Ler a mente começa a se tornar realidade

Como ler o cérebro

Agora é possível escanear o cérebro de alguém e ter uma ideia razoável do que está se passando em sua mente.

Se você pensa que a arte de ler mentes é um truque de mágica, pense novamente. Nos últimos anos a habilidade de conectar primeiro macacos e depois homens a máquinas em métodos que permitem que os sinais cerebrais digam a essas maquinas o que fazer melhorou muito.

Mas existe outro tipo de leitura da mente também: determinar, escaneando o cérebro, o que alguém está realmente pensando. Esse tipo de leitura da mente é mais avançado do que os feitos com máquinas, mas está chegando, como mostram claramente recentes estudos. Um destes estudos é uma tentativa de decifrar sonhos. Um segundo pode reconstruir  uma imagem em movimento do que um observador está olhando. E um terceiro pode dizer o que alguém está pensando.

Primeiro os sonhos. Para estudá-los, Martin Dresler, do Instituo Max Plack de psiquiatria em Munique, e seus colegas recrutaram um grupo conhecido como sonhadores lúcidos. Eles publicaram seus resultados na revista Current Biology dessa semana. Um sonho lúcido é aquele em que a pessoa que está sonhando está ciente de que está sonhando e pode controlar suas ações quase como se estivesse acordada. A maioria das pessoas tem sonhos lúcidos ocasionalmente. Alguns, no entanto, os tem frequentemente – e alguns se tornaram muito bons em manipular o processo. Dresler cooptou seis praticantes autoproclamados da arte para seu experimento. Ele pediu que eles executassem, em seus sonhos, uma simples ação cujos traços neurológicos em um scanner cerebral são bem compreendidos. Essa ação foi a de fechar ou abrir sua mão esquerda ou direita. O teste seria para ver se o scanner cerebral de Dresler poderia detectar com segurança a diferença entre cerrar e descerrar os punhos.

Uma vez que um voluntário cochilou e começou a sonhar, ele deveria mover seus olhos da esquerda para a direita duas vezes, para mostrar que estava pronto para começar o experimento.  Após esse sinal, o sonhador fechou sua mão esquerda em seu sonho dez vezes, e depois sua mão direita (suas mãos reais, claro, permaneceram imóveis). Ele indicou o fim de cada conjunto de movimentos com as mãos mexendo seus olhos como antes.

Pesquisadores foram capazes de ver o cérebro agindo quando um voluntário fechou o punho em seu sonho exatamente da mesma forma que faz quando ordena que o punho feche na realidade. Isso pode parecer algo pequeno, mas é a primeira vez que a ciência provou o que até agora era mera especulação: que o cérebro, quando está sonhando, se comporta como o cérebro quando está acordado. Em princípio, portanto, talvez seja possível “ler” sonhos enquanto eles acontecem, e com isso, resolver um dos maiores mistérios da biologia: pra que, exatamente, servem os sonhos?

Apesar de parecer um exagero sugerir que a mente de um sonhador pode ser lida desse modo, não é. O segundo estudo do trio, publicado na Current Biology de setembro, mostra que agora é possível fazer uma reconstrução supreendentemente precisa, em total movimento e em glorioso technicolor, do que exatamente está se passando na mente de uma pessoa acordada.

Drama psicológico

Ao contrário de Dresler, que focou no córtex sensório motor, que controla o movimento, o Dr. Jack Gallant, da Universidade da Califórnia, Berkeley, e sua equipe estudaram o córtex visual. Seus métodos dependeram do poder bruto da computação moderna. Eles compararam trailers de filmes com imagens de ondas cerebrais em fMRI registradas à medida que os trailers eram assistidos e procuraram correlações entre os dois. Eles então alimentaram seu computador com 5 mil horas de clipes do Youtube, um site de compartilhamento de vídeo, e pediram que o computador adivinhasse, baseado nas correlações que descobriram, qual padrão de imagens em fMRI iriam aparecer.

O terceiro estudo, publicado em agosto na Frontiers in Human Neuroscience por Francisco Pereira e seus colegas na Universidade de Princeton, usou uma técnica similar a de Gallant para executar um truque igualmente impressionante. Ao invés de recriar imagens, Pereira foi capaz de determinar quais tópicos os voluntários estavam ponderando. Para fazer isso, ele reexaminou dados coletados durante um experimento conduzido em 2008, no qual nove voluntários foram expostos a 60 objetos classificados e depois tiveram seus cérebros escaneados quando foram requisitados a imaginar esses mesmos objetos.

Apesar dos algoritmos padrões detectados por Pereira não conseguirem distinguir exatamente que objetos os voluntários viram, eles conseguiram realizar uma tarefa que era apenas um pouco mais fácil. Eles conseguiram perceber que tipo de objeto era. Em outras palavras, eles não conseguiram distinguir uma cenoura de uma vara de aipo, mas podiam dizer que era um vegetal.

Leitura da mente, então, está se tornando uma realidade. A ciência ainda é bruta e imperfeita. Os resultados não falariam por si em um tribunal. Entretanto, como o relatório Franck afirmou sobre a primeira bomba atômica norte-americana anos atrás, “a coisa realmente funciona”.

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

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