Estado e ONGs: a foice e o martelo do PCdoB

Por Hugo Souza – opiniaoenoticia.com.br

A aliança revolucionária operário-camponesa simbolizada na foice e no martelo tomados emprestados da bandeira da antiga URSS para o símbolo, ou melhor, a logomarca do PCdoB é um programa político que, como se sabe, o partido do deputado federal Aldo Rebelo e do ministro do Esporte, Orlando Silva, há tempos deixou para trás.

E aqueles que não se cansam de apregoar o “vazio programático” desta suposta esquerda no mundo pós-muro de Berlim, atenção! Os “comunistas” que disputam eleições, pelo menos os dessas bandas do mundo, parecem enfim ter encontrado a sua nova… práxis, por assim dizer: a adesão entusiástica a uma aliança burocrata-terceiro-setor, dobradinha que veio para colocar água no feijão da corrupção do velho Estado brasileiro.

Por certo não foi o PCdoB quem inventou a moda de se colocar organizações não-governamentais para fazer o trabalho do governo, mas vem atualmente do PCdoB os exemplos, digamos, mais pedagógicos sobre como a farra das contratações de ongs como prestadoras de serviços para a administração pública é uma farra de ações entre amigos, contratos sem prestações de contas, falta de fiscalização e desvio de dinheiro arrecadado mediante recordes sucessivos do “impostômetro”.

Omissão = corrupção

No último final de semana a revista Veja chegou às bancas de todo o país trazendo uma entrevista do policial João Dias Ferreira, militante do PCdoB, na qual o ministro Orlando Silva é acusado de ser mentor e beneficiário de um grande esquema de corrupção que pode ter desviado R$ 40 milhões nos últimos oito anos em dinheiro para comprar comida, bolas e chuteiras no âmbito de um programa criado pelo governo federal para incentivar crianças carentes a praticar atividades esportivas.

Orlando Silva, com espantosa ênfase, nega as acusações. Quase aos berros, diz que estão tentando tirá-lo do governo no grito. Cobra provas. Tenta desqualificar seu acusador, mas talvez não haja alguém mais qualificado para falar do assunto do que uma pessoa que já foi presa por participar do mesmo esquema. Por fim, quase que ameaça seus colegas: “se a moda pega, todo bandido vai começar a acusar os gestores”.

Se Orlando Silva cai ou não cai, a próxima edição da Veja irá dizer (Ilustração/Alviño)

Mesmo que não tenha recebido dinheiro na garagem do ministério do Esporte, Orlando Silva deveria saber que, em se tratando de administração pública, a linha divisória entre a omissão e a corrupção é tão tênue que, na prática, não existe.

Isso porque as evidências de corrupção envolvendo o programa Segundo Tempo não vêm de hoje, como mostra a própria prisão em março de 2010 do policial “comunista” João Dias Ferreira. Há pelo menos três anos o Ministério Público, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União estão na pista das más práticas por trás das boas intenções do programa.

Ministério prorrogou convênio fantasma

Em fevereiro deste ano o jornal O Estado de S.Paulo denunciou a existência de um convênio fantasma para a execução de projetos do programa Segundo Tempo com o Instituto de Desenvolvimento da Criança e do Adolescente (Idec), ong registrada na casa de seu dono, Ranieri Gonçalves, amigo de Apolinário Rebelo, irmão do deputado Aldo Rebelo. Tudo o que Orlando Silva providenciou quanto a tudo isso, até ele próprio ser implicado no trambique, foi uma declaração oficial genérica, tão enfática quanto inócua, prometendo “apurar e punir”.

Pois não apurou, não puniu, e pior: há menos de dois meses o ministério do Esporte, entregue ao PCdoB ao longo de toda a administração petista, prorrogou até agosto de 2012 o convênio fantasma com o Idec, ainda que a ong jamais tenha executado qualquer projeto do Segundo Tempo.

Se Orlando Silva cai ou não cai, a próxima edição da Veja irá dizer. Caso venha a ser o quinto ministro de Dilma demitido em menos de um ano de governo, será mais uma prova de que a tão alardeada “faxina” da presidente não passa de limpadinha superficial. A farra das ongs — e do PCdoB “dono” do ministério do Esporte — mostra que as condições para a proliferação da corrupção permanecem lá, perpetuando-se embaixo dos tapetes da capital federal.

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