Eu não votaria nela, mas ela vai dar a volta por cima

Publicado no Viomundo, site do Jornalista Luiz Carlos Azenha

Nesse sábado, durante entrevista coletiva em São Paulo, a própria ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, revelou à imprensa: há cerca de um mês, durante o check-up periódico de saúde que faz preventivamente, teve detectado por acaso, durante os exames, um nódulo de 2 centímetros sob a sua axila esquerda. O nódulo foi retirado cirurgicamente. Os exames complementares não descobriram nenhum outro foco no organismo. A ministra também não tem histórico de câncer na família.
Há três dias, chegou o resultado definitivo da biópsia do nódulo: linfoma. Durante os próximos quatro meses, a ministra fará quimioterapia. Serão seis sessões de até três horas, com intervalos de três semanas entre uma e outra.
O oncologista Paulo Hoff, que integra a equipe médica que cuida de Dilma, foi enfático: “O linfoma foi detectado no estágio 1A, o mais inicial possível. Não existe estágio mais precoce do que esse. Não tinha nenhum outro linfonodo. Então, a chance de cura é altíssima. É mais de 90%”. Hoff é diretor do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês e professor titular de Oncologia da Faculdade de Medicina da USP.
Linfoma é uma proliferação desordenada dos linfócitos (células de defesa), situados nos linfonodos (gânglios), que fazem parte do nosso sistema de defesa e ajuda o organismo a combater infecções. A multiplicação dos linfócitos altera a estrutura dos gânglios, aumentando-os.
A ministra tem um linfoma de grandes células, não-Hodgkin. Segundo o Instituto Nacional do Câncer, o Inca, do Ministério da Saúde, o número de casos praticamente duplicou no Brasil nos últimos 25 anos, particularmente entre pessoas acima de 60 anos por razões ainda não esclarecidas.
O Viomundo entrevistou o oncologista Auro Dal Giglio sobre o assunto. Gliglio, considerado pelos colegas médicos como uma das mais autoridades brasileiras em linfoma, é professor titular de Oncologia da Faculdade de Medicina do ABC e coordenador do Serviço de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Viomundo – Quantos tipos de linfoma existem?
Auro Dal Giglio – São dois grandes grupos: linfoma de Hodgkin, ou doença de Hodgkin (nome do cientista que o identificou); e linfoma não-Hodgkin. Em cada um desses grupos, há vários tipos.

Viomundo – Clinicamente dá para diferenciá-los?
Auro Dal Giglio – O linfoma de Hodgkin começa localizado e se espalha. O não-Hodgkin tende a se manifestar em vários pontos, a menos que seja detectado muito, muito no início, que, pelo que foi noticiado na imprensa, parece ser o caso da ministra Dilma Rousseff. Mas a única forma segura de distingui-los é por meio do exame anatomopatológico. Amostras do nódulo são analisadas sob microscopia.

Viomundo – Quais os fatores risco para linfoma?
Auro Dal Giglio – Fatores de risco são aquelas situações que podem favorecer o aparecimento de uma determinada doença. No caso do linfoma, há poucos conhecidos. Um deles é a diminuição das defesas do organismo. Doenças hereditárias, uso de drogas imunossupressoras, como as utilizadas em transplantes, artrite reumatóide e doença de Crohn, e infecção pelo HIV, o vírus da aids, aumentam o risco de desenvolver linfomas. Pacientes portadores dos vírus Epstein-Barr [causa mononucleose] e HTLV1 [causa a leucemia-linfoma T do adulto] e da bactéria Helicobacter pylori [causa úlceras gástricas] têm maior risco para alguns tipos de linfomas. Os linfomas estão também ligados à exposição a certos agentes químicos, incluindo pesticidas, solventes e fertilizantes. A exposição a altas doses de radiação é outro fator que aumenta o risco de a pessoa ter linfoma.

Viomundo — Quais os sintomas dos linfomas?
Auro Dal Giglio — Aumento dos gânglios do pescoço, axilas e/ou virilha; suor excessivo à noite; coceira na pele; perda de peso inexplicada; fadiga.  Linfonodos no pescoço, axila e/ou virilha – atenção! – não costumam doer. Agora, se a doença ocorre na região do tórax, os sintomas podem ser tosse, “falta de ar” (dispnéia) e dor torácica. E quando se apresenta no abdômen, podem ocasionar plenitude e distensão abdominal.

Viomundo – E os efeitos colaterais quimioterapia? Os médicos que tratam da ministra disseram que serão mínimos e ela poderá seguir a agenda normal.
Auro Dal Giglio – Realmente, os efeitos da quimioterapia diminuíram muito graças a novas drogas e a uma série de cuidados adotados atualmente.

Viomundo – Então, a ministra Dilma pode ser presidenta?
Auro Dal Giglio – Com certeza.

Viomundo – Os adversários políticos e a própria imprensa vão utilizar o linfoma como arma contra a ministra. Não será um atraso tentar estigmatizar uma doença que há tanto tempo os médicos, os pacientes e familiares lutam para desestigmatizar?
Auro Dal Giglio – Isso faz parte da luta política. Se não for esse motivo, será outro. Nós temos que rezar para que a ministra se cure. Eu não votaria nela para presidente, mas como médico e ser humano, torço por ela. A ministra tem cura. Vai levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

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