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Fé em Deus e aos eleitores por Ele amados

Por Fernanda Dias – opiniaoenoticia.com

“Quem é de Cristo, pode mesmo tirar essa vitória. Nem aborto, nem PT”. Esse é um dos inúmeros vídeos postados no YouTube que mostram uma entrevista na qual a candidata Dilma Roussef afirma que o aborto é uma questão de saúde pública. Além disso, o título do vídeo faz referência a uma frase atribuída à petista, que teria dito que nem Cristo tiraria dela a vitória. Para alguns analistas, a repercussão negativa gerada por uma série de mensagens como essa, que circulam na internet afirmando que Dilma é a favor da prática, pode ter sido determinante para que ela não vencesse as eleições no primeiro turno. O que é consenso entre todos, no entanto, é que a discussão incluiu a religiosidade de forma incisiva na pauta das eleições deste ano.

“Ao longo dos anos, o voto evangélico tem crescido de importância. É natural que esse eleitorado procure apoiar candidatos que tragam suas questões ao debate. Em outros países, existem plebiscitos para questões como a legalização do aborto, mas aqui são os políticos quem têm de votar. Por isso, é natural que o eleitor queira conhecer a posição deles”, acredita Ricardo Ismael, professor do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio.

Segundo Ismael, desde os anos 1990 vem crescendo a preocupação das igrejas neopentecostais de fazer uma bancada no Congresso que esteja comprometida com a sua agenda. Segundo o professor, esse grupo tem se posicionado de duas formas: lançando candidatos ou votando em quem tem um discurso afinado com as suas posições. Ismael lembra, no entanto, que a Igreja Católica sempre defendeu suas bandeiras no âmbito político e que seus fiéis também se manifestaram nestas eleições com relação à visão de Dilma sobre o aborto:

“Não vejo isso como nada grave. Acho legítimo que todos os setores da sociedade se posicionem. Na democracia, há espaço para todos”.

A doutora em Sociologia da Cultura e Religião e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Cecília Mariz, também não acredita que a inclusão de debates sobre temas que estejam no âmbito da religiosidade possam causar prejuízos para a política e para o processo democrático:

“Não é um retrocesso. Pelo contrário, esses temas são capazes de mobilizar e envolver a população que não se interessa por política. Se na internet, nos cultos ou nas missas, uma pessoa toma uma posição sobre o assunto, os outros tendem a se manifestar. Essa discussão é enriquecedora, pois os eleitores passam a procurar conhecer melhor seus candidatos”.

As mídias sociais têm sido um grande palco de propagação de opiniões sobre a posição de Dilma com relação ao aborto, o que acaba atingindo pessoas que sequer procuram informações sobre política na rede, ressalta a professora Adriane Figueirola Martins, doutoranda em Comunicação com uma tese sobre Política e Internet e professora da Gama Filho e da Unisuam:

“Ao retuitar, você consegue atingir até quem não dá atenção a temas ligados à política ou à religião. A mídia social ajuda a construir um debate, mas também pode ser um veículo perigoso. As pessoas costumam acreditar em tudo o que leem na rede, sem procurar saber se houve uma apuração ou se é um boato”.

Dados do site “Observatório das Eleições” mostram que de 3 a 10 de outubro, o segundo vídeo mais citado no Twitter com relação à disputa presidencial é o que Dilma defende o aborto em uma sabatina do jornal “Folha de S. Paulo” em 2007. Nas mídias de massa, o crescimento da abordagem sobre o assunto também cresceu após o primeiro turno. De acordo com o mesmo site, no dia 7 de outubro, houve 64 referências à palavra aborto relacionada a Dilma nos jornais e revistas online. Com relação a José Serra (PSDB), o maior pico de citações relativas à palavra aborto foi no dia anterior, com 50 referências. Veja o gráfico:

Para Adriane, questões como o aborto e a homossexualidade acabam sendo cruciais num pleito político porque atingem diretamente o conceito de família:

“O eleitor dá muita razão para a construção familiar do candidato, principalmente a população menos favorecida. Ele costuma achar que se a pessoa administra bem isso, vai saber cuidar do povo. As mensagens que falam de um suposto relacionamento amoroso de Dilma com outra mulher, no fundo, querem desestruturar a questão da família, que a candidata, por outro lado, ao aparecer com o neto, procurava reforçar”.

Dilma participa de batizado do neto, em Porto Alegre (Fonte: Foto: Divulgação Roberto Stuckert Filho)
Ismael ressalta que, na maioria dos casos, temas como aborto, casamento entre homossexuais e eutanásia incomodam os políticos, que preferem abordar questões como educação, segurança e economia:

“Se pudessem, muitos gostariam de pular essas questões valorativas. Depois que eles não disputam mais cargos, alguns até explicitam mais suas posições, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que agora se mostra a favor da descriminalização das drogas”.

Alguns especialistas defendem que essa agenda de valores ganha mais espaço na discussão política na medida em que os países vão superando a pobreza e adquirindo um melhor padrão de vida. Na propaganda política destas eleições é clara a preocupação de alguns candidatos de explicitar sua fé, e, portanto, seus “valores”, ao eleitor.

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