O avanço invisível da crise, Coluna Carlos Brickmann

Como é fácil prever o passado! Motivos para a insatisfação sempre houve, da falta de vergonha de muitos governantes aos preços altos, do transporte público deficiente aos impostos gigantescos, passando pelas ordens da FIFA que o Brasil atende com tanta presteza; mas os sinais de que a insatisfação transbordava para as ruas foram ignorados.

Houve o tumulto da Bolsa-Família, houve o tumulto nas barcas do Rio de Janeiro, o tumulto do fechamento (que acabou sendo suspenso) da Feirinha da Madrugada, em São Paulo, e também em São Paulo os protestos, sempre na Avenida Paulista, ponto-chave da cidade, dos professores do ensino público, dos agentes penitenciários, dos agentes de saúde. Os confrontos com índios foram encarados como coisa pitoresca. Mas nada é pitoresco quando envolve vidas humanas. Outro sinal: as pesquisas mostram queda na avaliação dos Governos em geral, de todos os níveis, sejam de um ou outro partido. Os protestos contra o preço do tomate também foram tomados como coisa pequena – mas nada é pequeno quando atinge o bolso da família. E, claro, o tomate foi apenas um símbolo daquilo que incomodava de verdade a população: a alta dos preços. A reação foi a mesma de Maria Antonieta, a rainha da França, quando multidões reclamavam do preço do pão. “Se não têm pão, comam brioches”.

A gota dágua foi a tarifa de ônibus. E agora? Talvez as manifestações se esvaziem com as férias escolares, talvez não. Sabe-se como os movimentos começam, mas não como acabam.

E prever o passado é mais fácil do que o futuro.

E?

Há muita gente eufórica com o sucesso popular das manifestações. Imaginemos, entretanto, que apareça um anjo bom propondo-se a atender às reivindicações dos manifestantes. Que é que o Bom Anjo poderá fazer, se até agora não se sabe qual a pauta das manifestações? Há quem diga que o problema é a tarifa dos ônibus, ponto; há quem diga que a tarifa é apenas um dos problemas.

OK: quais as exigências? Cancelar a Copa? Tornar obrigatória uma verba específica para Educação, e outra para a Saúde? Concluir a transposição das águas do rio São Francisco e livrar sabe-se lá quantas pessoas da seca?

Apenas dizer que a praça é do povo o poeta Castro Alves já dizia, há um século e meio, e em belos versos.

A voz rouca

Entrada para o jogo do Brasil, no mínimo R$ 150,00. Uma garrafinha dágua, sete reais. Um cachorro-quente, R$ 12,00. Ver a presidente fechar a cara na hora das vaias, e imaginar o que deve ter dito a seus assessores, não tem preço.

O horror do som

Vaias e aplausos em estádios têm pouca importância. Lula foi vaiado e elegeu Dilma. Médici, o mais duro dos ditadores, foi aplaudido no templo das vaias, o Maracanã, e nunca se atreveu a disputar eleição. Mas, no caso atual, há um clima difuso de insatisfação no país. É difícil defender a multiplicação dos custos com a Copa, a política econômica que gera inflação e baixo crescimento, os subsídios a países estrangeiros para beneficiar empreiteiras brasileiras. É um clima ruim.

Super-super-supersônico

O governador fluminense Sérgio Cabral Filho levou quatro horas para reagir ao quebra-quebra na Assembléia. Foi ágil: a viagem de Paris ao Rio costuma ser bem mais demorada.

Os homens invisíveis

Os destaques das manifestações foram três petistas de primeira linha:
1 – o prefeito paulistano Fernando Haddad. Dizem que pode ser encontrado ao lado de Wally, aquele de “onde está Wally?” Aumentou o ônibus e sumiu.

2 – o ministro da Educação e papagaio-de-pirata chefe, Aloízio Mercadante. Foi notadíssimo por não estar em seu posto normal de trabalho, no ombro direito da presidente Dilma, na hora em que ela foi vaiada no Estádio Mané Garrincha.

3 – O ex-presidente Lula, que se mantém em silêncio há mais de duzentos dias, desde a Operação Porto Seguro, e silente se manteve.

Atribuiu-se a ele uma declaração, embora escrita, de que manifestação é coisa própria da democracia.

O homem visível

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi facílimo de encontrar durante a crise e falou sempre que teve chance.

Seria melhor se tivesse se calado.

Os que ganham

No custo do transporte público estão embutidos impostos federais, estaduais e municipais, que oneram desde os veículos até os combustíveis, passando pelos salários. Já o transporte de luxo merece tratamento VIP: como revela o colunista Lauro Jardim (http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/), o Governo Federal oferece empréstimo a juros baratinhos, de 3% ao ano, com dez anos para pagamento, a quem comprar jatos executivos da Embraer.

No programa social Minha Casa Melhor, os juros são de 5% ao ano, para pagamento em quatro anos.

A juventude de volta

Um assíduo leitor desta coluna rejubila-se: aos 52 anos, com duas faculdades concluídas, foi convidado para voltar a ser secundarista e ganhar carteirinha de meia entrada.

O convite foi feito pelo telefone da UMES paulistana.

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