Namoro ou amizade?

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Campanha contra erotização precoce das crianças ganha grande repercussão nas redes sociais e levanta debate polêmico, porém fundamental para a educação infantil
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No fim de mais um dia de trabalho, um grupo de pais conversa enquanto aguarda seus filhos saírem da escola. Em meio ao bate-papo, um dos responsáveis conta, divertindo-se, que a filha adora entregar “quem é namorado (a) de quem” na turminha de apenas três anos, em média. Todos sorriem e acham graça.

Mas criança namora? Na verdade, “nem de brincadeira”, estampa em seu slogan uma recente campanha lançada pela Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas) do Amazonas, em parceria com o blog Quartinho da Dany.

Desde que foi divulgada, no dia 5 de abril, a campanha “Criança não namora. Nem de brincadeira” ganhou uma grande repercussão, principalmente nas redes sociais. A ação, que visa conscientizar pais e responsáveis “quanto aos riscos de expor as crianças aos relacionamentos afetivos próprios da fase adulta”, o que pode “adultizar e até mesmo estimular a erotização precoce”, já foi curtida mais de 100 mil vezes e compartilhada mais de 400 mil vezes, atingindo pelo menos 28 milhões de internautas em todo o país.

Em entrevista ao Opinião e Notícia, o psicólogo Luiz Coderch, coordenador da campanha, explica que “o objetivo inicial era apenas realizar uma conscientização a nível regional”. A ação, no entanto, cresceu de forma significativa, surpreendendo a própria secretaria: “Não esperávamos a repercussão, ficamos muito satisfeitos com a demanda, pois revela que a população está interessada em realizar discussões sobre as melhores formas de educar e proteger as crianças, e a mídia tem papel fundamental nesse processo”.

Luiz Coderch disse ainda que o retorno da campanha tem sido “excelente”, com pais e ou responsáveis procurando os profissionais da Seas para tirar dúvidas e buscar orientação sobre seus filhos. “No Facebook também temos recebido várias histórias interessantes de todo o Brasil, mas creio que as melhores histórias que tenho ouvido são as dos próprios funcionários. Apesar de sermos profissionais da área, também somos pais e mães, e alguns dos comportamentos, como beijar na boca dos filhos, também são cometidos por nós, e isso faz com que o processo de reflexão e busca por melhores condições para as crianças seja uma busca de todos. Somente nessas conversas abertas seremos capazes de desenvolver medidas de melhoria na educação intrafamiliar, bem como na educação formal”.

A reação de muitas pessoas contrárias à campanha “Criança não namora” ajuda a ilustrar a dificuldade em abordar o assunto. Nas redes sociais é possível encontrar perfis que criticam a ação, apontando um excesso de “politicamente correto”.

A professora, mestre e doutora na área de infância Maria Inês Delorme, uma das autoras do blog Papo de Pracinha, ressalta, também em entrevista ao Opinião e Notícia, que encorajar “o ‘namoro’ entre crianças é mais uma ‘das brincadeiras’ que os adultos fazem que não respeitam, as vezes até desagradam as suas crianças”.

‘Estou namorando’

Luiz Coderch ressalta que muitas vezes as crianças, mesmo não tão pequenas, não conseguem diferenciar totalmente uma amizade de um “namoro”. Não se deve, no entanto, reprimir as expressões de afetividade da criança. Por outro lado, não é preciso transformar relações de respeito e carinho em namoro.

“Os pais devem ficar tranquilos e estimular através da valorização dos princípios da amizade, como por exemplo explicar para a criança quais os comportamentos da verdadeira amizade como lealdade, sinceridade e parceria. E ao explicar esses valores tenha certeza que a criança assimilará que possui um amigo e não um namorado”, diz o psicólogo.

Inês destaca também que “o tema exige de pais e professores um conhecimento ampliado e destituído de preconceitos na área da sexualidade”.

“Crianças saudáveis são curiosas em relação ao seu corpo e ao corpo dos amigos, quando percebem que os corpos são diferentes, por exemplo, e isso nada tem a ver necessariamente com interesse sexual. Agir com naturalidade e sem deixar que ‘as experiências adultas’ invadam e tomem a cena é o melhor. Já sabemos de crianças bem pequenas com comportamentos bastante ‘sexualizados e perturbadores’ mas, quando se busca entender o contexto de vida e as experiências delas, em 99% dos casos há elementos que se apresentam para ela, cotidianamente, como corriqueiros e como valorizados. Os adultos precisam ter noção sobre suas responsabilidades em todos os casos”, ressalta a pedagoga.

Além disso, segundo Inês, a erotização infantil se sustenta na cultura do consumo. Pautar desejos e comportamentos das crianças por um viés sexual que ainda não lhes pertence é cruel, “exatamente porque existe alguma valorização por parte dos adultos que a cercam”. Comprar maquiagens, tirar fotografias e expor as crianças em redes sociais, muitas vezes com roupas insinuantes, semelhantes às dos adultos, são “modos simples de tornar invisível a vida das crianças, seus direitos, desejos e suas culturas próprias”, explica.

O tema é polêmico, importante e, muitas vezes, desconcertante. Talvez tudo seria mais fácil se ficássemos com “a pureza das respostas das crianças”.

 

Autor: Priscila Fagundes – Fonte: Opinião&Notícia

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