Expectativas para as diferentes commodities podem orientar carteira de ações

Fonte: acionista.com.br

variação das cotações das commodities nas bolsas de valores está extremamente ligada aos movimentos da economia. Por isso, seguindo a retomada de indicadores dos principais países e de importantes emergentes, como a China, os preços do minério de ferro, do aço (também influenciado por este), do petróleo e dos grãos voltaram a subir ao longo do segundo semestre de 2009. Mas apesar de não haver dúvidas quanto à continuidade da recuperação mundial, não há garantia de que os preços desses ativos seguirão esse caminho. Há diversos fatores que precisam ser analisados em cada caso – mais uma justificativa para acompanhar com atenção esses mercados. Outro motivo é que eles estão relacionados a importantes empresas, como Petrobras, Vale, Gerdau, e a um dos setores mais estratégicos para o Brasil (e suas exportações), o agronegócio. Somente as duas primeiras são responsáveis por quase um terço do volume negociado na Bovespa. As ações preferenciais da Petrobras representam 11,85% da carteira do Ibovespa, e as ações preferenciais classe A da Vale, 12,23%.

De acordo com o economista e analista da Wintrade, José Góes, em 2010 dificilmente os preços das commodities não subirão, devido à expansão da economia e ao baixo nível de juros no Brasil. “Isso continuará atraindo investidores estrangeiros para cá e especialmente para esta classe de ativos”, considera. No entanto, existem os riscos da haver uma percepção de piora do cenário exterior, especialmente, devido aos altos déficits fiscais, como nos EUA, lembra Goes.

Parte dessa retomada é explicada pela queda na demanda desencadeada por essas commodities e consequentemente suas cotações com a crise de 2008. O posterior aumento dos estoques reduziu os preços das commodities. As companhias venderam seus produtos a valores mais baixos, no caso dos grãos, e renegociaram os contratos e em alguns casos, não muito raros, pararam unidades, como as mineradoras, que recentemente começaram a religar fornos e voltar a operar máquinas. As empresas agrícolas amargaram perdas consideráveis, pois tinham contraído insumos, como os fertilizantes, a preços mais elevados, ou grãos, como no caso das criadoras de gados, aves e suínos, para a utilização na ração dos animais (empresas do setor de alimentos como Perdigão, Sadia, Minerva, JBS).

Conforme o economista da Wintrade, o aperto dos estoques e a situação dos negócios das metálicas é mais complicada e, por isso, a volatilidade delas normalmente é maior do que das cotações dos grãos. Empresas que atuam com aqueles produtos precisam lidar com desafios como a escassez dos recursos naturais e com o custo disso. Quanto às agrícolas, Goes esclarece que os preços são até influenciados pelas questões climáticas, mas investimentos em tecnologia e pesquisa têm sido os caminhos para diminuir as dificuldades advindas desses fatores.

Perspectivas 2010

Considerando esse cenário e as variáveis citadas, os analistas da Corretora Brascan, Pedro Montenegro e Rodrigo Ferraz, observaram, em relatório do dia 02.02, que os números mais recentes divulgados Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) demonstram que as exportações de minério de ferro para a China diminuíram 12,8% em relação a dezembro e 20,4% em doze meses. No mesmo ritmo, ficou o preço negociado pela commodity. Apesar da leve alta em janeiro em relação a dezembro de 2009, a queda foi de 22,3% em 1 ano, ficando em US$ 45,6/ton no primeiro mês de 2010. Com isso, a participação brasileira no mercado chinês – que é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil neste mercado -, caiu de 27,5% em nov/09 para 21,6% em dez/09, após ter apresentado uma boa evolução durante o ano de 2009.

Os números negativos poderiam sustentar uma estabilidade dos preços ou até queda. No entanto, os analistas acreditam no aumento dos preços dessa commodity baseado nos bons fundamentos do segmento de minério de ferro, pelos elevados prêmios no mercado à vista chinês sobre a média mundial, pela manutenção de altos volumes de importação, pelos baixos estoques nos portos, e pela forte produção siderúrgica por lá. Além disso, as três maiores mineradoras já estão operando a plena capacidade (principalmente BHP e Rio Tinto), e há baixa capacidade de expansão da oferta até 2011 por lá. A isso se soma a solicitação de aumento de 40% nos valores dos contratos das mineradoras australianas com clientes como Japão e Coréia do Sul. Segundo a Corretora Atvia, isso é positivo para a Vale, que deve ganhar espaço para negociar seus preços, especialmente com os compradores chineses, onde a commodity chega a ser negociada com um preço 30% superior.

A expectativa e a recuperação que teve a cotação do petróleo em 2009 também é positiva para o faturamento da Petrobras e dos seus papéis. Foi exatamente a retomada da economia e a continuidade da demanda chinesa por commodities as responsáveis pela disparada do Petróleo no mercado internacional. A Corretora Ativa destaca outros fatores que contribuem para a contínua subida do preço do barril: a movimentação dos investidores financeiros no mercado futuro de petróleo, influenciada pela queda da aversão ao risco e ao câmbio, que, com a desvalorização frente a várias moedas, permitiu um ajuste em dólar nos preços das commodities de forma mais acelerada.

Outro fator estimulante – mas que pode ser entendido como de risco – são as economias desenvolvidas, que representam 54% da demanda mundial de petróleo. Será que elas vão conseguir retomar trajetória crescente de demanda por petróleo em 2010? Se esse ritmo não for tão vagaroso como em 2009, é possível que tenhamos uma leve alta no preço médio do petróleo no próximo ano, acredita a Corretora Ativa. Da mesma forma, conta a demanda por petróleo dos mercados em desenvolvimento, que continua em níveis quase oito vezes superiores a média mundial.

A expectativa para os preços dos grãos deveria seguir o mesmo raciocínio das outras commodities, ainda mais que leva vantagens, conforme lembrou José Góes da Wintrade. No entanto, o professor de Economia da FEA-USP e pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas (FIPE), Fernando Homem de Melo, destaca algumas questões que chama de preocupações em estudo divulgado no final de 2009, baseando-se em dados divulgados pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

O pesquisador observa que, apesar de alguns fatores que deveriam indicar a continuidade da alta dos preços em 2010, não parece ser essa a tendência. Melo observa que boa parte dos grãos já reduziu os altos estoques durante 2009. Em boa medida, isso foi possibilitado pela produção adicional de biocombustíveis e ao bom desempenho da economia mundial. O professor destaca que aparentemente o fundo do poço foi o quarto trimestre de 2008. “Em setembro último os preços de algodão e soja foram maiores que os do quarto trimestre de 2008, mas os de trigo e milho foram menores. Todavia, o preço da soja teve uma substancial queda relativamente a agosto”, especifica.

No entanto, baseado em dados da Bolsa de Chicago e Nova York, estimativas feitas em outubro do ano passado e incorporando o câmbio nesta conta, os principais grãos terão queda de preços no primeiro semestre de 2010. Excetuando-se o algodão, que deve ser maior em 8,6%, respectivamente as cotações da soja, do trigo e do milhão cairão 29,4%, 30,2% e 24,0% em relação a 2009 (com base nos números conhecidos até os primeiros nove meses de 2009). No total, soja, trigo e milho representam 40% do valor da produção total brasileira (composta de 20 produtos vegetais) do ano passado. Evidentemente, ressalta Melo, a apreciação prevista do real em torno de 20% afetará negativamente os preços dos produtos exportados do país e, em consequência, o valor da produção total. No entanto, este ano deve ser um pouco melhor em função de um maior preço internacional. Soja e milho, entretanto, deverão ter preços bem menores aos produtores no momento da comercialização no primeiro semestre de 2010.

Variação dos preços das Commodities em 2010

Metais (LMEX) (12,1) %
Milho (CBOT) (14,6) %
Soja (CBOT) (12,8) %
Açúcar (NYBOT) (2,6) %
Café (Liffe) (6,8) %
Petróleo (WTI e Brent) (7,8)%
Ibovespa (6,8) %

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