Efeito dominó na Casa Civil não é coincidência

Por Magno Karl – opiniaoenoticia.com.br

Nos últimos oito anos, correntes de denúncias derrubaram três ministros-chefes do Ministério mais importante das administrações petistas.
 
Era uma vez um governo popular, com um ministro poderoso no comando de um Ministério importante. O ministro insistia em diminuir seu papel na administração – como um centroavante humilde que afirma ser apenas mais um nesse elenco vitorioso. Mas a imprensa atribuía a ele o comando das ações do governo, de seus projetos e de sua política. Ele era o administrador experiente, o gerente, o primeiro-ministro. Para os governadores, era um interlocutor importante. Entre os aliados, era respeitado e temido. 

Com o tempo, começaram a circular na capital e na imprensa uma série de irregularidades envolvendo o tal ministro. Temendo piores consequências, a presidência entrega o anel, preserva os dedos e a vida continua.

Esse script virou rotina no Ministério mais importante das administrações petistas. Nos últimos oito anos, correntes de denúncias derrubaram três ministros-chefes da Casa Civil. Antonio Palocci, um desses três, já fora demitido anteriormente sob acusações de ter comandado a violação do sigilo bancário de um caseiro em sua encarnação como ministro da Economia.

A oposição quer acreditar que esse poderá ser o escândalo derradeiro; aquele que deixará abertas, por fim, as veias do aparelhamento político e do relacionamento incestuoso entre interesses privados e recursos públicos no Planalto Central.

A concentração de escândalos e acusações de tráfico de influência sobre ministros-chefes da Casa Civil não é coincidência. Como bem apontou o cientista político Rafael Cortez, há uma centralização de projetos e concentração de poder na Casa Civil. E como nos lembra Lord Acton em sua célebre frase, o poder corrompe.

Quem acreditava que algum desses escândalos acabaria por revolucionar a estrutura de poder em Brasília vem se enganando todas as vezes. As pesquisas insistem em apontar a popularidade do governo e as dificuldades dos partidos de oposição.

O dever da oposição
Mesmo que a população esteja anestesiada em relação às denúncias de corrupção – já tratada como fenômeno endêmico na política – restam ainda duas frentes complementares como alternativas à fiscalização dos atos do governo: a elaboração de um programa de oposição consistente e um ataque sério à concentração de poder nas mãos do governo federal.

Na semana passada, durante um programa de entrevistas, o senador Álvaro Dias, líder do PSDB no senado, teve a chance de agir nessas frentes. Perguntaram a ele sobre as opiniões erráticas de seu partido sobre as privatizações e sobre quais seriam as propostas dos partidos de oposição para o Brasil. Dias, no entanto, se limitou a declarar que “agora quem tem que propor é o PT, o PSDB tem que fiscalizar”. Em seguida, Dias afirmou que a oposição deveria aguardar o momento das eleições para apresentar as suas propostas e acrescentou que “seria incrível a oposição tirar o coelho da cartola e oferecer ao adversário”.

Com essa atitude, a oposição se abstém do debate de ideias e vira refém do personalismo típico de nossa política, para o bem ou para o mal. Em vez de propor, fica à espera do deslize fatal de um colaborador do governo ou da “inevitável” eleição de Aécio Neves.

No prefácio de uma das edições de seu livro “Capitalismo e Liberdade”, Milton Friedman fala das mudanças anteriormente impensáveis que se tornam possíveis diante de um quadro de crise. Friedman escreve que a direção de tais mudanças será baseada nas ideias que estiverem disponíveis no momento; aquelas que estiverem em debate na sociedade.

Se a oposição entrega ao governo o monopólio da proposição de políticas, não é surpresa quando os eleitores continuam escolhendo as políticas daqueles que estão no poder. Afinal, não houve tempo suficiente para discutirem, processarem e serem dissuadidos pelas teses oposicionistas, apresentadas às pressas, às vésperas do voto.

A denúncia, o afastamento e o indiciamento de acusados de corrupção são sinais positivos de moralização da máquina pública. No entanto, tratam apenas dos efeitos colaterais de uma doença bem mais grave: o tamanho e a concentração do poder político e econômico na esfera pública brasileira. É essa engrenagem que possibilita a existência de desvios de conduta que raramente se transformam em grandes escândalos.

Há algumas semanas, em meio a uma crise que levou quase metade de sua bancada, o Democratas ensaiou um reavivamento de suas políticas liberais. Esperemos que esse processo comece então por uma campanha pela redução do poder estatal brasileiro, mecanismo de escolha de vencedores e perdedores, e verdadeiro combustível da corrupção.

Para voltar a ser relevante, a oposição precisa trocar a personalização do debate político pela apresentação de um projeto novo para o país. Foram-se as Erenices, os Dirceus e Paloccis; foram-se os primeiros-ministros. Mas a população continua a votar nos governistas, sem saber direito o que propõe o outro lado.

Depois de oito anos, já não deveria ser necessário à oposição esclarecer contra quem estão atuando, mas sim o que propõem para o Brasil no século XXI. Ao esconderem seus coelhos e cartolas, os oposicionistas não estão privando seus adversários de se apropriarem de suas ideias; estão mantendo a população em estado de ignorância

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