Kama Sutra: um guia para a vida

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

“As genitálias”, escreveu o romancista e acadêmico Malcolm Bradbury, “são uma grande distração para a sabedoria”. Ela também têm sido uma distração, para a nossa compreensão do Kama Sutra, o clássico estudo da sociedade e sexualidade escrita na Índia há cerca de dois mil anos.

O livre vive na imaginação popular como uma série de poses excitantes para casais. Na livraria, bizarrices como O Guia Ilustrado do Completo Idiota para o Kama Sutra Super-Intenso podem ser encontradas mais facilmente que uma tradução fiel do manuscrito original, que não trazia qualquer ilustração.

Essa clara e elegante nova tradução é trabalho de A.N.D. Haksar, um ex-diplomata indiano e um conhecido tradutor dos clássicos sânscritos. Ela merece ser lida, não apenas pela proximidade do Dia dos Namorados (que no resto do planeta acontece no dia 14 de janeiro), embora os casais possam considerar essa edição da Penguin Classics um afrodisíaco intelectual, ainda que desprovida de ilustrações eróticas.

Haksar nos lembra que o livro é muito menos um tutorial do sexo, e muito mais guia moderno para a arte de viver. É indicado tanto para mulheres quanto para homens. Na verdade, o Kama Sutra trata de decoração, cortejo matrimonial e passatempos intelectuais, entre outras coisas. Mesmo com capítulos com nomes como “arranhando”, “beijando”, “mordendo”, “sexo oral”, “batendo e gemendo” e “trocando de papéis” apenas aumentam sua reputação.

O Kama Sutra – “kama” significa desejo, enquanto “sutra” quer dizer fio – é um livro antigo, mas relativamente novo pra os olhos ocidentais. Pouco se sabe sobre seu autor, Vtasyayana, exceto que ele tinha a reputação de ser celibatário. O livro foi traduzido para o inglês pela primeira vez em 1883 por Sir Richard Burton que, apesar das leis de censura, conseguiu fazer com que o livro fosse publicado. Porém, o Kama Sutra só chegou aos Estados Unidos em 1962, um ano após Trópico de Câncer, e uma década depois de Os Prazeres do Sexo, de Alex Comfort.

O livro está longe de ser um manifesto feminista. Há lições sobre ocasiões nas quais o casamento forçado é apropriado, sobre como um homem deve ser um deus para sua esposa e sobre o conforto em se deliciar com as jovens empregadas.

Mas a maioria das passagens evita a barbárie e a violência. Os homens são ensinados a satisfazer as mulheres na cama. O livro pode ter inclinações sadomasoquistas para aqueles que gostem de trocar tapas ou socos durante o sexo, mas o fetiche é tratado de maneira igualitária: “Faça o que é feito a você/ Revide se for golpeado”. Esse poema termina com o conselho fundamental do Kama Sutra para a vida em geral: “Da mesma forma, se você for beijado, beije de volta”.

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Um comentário para “Kama Sutra: um guia para a vida”

  1. ? Luiz Cabral disse:

    Muito boa esta matéria