Brasil  

Ex-cunhada de Erenice tem cargo comissionado no Planejamento

Milton Júnior
Do Contas Abertas

Brasília não vê uma gota d’água cair do céu há mais de 100 dias, mas a chuva de denúncias parece não dar trégua à ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra. Após revelações sobre a contratação de irmãos, filhos e amigos no serviço público, agora é a vez da ex-cunhada. Gabriela Pazzini, que segunda a ex-ministra teria assumido em 2007 as cotas de suas empresas, era esposa do irmão de Erenice – também sócio das empresas e ex-servidor da Infraero – quando assumiu um cargo comissionado na Secretaria do Patrimônio da União (SPU) do Ministério do Planejamento, em 2005. Hoje, a SPU é comandada por Alexandra Reschke, companheira de partido de Erenice e também comissionada.

No mesmo ano em que assumiu as cotas empresariais da ministra, Gabriela também conquistou o direito a um imóvel funcional residencial em Brasília, autorizado pela própria SPU, onde exerce cargo comissionado de nível quatro (DAS 4). O documento, assinado pela secretária, Alexandra Reschke, concedeu a autorização com base em um decreto que concede permissão de uso do imóvel funcional a servidores com cargo de natureza especial. Em maio deste ano, no entanto, um mês após Erenice tomar posse como ministra da Casa Civil, Gabriela teve a autorização revogada.

Segundo a assessoria da SPU, o apartamento funcional de três quartos não atendia mais as necessidades da servidora, já que ela teve o quarto filho. “Além disso, o apartamento funcional era muito antigo e acarretava muita manutenção, sendo mais econômico passar para um apartamento novo, alugado”, informa. A assessoria diz, ainda, que Gabriela é arquiteta e entrou na SPU no setor de regularização fundiária urbana, para o qual foi selecionada entre outros candidatos e contratada pela experiência profissional.

“A trajetória (de Gabriela) dentro da SPU tem o mérito da competência apresentada no desempenho de seu trabalho. O cargo de assessora lhe foi oferecido porque ela apresentou este perfil e aceitou sair da área finalística para a assessoria do gabinete da SPU, onde até hoje desenvolve com muita competência as tarefas e projetos que lhe são atribuídos”, conclui a assessoria de imprensa. Entre 2005 e 2010, Gabriela foi habilitada aos cargos de assessora especial DAS 101.2, 102.1, 102.2, 101.4 e 102.4.

Pelo menos até 2007, Gabriela foi casada com Antonio Eudacy Alves Carvalho, irmão de Erenice que passou pela Controladoria-Geral da União (CGU) e Infraero. Euriza de Carvalho, irmã da ex-ministra, também trabalhou no Ministério do Planejamento e é consultora da Empresa de Pesquisa Energética, de onde contratou, sem licitação, o serviço do escritório de advocacia onde trabalhava Eudacy.

O Contas Abertas procurou, sem sucesso, Erenice Guerra para saber se ela teria influenciado a contratação de sua ex-cunhada na SPU, já que a secretária do órgão é uma companheira de militância. No site da assessoria técnica do Partido dos Trabalhadores (PT), Erenice e Alexandra Reschke aparecem juntas na elaboração de uma nota técnica sobre um projeto de lei que “institui diretrizes nacionais para saneamento básico”.

Em 2006, Alexandra também autorizou o uso do imóvel funcional residencial ao outro irmão da ex-ministra, José Euricélio Alves de Carvalho, que também exerceu cargo que dá direito ao imóvel. Ele aparece citado em auditoria da CGU por desvio de R$ 5,8 milhões da Editora da Universidade de Brasília, em contratos fantasmas firmados entre 2005 e 2008. Ao mesmo tempo em que prestava serviço à editora da universidade, o irmão de Erenice também ocupava um cargo comissionado no Ministério das Cidades. Ele teve a permissão de uso do imóvel funcional revogada em dezembro de 2007.

Chove cargos também em Brasília

A edição de ontem do jornal (16) Correio Braziliense mostra que a influência de Erenice Guerra estende-se para além do governo federal e chega ao Distrito Federal. Israel Dourado Guerra, por exemplo, filho de Erenice Guerra, era funcionário da Terracap, empresa vinculada ao Governo do Distrito Federal. Suspeito de comandar um esquema de lobby que envolve a mãe, ele era servidor comissionado da Diretoria de Prospecção e Formatação de Novos Empreendimentos desde dezembro de 2008. De acordo com a reportagem, Israel não costumava dar expediente no departamento, embora recebesse salário mensal de R$ 6,8 mil. Ontem ele foi exonerado do cargo.

A diretoria em que Israel estava lotado na Terracap é responsável por liberar ocupações de solo, como os projetos no Noroeste, novo bairro do Plano Piloto, e explorações de recursos naturais no DF. Coincidentemente, a extração de minério é o objeto social da empresa Matra Mineração, de José Roberto Camargo Campos, marido de Erenice. A Matra pesquisa minério de calcário em Planaltina (GO) e teve 14 multas arquivadas pelo governo.

O tio de Israel, José Euricélio, também tem currículo no GDF. Depois de deixar a UnB, ele foi secretário executivo do comitê consultivo de políticas públicas, normas e ações de fiscalização do uso e ocupação irregular do solo, vinculado ao ex-governador José Roberto Arruda, acusado de ser o chefe do mensalão do DEM. Por indicação da ministra, ele ocupa um posto comissionado na Novacap, no departamento de auditoria vinculado à Presidência. Foi nomeado no início do ano, dividindo período de trabalho com o ex-secretário-geral da companhia Davi José Matos, atual presidente dos Correios.

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