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Kirchner: comoção ou angústia?

Agora, frente ao fato irrevogável da sua morte, perguntas surgem em relação ao futuro. Por Gerardo López Alonso*

Este breve comentário é apenas uma primeira impressão espontânea, expressada logo após a circulação da notícia da morte de Néstor Kirchner, ex-presidente. Esta quarta-feira, 27 de outubro de 2010, era um dia que prometia ser politicamente tranquilo, exceto talvez pelo fato de que estamos participando de um censo nacional recebido com muita apatia pela população.

A primeira coisa que parece estranha é que, pelo menos numa primeira impressão, a morte de Néstor Kirchner chocou e surpreendeu o país, inclusive o autor destas linhas. Quando Kirchner, um dia após seu último episódio cardiovascular, apareceu em um evento ao lado da presidente, houve aqueles que disseram coisas do tipo “a este passo e ritmo o ex-presidente terá outro infarte em breve. Claro que isso não autoriza o clichê da “morte anunciada”, mas mesmo assim…

Agora, frente ao fato irrevogável e recente da sua morte, perguntas aparecem em relação ao futuro. O que vai acontecer agora? Os líderes e os meios de comunicação são lentos na resposta. Minha primeira previsão é que, por alguns dias, (na verdade, o processo já se iniciou hoje) teremos de apoiar o governo de Cristina Kirchner, deixando de lado a mesquinharia e a miséria. Teremos que adotar a retórica clássica mas também hipócrita da unidade argentina que nos levará a um destino de grandeza. Blá, blá, blá.

Mas quem se importa com isso? Bandeira a meio mastro, luto por vários dias, os argentinos já conhecem isso. Mas o que realmente nos preocupa é o que vai acontecer com a política, com a economia e, principalmente, com o governo, ou melhor, com a governabilidade do país. Um país difícil e com um governo que, para colocar de forma prudente, já estava sendo questionado há algum tempo, até mesmo durante a presidência de Néstor Kirchner.

O que veremos agora não será, estritamente falando, um governo com visão de futuro, mas um simples continuísmo elementar. Néstor Kirchner não era um político querido, tinha a seu lado governadores e prefeitos da província de Buenos Aires que conquistou com uma gestão qualificada dos recursos da “caixa”, como dizemos por aqui. Mas esse comportamento não constroi verdadeiras relações, muito menos amizades, podendo até causar profundos ressentimentos.

Não é muito difícil imaginar que, num futuro muito próximo, o que veremos é uma luta desenfreada pelo poder dentro do peronismo. E, desde já, incluindo neste conjunto o ascendente poder sindical representado basicamente por Hugo Moyano, não é difícil imaginar que, com a morte de Kirchner, vamos assistir a uma crescente visibilidade de dirigentes históricos que nunca deixaram de estar “ao alcance de nossas mãos”.

Vem à mente nomes como Eduardo Duhalde, ou Reuteman, para citar apenas dois, e, claro, conforme os dias vão passando, a lista vai engrossar. Enquanto isso, do outro lado, os líderes da oposição continuam sem mostrar verdadeiros dirigentes natos. A menos que você inclua nesta categoria Alfonsín, ou Cobos, mas isso é improvável pois ninguém acredita neles. Temos o Mauricio Macri, que talvez se fortaleça na medida que novas alianças – antes impensáveis – agora se tornaram possíveis. Mas isso requer um pouco mais de tempo, e é ainda muito cedo.

Um ponto final. Será que as pessoas na Argentina ficaram mesmo abaladas pela morte de Kirchner, ou, no fundo, ficaram apenas angustiadas com a perspectiva de um futuro político e econômico pleno de incertezas? Nesse caso, o que explica o clima desta quarta-feira não é nada além do puro medo. Medo de que a gestão Cristina se torne ainda mais caótica, mais complicada (e já é o suficiente). A incerteza sobre uma economia que move o consumo e onde sobram notas de pesos cada dia mais desvalorizados. Ninguém sabe ao certo quando tudo pode entrar em turbulência. O medo é a melhor forma de definir esta quarta-feira tão estranha que começou com um censo e que termina com uma pessoa a menos para contabilizar.

*Professor de Análise Internacional da Universidade Austral, em Buenos Aires

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