Nosso Lar, de Wagner de Assis

Francisco Taunay analisa o filme ‘Nosso Lar’

Este filme, baseado na obra psicografada por Chico Xavier em 1944, a partir das revelações do espírito André Luis, já obteve em seu fim de semana de estreia a marca de 1 milhão de espectadores. “Nosso Lar” é mais do que um simples filme, é um exemplar da doutrina espírita, que teve sua origem na França com Allan Kardec, e se desenvolveu no Brasil mais do que em qualquer outro lugar do mundo.

2010 é o centenário de Chico Xavier, e essa produção, que acompanha a biografia do medium filmada por Daniel Filho, pode muito bem superá-la em bilheteria: é um filme muito bem realizado, com efeitos especiais excelentes e uma trama bem delineada. Confesso que fui assistir ao filme com alguns preconceitos, não em torno da religião, uma vez que simpatizo com o espiritismo, e até já havia assistido à peça “Violetas na Janela”, mas por pensar que se tratava de um filme blockbuster que explora a religião para dar lucro.

De certa forma fiquei surpreso, pois “Nosso Lar” passa sinceridade e, mais do que um filme, é uma ferramenta que serve para esclarecer as pessoas sobre a reencarnação e o aprendizado nas diversas vidas que todos nós possuímos, na crença espírita de que a existência é um ato e o corpo uma vestimenta do nosso espírito. Foi esclarecedor, além de mostrar efeitos especiais de grande qualidade e atores bons como Othon Bastos e Selma Egrei.

De fato os efeitos especiais são incríveis e mostram um mundo imaginário jamais visto, em termos de qualidade técnica, em um filme nacional. Geralmente ficamos aqui no Brasil presos ao realismo, ao naturalismo coerente com as produções de baixo orçamento. “Nosso Lar”, por se tratar de uma produção de R$ 20 milhões (uma soma incrível para um filme brasileiro), consegue criar um universo próprio. Mais do que isso, este universo não existe somente pela técnica mostrada no filme, mas pela própria estética da trama, baseada nos desenhos da medium Heigorina Cunha em março de 1979, conduzida e orientada pelo espírito Lucius.

A estética do filme é realmente diferente, e a cidade celeste chamada Nosso Lar lembra a Utopia de Thomas Morus e a Cidade do Sol, criada por Tommaso Campanella, cidades idealizadas durante o Renascimento. No site do filme, podemos encontrar um modelo da cidade, que conta com o Pavilhão da Reencarnação, os ministérios da Regeneração, da Comunicação, do Esclarecimento, da União Divina, da Elevação, do Auxílio e a Governadoria. Cada uma destas obras tem como objetivo auxiliar a vida dos cerca de 1 milhão de espíritos, que esperam para encarnar novamente em vidas terrenas.

O filme é a história do médico André Luis, que morre e acorda em uma dimensão chamada Umbral, uma espécie de inferno onde as almas purgam suas falhas terrenas. Lá ele é ameaçado por outros espíritos inferiores, acometido pela fome, pela sede, e por uma ferida ulcerada no estômago, que causou sua morte. Desesperado neste lugar desolador, ele suplica por ajuda e é resgatado por espíritos que o levam para uma nova dimensão, onde existe a cidade chamada Nosso Lar. Lá ele é tratado espiritualmente, e passa por uma série de aprendizados, até conseguir obter o dom de curar os outros espíritos.

O filme passa a ideia de que nosso espírito é eterno e as nossas diversas vidas são um aprendizado para a evolução da alma. No fim, o que ficou foi uma boa experiência: apesar de questionar muitas vezes a estética e ficar no final com aquela sensação de que o filme não acaba nunca, penso que fui iniciado de uma forma boa nesse universo espírita. Tudo isso envolto pela música original de Philip Glass.

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