Investimento chinês preocupa governo brasileiro

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

Quando os chineses chegaram a Uruaçu, no estado de Goiás, no ano passado, eles se interessaram em comprar enormes quantidades de terra, que o governo brasileiro não se dispôs a vender. Determinados, os chineses buscaram uma estratégia diferente, e passaram a fornecer crédito a fazendeiros, e triplicando o crescimento de grãos de soja usados para alimentar galinhas e porcos na China. 

“Eles precisam da soja mais do que qualquer um”, diz Edmilson Santana, um fazendeiro local. “Esse pode ser um novo começo para os fazendeiros de Uruaçu”.

O acordo de US$ 7 bilhões assinado no mês passado – para produzir 6 milhões de grãos de soja por ano – é um dos vários assinados nas últimas semanas, na tentativa chinesa de aumentar suas reservas alimentícias e transferir sua dependência de grãos dos Estados Unidos, por produtos agrícolas da América Latina.

Mesmo com os limites impostos por países como o Brasil e a Argentina na compra de terras por investidores estrangeiros, os chineses buscam um controle mais direto da produção. “Eles estão chegando”, diz Carlo Lovatelli, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais. “Eles estão procurando terras e parceiros confiáveis. Mas o que querem é comandar tudo sozinhos”.

Embora muitos recebam os investimentos de braços abertos, a busca surge em um momento em que membros do governo começam a questionar a “parceria estratégica” com a China, encorajada por Lula. Os chineses se tornaram tão importantes para a o Brasil, que a economia nacional não conseguiria sobreviver sem eles – e é exatamente isso que tem deixado o Brasil inquieto. “De uma coisa o mundo pode estar certo: não voltaremos atrás” disse Lula em uma viagem a Pequim em 2009.

A China se tornou o maior parceiro econômico do Brasil, comprando volumes cada vez maiores de grãos de soja e minério de ferro, e investindo bilhões no setor energético brasileiro. A demanda chinesa ajudou a estimular um boom econômico que tirou mais de 20 milhões de brasileiros da pobreza.

Ainda assim, alguns especialistas afirmam que a parceria se transformou em uma relação neocolonial na qual a China está em vantagem. Cerca de 84% das exportações brasileiras para a China em 2010 foram de matérias-primas. Mas 98% das exportações chinesas para o Brasil foram de produtos manufaturados – incluindo a última novidade, automóveis de baixo custo para a classe média emergente – que estão arruinando o setor industrial do país.

“A relação tem sido Muito desequilibrada. Há uma clara falta de estratégia no lado brasileiro”, diz o ex-ministro da Fazenda, Rubens Ricupero.

“Não é à toa que o efeito da relação com a China tenha sido uma revitalização da relação com os Estados Unidos”, diz Paulo Sotero, diretor do Instituto Brasileiro do Centro Internacional Woodrow Wilson. “A China expões as vulnerabilidades do Brasil mais do que qualquer outro país no mundo”.

O Procurador-Geral da União, Luis Inácio Adams, reinterpretou uma lei de 1971, dificultando a compra de terras brasileiras por estrangeiros. A presidente argentina Cristina Kirchner seguiu o exemplo, enviando ao Congresso uma lei que limitaria o tamanho e a concentração de terras agrícolas que poderiam permanecer nas mãos de estrangeiros.

“Nada impede que o investimento aconteça. Mas ele será regulado”, diz Adams, que afirma que a decisão não é uma consequência direta do investimento chinês, embora reconheça que o governo brasileiro tenha ficado alarmado com as tentativas de compras de terras agrícolas na América Latina, na África Subsaariana e nas Filipinas, por parte dos chineses.

 

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