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Há uma obrigação moral de “sair do armário”?

Na mensagem na qual assumiu sua homossexualidade na última segunda-feira, 1, o jornalista da CNN Anderson Cooper apontou para o conflito que as celebridades gays enfrentam: “Em um mundo perfeito, eu não acho que seja da conta de qualquer pessoa”, escreveu ele, “mas eu acho que há um valor em se assumir e fazer parte do grupo”, escreveu o jornalista.

Celebridades gays têm uma obrigação moral de se assumir e combater a homofobia? Ou as estrelas gays têm o mesmo direito que qualquer outra pessoa de manter suas vidas românticas privadas, como Cooper fez nos últimos 20 anos?

“Ao sugerir que as celebridades gays têm uma obrigação moral de ‘sair do armário’, estamos sugerindo também que qualquer celebridade teria a mesma responsabilidade de reconhecer qualquer situação oculta cuja divulgação poderia, teoricamente, ajudar a sociedade. Psoríase? Faça um anúncio para televisão. Foi vítima de abuso sexual? Você precisa ir falar sobre isso no The View. Foi à falência? Saia na frente desta história e ajude outros norte-americanos em situações semelhantes”, ironiza Howard Bragman, autor de Where’s My Fifteen Minutes? (“Onde estão meus 15 minutos?”) e vice-diretor-executivo da Reputation.com. “Obviamente, esse é um padrão ridículo. Nós estamos falando sobre a vida romântica das pessoas, que são, por definição, notoriamente confusas e inconstantes”.

“Nem todas as pessoas homossexuais nos meios de comunicação acreditam, como eu, que é importante que as celebridades homossexuais ‘saiam do armário’”, diz Kate Aurthur, editora do Daily Beast na costa oeste dos EUA. “Mas, tendo sido uma adolescente na década de 1980, eu me lembro de quando não havia nenhum modelo a ser emulado pelas crianças gays, lésbicas, bissexuais e transgêneras”, lembra Aurthur.

Vários tipos de armários

“Em 1993, eu ‘saí do armário’ enquanto era professor de educação física em uma escola, e antes que me desse conta, estava sendo entrevistado sobre assuntos gays por veículos como a Newsweek e a ABC”, conta Eric Anderson, professor de estudos esportivos da Universidade de Winchester. “Essa acabou sendo minha carreira, consegui um Ph.D. no assunto e escrevi um livro, In the Game: Gay Athletes and the Cult of Masculinity (“No Jogo: Atletas Gays e o Culto à Masculinidade”). Mas quando me assumi, não era um especialista. Era apenas um professor de educação física que não conhecia as razões sociológicas que explicavam porque a homofobia era tão grande no esporte”.

“Eu sempre disse que existem quatro tipos de gays em Hollywood. Há o abertamente gay, o gay que todo mundo sabe, mas ninguém fala a respeito, os gays casados e enrustidos que não falam sobre isso, e a pessoa gritando ‘eu vou processá-lo se você disser que eu sou gay’”, conta Bragman “Em outras palavras, o não- armário, o armário de vidro, o armário de ferro fundido, e o armário no qual você será enterrado”.

Muita coisa mudou desde aquele tempo, e agora há opções para as celebridades que querem se assumir. Há a opção da revista People (grandiosa, segura, e de grande circulação), há o caminho de Matt Bomer e Jodie Foster, que casualmente agradeceram a seus parceiros de longa data durante discursos, e há uma nova maneira, utilizada por atores como Zachary Quinto e Jim Parsons, em que um ator simplesmente se identifica como gay como parte de uma grande história em um grande veículo (Quinto escolheu a New York Magazine; Parsons, o New York Times). Uma recente reportagem de capa da Entertainment Weekly analisou essa evolução sob o título “A Nova Arte de ‘Sair do Armário‘”.

“Quando trabalho com clientes que estão ‘saindo do armário’, eu luto como um louco para contar suas histórias de forma adequada, autêntica e honesta, que lhes dê tudo o que eles estão procurando com este ato de coragem”, diz Bragman. “Da mesma forma, vou lutar como louco para defender o direito das pessoas de se assumirem quando acharem que é hora. Dito isso, certamente cada celebridade que se assume é mais feliz e mais livre do medo, ajuda outras pessoas, promove a causa de direitos civis homossexuais e vive uma vida mais aberta e autêntica. Então, aqueles que querem ficar no armário, não estão sendo imorais. Apenas bobos”.

Para Anderson, é difícil defender a ideia de que figuras públicas gays tenham a obrigação moral de ‘sair do armário’. “Pessoalmente, eu gostaria que saíssem”, diz ele. “Não acho que um atleta assumidamente gay teria muito impacto sobre a juventude atual, mas poderia fazer uma diferença naqueles que cresceram em gerações mais homofóbicas. E com o passar dos anos, atletas gays dependeriam apenas de seu talento para tornarem-se celebridades, e não de sua sexualidade”.

“Anderson Cooper acrescentou uma nova forma a essa arte na última segunda-feira, se assumindo para Andrew Sullivan do Daily Beast em um e-mail”, conta Aurthur. Nos últimos anos, Cooper se tornara o exemplo de pessoa famosa enrustida que não quer ver seu segredo virar um grande assunto, e se vê presa. “Acho que ele vai achar fácil deixar para trás o problema tóxico da homofobia, a auto-rejeição, para se tornar um herói. E quem não iria querer isso?”, comenta a editora do Daily Beast.

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

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