Nelson Mandela: um grande homem, mas não um santo

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

Muito será dito nos próximos dias sobre como Nelson Mandela foi um homem de coragem, um grande herói. Um homem que  desmantelou um sistema político opressor e discriminatório e que chegou perto da aprovação unânime. E isso é bem verdade. O mundo compreende e odeia mais o Apartheid do que outros regimes opressores graças à sua luta. Mas Mandela, como ele mesmo revelou ao autor de sua biografia autorizada, Anthony Sampson, não era anjo (“I’m no angel”).  E não era mesmo. E uma de suas maiores contradições é ter apoiado regimes totalitários e seus ditadores, os quais ele certamente rejeitaria no comando da sua África do Sul.

Leia Mais: Morte de Mandela repercute em todo o mundo
Leia Mais: O adeus a Nelson Mandela

É certamente verdade que Mandela reconstruiu uma nação dilacerada pelo racismo e pelo autoritarismo. Ele também conseguiu contornar uma previsão que observadores faziam de que a África do Sul iria simplesmente cair em guerra civil.

Mas, como aponta o jornalista sul-africano Rian Malan, Mandela também deixou para o país uma unidade instável, uma situação política pouco invejável e  regimes desastrosos e absurdos como o de Thabo Mbeki e Jacob Zuma, herdeiros do Congresso Nacional Africano (CNA), partido político de Mandela, que se revelaram corruptos.

mandela-2Para um homem de nobres convicções políticas, Mandela também tinha uma fraqueza por aqueles que tratavam seus adversários ideológicos com a mesma brutalidade que ele rechaçava na África do Sul. É essa a maior hipocrisia de Mandela. Ele foi dolorosamente lento em denunciar a ditadura de Robert Mugabe, presidente do Zimbábue. Ele também apoiava Fidel Castro e regularmente se referia ao ex-ditador líbio Muammar Khadafi como “irmão Líder da Revolução da Líbia Jamahariya” (como era chamada a Líbia até a década de 1980). Mandela, portanto, estendeu a mão a regimes opressores e violentos, justamente tudo aquilo que ele lutava para erradicar na África do Sul.

Amizades suspeitas

Em 1997, Mandela esbravejou contra a administração Clinton quando o presidente americano criticou seu apoio à ditadura líbia. “Como eles podem ter a arrogância de ditar-nos onde devemos ir, ou que países devem ser nossos amigos? Khadafi é meu amigo”. Em 2000, o jornal Boston Globe informou que, quando o Irã acusou 13 judeus iranianos e oito muçulmanos de espionagem a favor de Israel, Mandela “expressou sua satisfação com as garantias dos líderes iranianos de que o julgamento dos acusados seria “livre e justo”. Para aqueles que criticaram sua posição, ele argumentou que era um assunto “puramente interno” e que “estrangeiros devem evitar qualquer ação que possa ser considerada, com ou sem razão, como uma interferência nos assuntos de um Estado soberano”, justamente argumentos que poderiam ser usados pelo governo que ele combatia em seu país.

Há poucas pessoas que podem ser chamadas de santas, ainda mais com unanimidade. E embora Mandela tenha sido merecedor de seu Prêmio Nobel, ele não foi nem santo nem anjo. Os políticos raramente o são. Fingir o contrário é causar um  grande dano à história.

 

Deixe um comentário