Governo reage mal ao rebaixamento do ‘rating’ do Brasil

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Não é difícil adivinhar qual foi a reação da equipe econômica do governo ao rebaixamento do rating do Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poor´s, anunciado nesta terça-feira, 25. Como se para eliminar qualquer dúvida, o Ministério da Fazenda divulgou um comunicado forte desmerecendo a decisão da S&P´s ponto por ponto. O Ministério não fez nenhum favor a si mesmo.

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Em primeiro lugar, o texto diz que a agência de classificação de risco “alegou” que o crescimento lento do Brasil foi uma das razões para o seu rebaixamento. O Ministério rebate que “durante o período da crise que começou em 2008″ o Brasil cresceu 17,8%. Deixando de lado a possibilidade de que isso poderia levar os desinformados a pensar que 17,8% foi a taxa anual de crescimento do Brasil a partir de 2008, esta afirmação olha para o passado inutilmente. Ninguém questiona que o PIB do Brasil cresceu 7,5% em 2010. O problema é que, este ano, a expectativa é de crescer apenas 1,7% — muito abaixo do potencial e das necessidades do Brasil.

Em segundo lugar, o Ministério diz que a S&P´s está errada em sua avaliação da situação fiscal do Brasil, “levando em consideração que o país tem gerado um dos maiores superávits primários no mundo nos últimos 15 anos”.

Isso é pedir para ser golpeado. Como o Financial Times observou no mês passado:

No ano passado, o Brasil não conseguiu cumprir sua meta de superávit primário, apesar de tê-la revisado para baixo, de 3,1% para 2,3%. O governo também tem recorrido a métodos duvidosos para sobreviver ao longo dos últimos anos, usando manobras de “contabilidade criativa” e colocando pressão sobre as autoridades fiscais para negociar acordos sobre litígios fiscais multibilionários.

Em seu terceiro ponto, o Ministério está em terreno mais firme: o Brasil continua a atrair grandes volumes de investimentos estrangeiros diretos. Um total de US$ 65.8 bilhões entrou no país nos últimos 12 meses (embora esses investimentos nem sempre tenham terminado bem).

Mas no quarto ponto o Ministério se coloca de novo em apuros. Diz que as contas externas do Brasil não são uma fonte de vulnerabilidade porque o país tem reservas cambiais equivalentes a 10 vezes a sua dívida de curto prazo. Dois comentários devem ser feitos aqui: primeiro, o Brasil não é tão bem protegido quanto pensa, e segundo, os números oficiais da dívida externa do Brasil ignoram uma pilha crescente de dívidas denominadas em dólares e asseguradas por receitas em moeda local.

O quinto ponto do Ministério é que a S&P´s está errada em reclamar da baixa taxa de investimentos do Brasil, pois o país embarcou em um ambicioso programa de investimentos de US$ 400 milhões. Bem, o Brasil embarca com frequência em programas de investimento de centenas de milhões de dólares, muitos dos quais nunca se materializam. O fato é que a sua taxa de investimento está presa em 18% do PIB, o que não é suficiente.

Por fim, o Ministério avalia as razões da S&P´s para manter o grau de investimento do Brasil. Aqui, os leitores poderão se sentir aliviados ao saber que a agência acertou tudo, de acordo com o governo. A esta altura do campeonato, no entanto, poucos leitores estarão levando o Ministério a sério.

Fontes:         Financial Times – Brazil’s downgrade: parsing the finance ministry, Financial Times – Brazil’s downgrade: parsing the finance ministry

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