O guizo no pescoço de Ciro

Por Rudolfo Lago – congressoemfoco.com.br 

Deixando de lado as eventuais desconfianças que cada uma das torcidas eleitorais nutre por cada instituto de pesquisa, quem acreditar nos números do último Datafolha deve preparar-se para a forte possibilidade de descartar o primeiro cenário, que mostra José Serra com 38% e Dilma Rousseff com 28%.  Tudo indica que logo, logo, vamos partir para o segundo cenário, que mostra Serra com 42% e Dilma com 30%. Por uma razão muito simples: nesse segundo cenário, Ciro Gomes não participa da pesquisa. Para quem tinha Ciro como opção, vai o aviso: a ampla maioria da direção do PSB hoje o quer fora da disputa presidencial; o anúncio fatal só não se deu ainda porque Ciro pressiona pelo contrário e tem uma forte personalidade.

O aviso não vai demorar. Na próxima semana, no dia 27 de abril, o mais provável é que Ciro fique sabendo oficialmente que o PSB não vai lhe dar legenda para disputar a sucessão do presidente Lula em outubro. Quem conhece Ciro sabe que, nessa hipótese, ele vai xingar cobras e lagartos na hora em que for comunicado de que não será candidato. Por isso, o PSB convocou uma força-tarefa para colocar o guizo no pescoço de Ciro. O combinado é que o anúncio a Ciro de que a candidatura não acontecerá será coletivo.

Segundo um dos dirigentes do PSB – que não se identifica para não capitalizar contra si o conhecido mau humor de Ciro -, a provável derrocada da candidatura do deputado pelo Ceará é fruto de uma soma de fatores. Ciro tem responsabilidade por alguns, por outros não. Em primeiro lugar, o jogo pesado do governo na insistência em viabilizar a eleição maniqueísta Serra X Dilma, ou, na acepção que buscam, presente X passado, esquerda X direita, bem X mal. Só haverá mesmo Marina Silva e uns poucos nanicos a fugir dessa dicotomia. Nem mesmo a impressão que as pesquisas passam – de que os votos de Ciro, quando ele sai da disputa, vão para Serra e não para Dilma – ajudou a arrefecer a vontade férrea de Lula de evitar a todo custo qualquer outra candidatura dos partidos da base além da de Dilma. O governo pressionou, o PSB cedeu.

“Nós acabamos nos colocando num mundo que não é o melhor para nós”, diz esse dirigente. “Nossa posição na aliança com o PT é subalterna, não é boa. Mas também não conseguimos agregar mais nenhum parceiro à candidatura de Ciro, e acabou também não parecendo uma boa saída partir para uma aventura presidencial sozinho”, completa.

Mal ou bem, a parceria com o PT renderá alguns frutos ao PSB. O caso mais visível parece ser o de Pernambuco, onde o PT apoiará a reeleição do governador Eduardo Campos e, em troca, terá na chapa o ex-ministro da Saúde Humberto Costa como candidato a senador. Em Brasília, deve acontecer o contrário: o PSB apoia o petista Agnelo Queiroz e, em troca, entra como candidato a senador o deputado socialista Rodrigo Rollemberg. O PT deixou claro que uma candidatura solo de Ciro atrapalharia essas alianças.

O segundo ponto de dificuldade é o próprio desempenho eleitoral de Ciro, que, segundo as pesquisas, foi diminuindo. Nessa última pesquisa do Datafolha, ele já aparecia atrás de Marina no cenário que tem ele na disputa.

Vai aí um terceiro ponto, que alguns dos dirigentes do PSB enxergam, que foi o comportamento errático de Ciro. No ano passado, quando Dilma começou a se mexer, e quando Marina apareceu no cenário, Ciro sumiu. Sua falta de gosto pela atividade parlamentar contribuiu. Ciro poderia ter se valido do Congresso para criar fatos. Liderança ele tinha, no PSB e no governo, para estar à frente de discussões importantes. Para opinar. Para aparecer sempre, se quisesse, como um personagem chave em questões relevantes no Congresso. Mas Ciro preferiu, como o Congresso em Foco chegou a mostrar, ser um dos parlamentares mais ausentes.

A independência de Ciro é o quarto fator. Muitas vezes, os socialistas reclamaram de não conseguir combinar com ele estratégias em comum. A pá de cal veio com o texto que Ciro publicou em seu blog na semana passada, reclamando da posição do seu partido com relação à sua candidatura. Com o título de “A história acabou?”, Ciro faz críticas duras à “polarização amesquinhada” que fazem o PT e o PSDB. E chama o PSB a reagir contra isso. “Omitir-se com relação a isso é criminoso!”, diz ele. “Essas transas tenebrosas entre o PT e o PMDB é o melhor que nossa política pode oferecer  como exemplo de prática aos nossos jovens?” , pergunta.Ao questionar o comportamento do PSB, acaba por bater forte no partido. “O que é o PSB? Um ajuntamento como tantos outros, ou a expressão de um pensar audacioso e idealista sobre o Brasil? Vai se decidir isto agora”.

“Isso foi muito ruim”, reage o dirigente do PSB. “Nós vínhamos tendo uma relação franca e aberta com Ciro. Ele não precisava ter colocado uma faca no nosso peito para cobrar posicionamento. Isso, sem dúvida, irritou quem já não acreditava na candidatura dele e enfraqueceu os argumentos de quem era favor”.

Dificilmente, Ciro conseguirá reverter esse quadro até o dia 27. “Eu diria que, hoje, é mais do que provável que nós não teremos candidatura própria”, diz o dirigente do PSB.

O problema é que o embate ocorrido até agora deixará um travo amargo tanto na garganta do PSB como na de Ciro. Ele, conforme as pesquisas, é  a opção eleitoral de um número não desprezível de pessoas. Fez uma mudança de domicílio eleitoral (do Ceará para São Paulo) que praticamente o tirou qualquer outra alternativa de disputa para outubro. A essa altura, já não tem como voltar a ser o candidato a governador de São Paulo, opção que o PT lhe oferecia (e que, se já não tinha grandes vantagens inicialmente, agora já não tem vantagem alguma). O Congresso, ele não quer.

Numa situação negociada, Ciro poderia vir a ser um bom cabo eleitoral de Dilma. Eu mesmo cheguei a considerar aqui numa coluna anterior se a candidatura de Ciro não era um jogo combinado com Lula. O desfecho dela parece indicar que não. Agora, no momento em que o guizo for colocado no pescoço de Ciro, será preciso observar como ele reagirá. Apoiará Dilma? Ficará neutro? Ou fará algo parecido com o que fez Tasso Jereissati quando foi preterido no PSDB por José Serra na disputa eleitoral de 2002? Naquela ocasião, Tasso, magoado, deixou Serra a ver navios e foi, justamente, apoiar a candidatura de Ciro Gomes. 

Rudolfo  Lago – É o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, Rudolfo Lago atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultaram na cassação do senador Luiz Estevão

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