Lupi, Brizola travestido

Por Leandro Mazzini – opiniaoenoticia.com.br

Carlos Lupi é a configuração da insistência. Daquele pragmatismo da persistência de trabalho e luta imprimidos pelo líder Leonel Brizola, seu tutor. E isso incomoda. O jeitão de valente que ele herdou – Brizola fez escola peculiar no Rio de Janeiro – é a cara do brizolismo. E por isso mesmo, assim como o saudoso líder, Lupi não tem papas na língua, embora o caudilho soubesse a hora de falar. O discípulo peca pela displicência vocabular, aliada à valentia descabida para o cargo e, claro, à série de irregularidades em convênios com ONGs já comprovadas pelo Tribunal de Contas da União e pela Controladoria-Geral da União.

Conheço Lupi, conheci Brizola. O exercício do jornalismo nestes 15 anos nos promove ao malicioso olhar diferenciado para políticos, aquele em que vemos seus defeitos, como também suas virtudes. Lupi é o Brizola travestido para o século 21, aquele que o caudilho não viverá, mas formatou em sua prole política: são crias de Brizola o Saturnino Braga, ex-prefeito e ex-senador; o ex-alcaide Cesar Maia;  o casal Garotinho, que governou o estado; acredite, até Eduardo Paes. Entre muitos outros. Isso não vem ao caso agora. O agora chama-se Lupi, travestido de Brizola, que com sua transformação em caudilho dos anos 2000 leva muito do mestre – a petulância, a firmeza nas palavras e no tom da voz, e, vê-se agora, a mania de causar confusão e incendiar conflitos.

Lupi não comprou confusão só com os aliados próximos da presidenta Dilma Rousseff ao desabafar que só sairia a bala. Incendiou o já esquentado PDT, seu ninho no Rio, dividido entre os que o defendem e os que o querem pelas costas. Aguerridos brizolistas tão fundadores do partido quanto ele rodam Brasília há semanas entregando dossiês a líderes partidários e jornalistas. Entre eles, os ex-deputados Bandeira e Vivaldo Barbosa, conhecidos nomes do PDT carioca. O acusam de prepotente, de mandar sozinho e não ouvir o partido. Lupi não esquenta, não dá bola. Mas houve um fato. O PDT perdeu três deputados estaduais no Rio para o novato PSD, entre eles o puxador de votos Wagner Montes, o apresentador de TV.

Com o partido enfraquecido e histórico desgastado no governo, Carlos Lupi mantém suas balas no coldre e as solta a esmo a cada ataque que leva. Esta é a sua diferença para o mestre. Brizola sabia a hora de falar. Em 2002, quando o velho caudilho estava envolto em críticas do próprio partido por sua reaproximação com o casal Garotinho para a campanha da época, trancou-se num silêncio incômodo para aliados e opositores. Um dia enfim perguntei ao velho o que justificava seu ato, após anos de trocas de farpas. “A política é a arte de curar cicatrizes”, sentenciou-me, com misto de sarcasmo e sabedoria do alto de sua experiência.

Lupi precisa curar suas cicatrizes. Obviamente ele abriu mais feridas que o esperado. Mas há tempo de costurá-las sem mais desgastes, independentemente de seu futuro.

Nota do autor – Numa entrevista para mim no início do governo Lula, Lupi vivia criticando a política monetária do governo e outras coisas. Virou ministro em 2007 e parou. É a arte do poder.

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