filosofia era a permissividade e, porque não, o objetivo eleitoreiro. Se, ao longo das últimas décadas, esta função tivesse sido cumprida com rigor, a probabilidade de acidentes como os que estamos vivendo seria muito diminuída.

Por outro lado, os investimentos em sistemas de proteção para prevenir enchentes, limpeza de bueiros e valas teria sido uma opção mais útil do que, por exemplo, a Cidade da Música, cujo orçamento, noticiava o Globo em fevereiro de 2008, estavam em R$ 460 milhões, cinco vezes o valor inicialmente projetado; a quanto monta este investimento em 2010, ainda não utilizado e sem previsão, e a quantas anda o valor investido, poupamos os leitores do desgosto.

Na falta de direcionamento adequado da Prefeitura para os investimentos relevantes, a orientação que o cidadão recebe em casos de calamidade é “ficar em casa”, paralisar as atividades pessoais, o comércio, a indústria e os serviços e, para os que moram em encostas é procurar abrigo em “equipamentos públicos” ou buscar favores de caridade.

Na fúria de arrecadação, tanto a Prefeitura quanto o Estado, mal se inicia o ano, enviam para os contribuintes as guias do IPTU e do IPVA, desnorteando os orçamentos familiares, sem falar dos demais impostos como ISS e ICMS que nos cercam o ano inteiro. Não seria o caso de devolução destes impostos neste momento, tal como prevê o Código de Defesa do Consumidor em produtos defeituosos?

A questão da carga tributária do Brasil ser recorde e crescente, comparativamente ao PIB e a outros países, é que aqui não se obtém o retorno dos impostos, haja vista o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), criado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que em 2009 nos coloca na vergonhosa 75ª colocação mundial. Esta certamente não é uma informação útil para ser aproveitada na próxima campanha eleitoral.

Esperamos que o planejamento profissional dê lugar às praticas eleitoreiras e que os incidentes, desconfortos e as tragédias como a atual tenham algum efeito sobre os eleitores; devemos buscar políticos com soluções para nossos problemas cotidianos em lugar de demagogos e inauguradores de placas de obras que nunca são entregues.

Vamos trabalhar para ter um destino melhor do que o Haiti.

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