O governo Lula diante da encruzilhada

Por Luiz Carlos Azenha
O presidente Lula é o grande conciliador. O governo que ele lidera é um sindicato que inclui da elite mais conservadora e retrógrada do Brasil aos movimentos sociais. O Congresso é aquilo tudo que vocês estão acostumados a ver. A Justiça está sob o “comando” de Gilmar Mendes, que emprega outros juizes do STF na escola da qual é proprietário, num caso crasso de impropriedade ética. Esse é o Brasil real. Um país dominado por alguns grandes grupos econômicos, que expressam seu poder através da mídia corporativa em consórcio com parlamentares “de aluguel”.
Quando Lula assumiu, em 2003, o ex-ministro José Dirceu era quase um primeiro-ministro. Ele é realista. Para formar a coalizão necessária à sustentação política no Congresso, pediu aos aliados que passassem no caixa. É sempre assim. Logo depois de assumir o poder o grupo que o faz começa a pensar no longo prazo. E o dinheiro, a gente há de convir, tem de sair de algum lugar.
O presidente Lula demonstrou uma tremenda capacidade política. Resistiu a três CPIs simultâneas e conquistou a reeleição. Faz um governo melhor do que a mídia brasileira admite mas pior do que propagam os lulistas em busca de um pai, que sonham com o varguismo do século 21. As políticas sociais do presidente alavancaram o mercado interno, incorporaram milhões de brasileiros ao consumo e a política externa projetou essa nova independência do Brasil, ainda que incompleta, em relação a interesses econômicos estrangeiros.
Em minha modesta opinião, logo depois de ser reeleito o presidente Lula cometeu um erro crucial. Ele tinha capital político para aprofundar a democracia brasileira, não apenas incorporando milhões de cidadãos ao mercado de consumo, mas também à efetiva vida política. Como? Promovendo, por exemplo, a disseminação da internet em banda larga. Deixando de criminalizar as rádios comunitárias. Promovendo as tevês públicas. Estimulando a reforma no sistema de concessões.
Poderia ter sustentado, igualmente, uma política pró-ativa de estímulo à participação popular nas decisões de governo. A interlocução do Planalto com os movimentos sociais, que já foi um avanço, poderia ter se materializado em iniciativas políticas para engajar os eleitores em mais do que o comparecimento às urnas a cada dois anos.
Mas, a essa altura, o governo Lula já era refém daquela composição feita lá atrás e estava escaldado com o jornalismo de escândalo promovido pela oposição midiática em nome do PSDB e do DEM. O presidente nada fez com a “popularidade”. Guardou-a no banco. Venceu o lulismo de resultados.  O Ministério da Agricultura ficou com o agronegócio. O das Comunicações com a Globo. O da Defesa com um tucano. Aliás, a saída de Valdir Pires do ministério foi simbólica da contínua capitulação do governo Lula à oposição. A guerrilha midiática deu resultados bastante satisfatórios.
Testemunhei pessoalmente um episódio que considero significativo. Um comício antes do segundo turno das eleições municipais em São Paulo, com a presença do presidente Lula. Fui como repórter. Chegando lá, além dos dirigentes partidários, onde é que estava a tão famosa militância do PT? Na televisão parecia um show: confete brilhante e colorido, bela iluminação e cenário e um discurso apaixonado do presidente da República. Mas no público o entusiasmo foi próximo de zero. Uma cena simbólica da “profissionalização do PT”. Justa, aliás. Trata-se, agora, de um grande partido. Que governa a República, vários estados e centenas de prefeituras.
O PT tornou-se um partido acima de tudo voltado para a sua própria manutenção no poder. Um partido preocupado em levantar dinheiro para a próxima campanha, com todas as implicações dessa prioridade. Um partido que abdicou de promover os grandes debates nacionais no Parlamento. Lembrem-se, o exemplo veio de cima. Não era prudente chacoalhar o barco da governabilidade. Nem mesmo se isso fosse absolutamente necessário para promover uma “nova governabilidade”.
O presidente Lula personalizou o espaço público e não fez uso nem mesmo do pouco que restou aos governantes diante do avassalador poder dos grandes grupos econômicos: o púlpito. Aquele que garante cobertura midiática 24 horas por dia. Aliás, de que adiantaria ter o púlpito se o Planalto aceitou o papel de refém da mídia corporativa?
O que me leva à contradição central do governo Lula e do PT, hoje. Para se manter no poder, ambos dependem de uma coalizão eleitoral conservadora, num momento em que preservar a economia depende de medidas que ameaçam os interesses conservadores dessa coalizão.
O papel do estado brasileiro, hoje, é o de decidir quem perde mais com a crise. Serão os bancos? Serão os trabalhadores? Serão os grandes empresários nacionais? Será o capital internacional investido no Brasil? Isso permanece indefinido. Esse é um debate que a oposição não quer fazer. E, como percebeu João Pedro Stedile, do MST, também parece não interessar ao governo. Leia a entrevista dele na Agência Brasil.
Como notou Ciro Gomes em uma recente entrevista, quantos debates foram promovidos no parlamento brasileiro sobre a crise? Ah, estavam muito ocupados promovendo uma CPI de Escutas Clandestinas para apurar grampos legais de uma operação da Polícia Federal! Mas não adianta culpar apenas demos e tucanos. Onde é que foi parar o PT? Abdicou de governar ou foi abdicado? O PT se resume à turma do José Dirceu? Tem ordem expressas para se compor com o PTB e o PP? Com o Sarney? Com o Collor? O fato é que o presidente da República e o PT perderam o bonde da crise. Estava tudo bem, a crise era coisa da mídia corporativa, diziam os lulistas.
Debate sobre a crise? Ah, isso é “fazer o jogo do inimigo”. Qualquer coisa que o presidente da República fizer está certo. Ele tem, afinal, o monopólio da sabedoria política. Debate sobre a crise eu li na Carta Maior. Li na CartaCapital. Li no Nassif. Li no Paulo Henrique Amorim. Li no Vermelho. Aliás, o melhor evento sobre a crise que assisti foi promovido pelo Vermelho, com a presença do presidente do IPEA, Márcio Pochman.
Pochman fez três afirmações bastante oportunas no debate: 1) o Brasil tem um histórico de se sair bem nas crises econômicas; 2) é preciso considerar que a crise também oferece oportunidades transformadoras; 3) os sindicatos precisam adequar suas ferramentas de organização, mobilização e reinvidicação à nova realidade do trabalho — em outras palavras, não dá para usar um discurso dos anos 60 no século 21.
Espera-se que a troca do presidente do Banco do Brasil tenha sido apenas o primeiro passo na assimilação, pelo governo Lula, de que a crise será muito mais grave do que imaginávamos em 2008. Não dá para aplicar a mesma lógica pré-crise às decisões políticas e econômicas que o Brasil tem pela frente. Mudou o paradigma. O presidente Lula precisa de toda ousadia e coragem política que acumulou nos últimos sete anos. Ele pode tentar o caminho à esquerda ou à direita. Ficar parado tentando agradar a todos é que não pode.

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