Morte de Eduardo Campos “zera” corrida presidencial

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Fonte: Congresso em Foco
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marina_eduardocampos_divulgacao1O momento ainda é de grande comoção e de incertezas. A morte do candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos (PSB), em um desastre aéreo nessa quarta-feira (13), zerou a corrida pela sucessão presidencial ao retirar de cena o terceiro colocado nas pesquisas eleitorais. Se a eleição já era imprevisível, como disse na segunda-feira (11) ao site o diretor-geral do Instituto do Datafolha, Mauro Paulino, o que dizer agora? Em meio ao abalo com a perda de sua principal liderança, a coligação encabeçada pelo PSB tem dez dias para definir o nome de seu novo presidenciável.

 

Cientistas e analistas políticos ouvidos pelo Congresso em Foco avaliam que a morte de Eduardo embaralhou completamente o cenário eleitoral, aumentou a pressão sobre o tucano Aécio Neves e ampliou a possibilidade de a disputa ser definida em dois turnos. Desde que, nesse caso, a sucessora do ex-governador seja sua vice, a ex-senadora e ex-ministra Marina Silva (PSB). Sem ela, cresce a chance de a disputa ser decidida no primeiro turno, apostam. Na avaliação dos analistas, Marina tende a entrar na disputa mais forte do que o ex-governador de Pernambuco, que ainda era pouco conhecido do eleitorado nacional. Nas eleições de 2010, ela alcançou a terceira colocação pelo PV com surpreendentes 19 milhões de votos.

Para o cientista político Alexandre Barros, é preciso aguardar os próximos dias para “digerir” o que aconteceu e projetar os desdobramentos da tragédia. Mas, na opinião dele, a ex-ministra do Meio Ambiente tem potencial para se tornar protagonista nestas eleições, à frente de Dilma e Aécio. “Se ela resolver reivindicar: ‘Eu vou concorrer’, embaralha o jogo todo porque ela vai virar a primeira entre os três”, afirmou o cientista político.

Terceira via

Alexandre Barros entende que Marina sempre teve “vida própria” na chapa e mais viabilidade de ser a terceira via destas eleições, opção reivindicada por parte dos manifestantes que saíram às ruas em junho do ano passado. “As pessoas podem identificar a candidatura dela [assim]: ‘eu sou a candidata do pessoal que está contra tudo isso que está aí’”, disse.

Para o diretor do Instituto Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, todos os desdobramentos relacionados à morte do candidato Eduardo Campos estão diretamente ligados à participação de Marina na disputa presidencial. “Ela viria muito mais forte do que o Eduardo. Ela seria a terceira via realmente”, destaca.

Por outro lado, observa o pesquisador, se a vice não for alçada à cabeça da chapa, a tendência é que a eleição seja decidida no primeiro turno, o que aumentaria a pressão sobre o tucano Aécio Neves (PSDB), segundo colocado nas pesquisas, atrás de Dilma Rousseff (PT). “Os próximos acontecimentos dependerão se a Marina vai ou não continuar na disputa. Se ela não for, existem chances da eleição se definir em primeiro turno”, considera.

Desafio interno

Pesquisador e cientista político da Fundação Joaquim Nabuco em Pernambuco, Túlio Velho Barreto ressalta que ainda é prematuro fazer avaliações. Para ele, a morte de Eduardo impõe um grande desafio interno ao PSB, que terá reflexos sobre as candidaturas de Dilma Rousseff e Aécio Neves. “Aparentemente o nome de Marina Silva seria o primeiro a despontar em função da dimensão política dela e do fato de ela ser a vice na chapa. Se isso ocorrer, não vai ser muito fácil porque Eduardo Campos construiu pessoalmente os acordos que sustentavam a candidatura internamente e externamente também com os apoiadores”, pondera o pesquisador.

Desde outubro, quando Marina e seus seguidores migraram provisoriamente para o PSB, a tempo de se habilitar a participar das eleições de outubro, não foram poucos os atritos entre os dois grupos. Divergências que alcançaram questões como agronegócio e meio ambiente – principal bandeira da Rede Sustentabilidade, da ex-ministra – e o leque de alianças nas eleições estaduais.

Velho Barreto tem dúvidas quanto à capacidade de Marina repetir o desempenho da eleição passada. Para ele, a conjuntura política é outra, já que ela não tem o comando do PSB. Pelo acordo estabelecido em outubro, os integrantes da Rede se filiariam ao partido presidido por Eduardo para participar das eleições deste ano, mas migrariam para a nova legenda assim que a sigla obtivesse o seu registro oficial. “Ela teve um papel importante na última eleição porque ela era identificada com o PV e os princípios desse partido. Agora ela representaria o PSB. Eduardo Campos era mais desenvolvimentista e a Marina mais ambientalista. Eram visões distintas. Os dois tiveram muitas dificuldades. Ela agora passaria a ser candidata do PSB, e não da Rede. Isso vai exigir dela uma costura”, reforça o cientista político pernambucano.

Essas divergências, passado o impacto inicial da tragédia, voltarão à tona na opinião do professor. Agora, porém, sem a figura conciliadora de Eduardo Campos. “No plano nacional um dos grandes problemas será Marina fazer a costura sendo uma neófita na legenda, já que Eduardo era uma liderança soberana no PSB desde a morte de Arraes. Não sei se ela tem liderança suficiente num ninho que não é dela”, relativiza Túlio Velho Barreto.

Aécio e Dilma

Para o professor, o maior prejudicado pela ausência de Eduardo do pleito tende a ser Aécio Neves. “Ele e Eduardo Campos tinham uma proximidade que Marina não tem com o candidato do PSDB. O discurso afinado da oposição pode desaparecer porque existe pouca possibilidade de manutenção do diálogo de Marina com Aécio, o que deve abalar a unidade da oposição e pode beneficiar Dilma Rousseff”, opina.

Para Túlio Velho Barreto, Marina tende a buscar uma polarização com Dilma maior do que a que Eduardo ensaiava na tentativa de forçar um segundo turno. “Acontece que ela não indo para o segundo turno, quem se beneficia é Dilma Rousseff porque a última eleição mostrou que quem vota em Marina migra com mais facilidade para Dilma do que para Aécio. No Nordeste e em Pernambuco principalmente, onde Eduardo tinha muitos votos”, finaliza.

O analista político Antônio Augusto de Queiroz, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), entende que o componente emocional também favorece a eventual entrada de Marina no lugar de Eduardo Campos. “Acho que ela vai capitalizar conscientemente. Ela tem essa característica da religiosidade, prega tudo em torno do destino, digamos assim. Ela diria, vamos supor, que Eduardo se foi para que ela pudesse concretizar sua missão”, observa Antônio Augusto. “Ela pode dizer que foi a Providência Divina.”

Na avaliação dele, a morte de Eduardo Campos não só muda completamente o rumo da disputa eleitoral, como traz prejuízos à oposição. “Aécio, na minha opinião, vai perder com isso”, declarou o especialista, para quem tudo vai depender da definição de Marina como a substituta natural do ex-governador. Sem Marina, diz, o pleito poderia se resolver já em primeiro turno. “Com esse clima de comoção nacional e a entrada de Marina, Aécio corre o risco de que seja Marina a ir para o segundo turno com Dilma.”

Poder do “mártir”

Interpretação semelhante faz o cientista político Murillo de Aragão. Para ele, abre-se para Marina uma “possibilidade com mais vigor”. “Marina tem acervo eleitoral que pode impulsionar os índices dela. Ela agora passa a ser um vetor para a campanha”, disse à reportagem Murillo. Nesse sentido, a comoção em torno da morte de Eduardo Campos se torna, segundo o especialista, um capital eleitoral considerável. “Todo mito, todo mártir tem poder de influenciar a política. O fato de ele ter morrido nessas circunstâncias, tão jovem e, sem dúvida, o mais promissor político de sua geração, é um fator que pode impulsionar a candidatura de Marina”, completou Murilo.

O cientista político Leonardo Barreto, doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), concorda. Na avaliação dele, Marina terá uma espécie de “cobertura exclusiva” devido aos holofotes em torno da morte de Eduardo Campos, com revistas dando amplo destaque em suas páginas e programas de TV carregando no forte componente emocional – coisa que nenhum outro candidato terá à disposição.

“Ela vai sair de uma condição de largada com todas as condições para chegar muito forte. A partir de agora, é uma campanha diferente. Mas não adianta fazer pesquisa agora. O mar ainda está muito mexido”, disse Leonardo, especialista em análise do comportamento político e eleitoral.

Núcleo duro

Para Murillo de Aragão, “vários nomes” se credenciam a ser indicado ao posto de vice de Marina Silva. Ele cita como exemplo o senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), pré-candidato ao governo do Distrito Federal; o líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque (RS); e Maurício Rands (PSB), ex-deputado federal e um dos coordenadores da campanha presidencial de Campos. Mas, apesar da filosofia política de Marina, que vai liderar as discussões sobre o vice, há um componente interno a ser considerado.

“Acredito que o nome escolhido vai ser o que tem mais identidade com o núcleo partidário mais duro do PSB, que é o núcleo com quem Eduardo Campos se identificava”, apontou Murilo Aragão, sinalizando que Marina, à parte considerados seu capital político e seu simbolismo ecológico, vai ter de fazer concessões.

“Só não sei se o pessoal do PSB vai ter com ela o mesmo entusiasmo que teve com o Eduardo Campos”, pondera Antônio Augusto. O presidente nacional do PSB, em sua opinião, foi muito bem em sua “apresentação” a uma parcela maior do povo brasileiro, na entrevista concedida ao Jornal Nacional (TV Globo), na última terça-feira (12). “Mas ela certamente vai querer utilizar essa imagem última de Eduardo Campos para agregar votos.”

Já para Leonardo Barreto, dois nomes despontam entre os favoritos: o do deputado Júlio Delgado (PSB-MG), um dos principais articuladores internos da aliança PSB-Rede, e o do economista Eduardo Giannetti da Fonseca, um dos cérebros da campanha presidencial da coligação – e, segundo Leonardo, nome que “agrada” ao setor econômico. “Marina tem o desafio de achar um vice ‘orgânico’ do PSB”, opinou Leonardo. Para ele, a morte de Eduardo Campos ainda é muito recente para conclusões certeiras. “Só temos uma certeza: vai ter segundo turno. Só não sabemos quem vai estar lá com a Dilma”, analisa o especialista.

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