Saúde  

Memória superpotente é alvo de estudo

Síndrome rara permite que pessoas se lembrem o que comeram no almoço hoje ou três anos atrás, ou lembrar de detalhes de textos que leram a décadas…

 Robert Petrella é um norte-americano dono de uma memória acima do normal. Ele consegue memorizar todos os números de telefone armazenados em telefones celulares e, ao olhar para apenas uma fotografia de um lance de um jogo do seu time de coração, o Pittsburgh Steelers, sabe dizer a data da partida e o placar final.
 
Petrella possui uma síndrome tão rara que só recebeu a denominação de Memória Autobiográfica Altamente Superior (HSAM, na sigla em inglês) cinco anos atrás, depois que o especialista em memória James McGaugh publicou um artigo sobre o assunto. Em seu estudo de seis anos com uma paciente com memória incrível, ele caracterizou essa condição na qual o paciente não se esquece de quase nada do que experienciou na vida.
 
As raras pessoas que possuem a síndrome conseguem se lembrar o que comeram no almoço hoje ou três anos atrás, ou lembrar de detalhes de textos que leram a décadas. Esses indivíduos simplesmente não conseguem apagar memórias mesmo as que querem como o fim de um namoro ou as lembranças de um acidente.
 
“Eu notei isso durante o ensino secundário, me dava conta que nem todos recordavam o que eu conseguia lembrar, e pensava que era algo incomum, como ser canhoto ou algo assim. Mais tarde, notei que isso tinha outra dimensão. Sempre tive facilidade nos exames, pois lembrava de tudo sem ter feito revisão dos tópicos”, disse Petrella à BBC.
 
Para ele a síndrome se mostrou uma ferramenta de trabalho útil. Ele é produtor de documentários para o History Channel e o Discovery Channel. “Às vezes, me recordo de algo que alguém disse há 30 anos, coisas que as outras pessoas não lembrariam, porque foram ditas no momento, e isso pode tornar as relações raras”, diz Petrella
 
Diagnóstico
 
A síndrome é difícil de ser detectada, até pouco tempo apenas 20 pessoas no mundo, todas nos Estados Unidos, haviam sido diagnosticadas com a HSAM. No entanto, um programa sobre a síndrome exibido pela rede de TV americana CBS, deu destaque ao assunto. O programa foi visto por pelo menos 24 milhões de pessoas e levou 500 a contatarem os pesquisadores por acharem ser portadoras da HSAM. Dez dessas pessoas foram realmente diagnosticadas com a síndrome.
 Além disso, a HSAM já apareceu na ficção, como no conto Funes, o Memorioso, do argentino Jorge Luis Borges, e na série de TV Unforgettable (“Inesquecível”, em inglês), que acaba de estrear nos Estados Unidos.
 
O diagnóstico da HSAM é feito através de testes médicos conduzidos pelos cientistas e avaliação dos potenciais candidatos com um questionário de acontecimentos públicos ocorridos nos últimos 20 anos. As questões dizem respeito a variados assuntos, desde eleições e competições a entrega de prêmios e até acidentes aéreos. Uma pessoa com a Memória Autobiográfica Altamente Superior conseguiria dar dados precisos como a data e o dia da semana em que os eventos ocorreram. Apenas os que obtêm mais de 55% no teste passam para a fase seguinte da avaliação: questões mais pessoais.
 
‘Google humano’
 
“A família nos dá fotos ou diários para que a gente tenha dados precisos e assim provar as informações das quais eles dizem se lembrar. É muito, muito difícil que um indivíduo que registre (dados como esse) além de um certo tempo, como um nível de detalhes tão específico”, explica McGaugh. Por isso, eles foram apelidados de “Googles humanos”.
 
Apesar de ser vista como um “dom” pela maioria das pessoas, nem todos os portadores da síndrome festejam sua condição. Jill Price procurou especialistas por não conseguir suportar seu constante exercício de se lembrar de tudo e seu caso foi o gatilho para os estudos. “É incessante, incontrolável e imensamente cansativo. As lembranças vêm, simplesmente chegam na minha mente. Não posso controlá-las”, escreveu Price em sua autobiografia The Woman Who Can’t Forget (A Mulher que Não Consegue Esquecer, em tradução livre do inglês).
 
A HSAM lhe trouxe complicações para suas relações com as outras pessoas. Entre os pacientes de McGaugh nenhum é casado ou tem relações estáveis. Mesmo assim, o pesquisador conta que a maioria dos portadores não demonstra descontentamento com a síndrome. “A maioria acredita que é um dom. Se questionados se prefeririam não ter a síndrome, eles dizem que não mudariam isso por nada.”
 
Na opinião do neurobiólogo McGaugh, a HSAM é uma condição pré-existente, que se mantém ao longo do tempo e que ainda precisa de explicações neurológicas. A recomendação às pessoas com a síndrome é de não encarar a condição de forma ruim e procurar não se expor a circunstâncias traumáticas, como, por exemplo, se alistar no Exército e ir para a guerra.

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

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