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Edir Macedo entra para o Índice de Bilionários da Bloomberg

O bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, uma denominação pentecostal especializada na “teologia da prosperidade” que liga a fé ao sucesso financeiro, tem mais de 5 milhões de seguidores, cujas doações ao longo dos últimos 36 anos fizeram dele um bilionário. Ele também é alvo de dezenas de investigações criminais, além de dono da TV Record, a segunda maior rede de televisão do país.

De vez em quando Macedo realiza eventos ao ar livre que atraem multidões de meio milhão. Em fevereiro ele se dirigiu a 5 mil paroquianos em uma de suas igrejas em Belo Horizonte: “Qual é o maior país do mundo, economicamente falando?”, indagou. “É a América, os Estados Unidos. Você sabe por quê? Porque lá atrás, e isso faz parte da história, você pode procurar na internet, a colonização foi feita por homens que acreditavam na palavra de Deus. E eles eram dizimistas. É por isso que você vê na nota de dólar a frase:’Em Deus nós confiamos’”.

Nos ensinamentos de Macedo, o dízimo, ou o dever de entregar 10% de sua renda para aigreja, é um mandato de Deus. “Nossa cultura é retrógrada, uma cultura mesquinha, uma cultura sem visão de futuro”, disse ele durante o culto em Belo Horizonte. “Só você pode mudar essa situação. O dízimo coloca você no altar de Deus, assim como Jesus era o dízimo de Deus para a humanidade”. Uma piada sobre a Igreja Universal diz que, a mando de Macedo, o dízimo não é mais de 10%. São 10% para o Pai, 10% para o Filho e 10% para o Espírito Santo.

Silvio Luís Martins de Oliveira, um promotor de Justiça em São Paulo, defende que a promessa de Macedo de riquezas espirituais em troca de dinheiro constitui fraude. Em um processo de 2009 que só agora está sendo julgado, ele acusa Macedo e três membros do alto escalão da igreja de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e transferências internacionais de dinheiro não declaradas. “Os pregadores fazem uso da fé, do desespero ou da ambição de [seus seguidores] para vender a ideia de que Deus e Jesus Cristo apenas olham para aqueles que contribuem financeiramente para a igreja”, Oliveira escreveu em sua denúncia criminal.

Macedo se orgulha de seu sucesso, mas costuma manipular perguntas sobre a sua riqueza em assuntos espirituais. “Do ponto de vista da minha fé em Jesus Cristo, eu sou o homem mais rico do mundo”.

Seja qual for a sua semântica, ele prosperou. O Índice de Bilionários da Bloomberg estima sua fortuna em US $ 1,2 bilhões.

Universal e multinacional

Macedo se orgulha de ter congregações em cerca de 200 países e está constantemente viajando entre eles na frota de jatos particulares da igreja. Só em Angola, a igreja tem meio milhão de fiéis. Nos EUA, conquistou cerca de 60 mil seguidores, principalmente imigrantes latino-americanos. Em uma petição para conseguir uma hipoteca, protocolada na Suprema Corte de Nova York em 2007, a igreja disse que tinha uma receita anual de US $ 50 milhões nos EUA. No Brasil, registros mostram que a instituição declarou doações no valor de US $ 750 milhões em 2006.

Ilustração do Templo de Salomão, projeto da igreja em construção em São Paulo

Ao longo dos anos, Macedo enfrentou mais de 20 investigações criminais por acusações que vão de calúnia à utilização de documentos falsos. Ele nunca foi condenado e foi preso apenas uma vez, por 11 dias, em 1992, acusado de fraude, charlatanismo e curandeirismo. As acusações foram rejeitadas por falta de provas, como a maioria das outras que foram levantadas contra ele, algumas das quais prescreveram pela morosidade da Justiça brasileira. O processo a que responde atualmente, por lavagem de dinheiro, alega que no início de 1990 os pastores da igreja começaram a entregar doações dos paroquianos para operadores de câmbio do mercado negro conhecidos como doleiros, um recurso comum para brasileiros que precisam enviar fundos não declarados para o exterior.

 

João Batista Ramos da Silva, um pastor do alto-escalão da Igreja Universal, só tem boas coisas a dizer sobre os aparentes luxos da igreja. “No século 21, se Jesus estivesse aqui hoje, ele estaria usando sapatos de couro fino”, diz Batista. “Ele teria uma camisa de seda francesa, talvez, ou japonesa, com um terno da melhor qualidade, um Pierre Cardin. E ele viajaria de helicóptero ou jatinho particular. E tudo isso, para quê? Para melhor pregar a palavra de Deus”.

Megalomania

Há poucos meses a igreja começou o seu maior projeto até agora: uma réplica do Templo de Salomão em construção em São Paulo com pedras importadas de Israel. Os quatro pilares já foram erguidos, e cada um é mais alto que a icônica estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. O custo total foi estimado em mais de US $ 150 milhões. Até mesmo os assentos dos fieis são caros. Cada um dos 10 mil que vão encher o salão custou R $ 1.100. “Se o objetivo de Macedo é o dinheiro, por que investir neste templo?” indaga Batista, em defesa do líder. “Por que jogar dinheiro fora?”

Em uma quarta-feira à noite, em fevereiro, Macedo liderava um culto na Igreja Universal em São Paulo enquanto uma ilustração do projeto do Templo de Salomão era projetado na parede atrás dele. Macedo explicou aos fieis que eles ainda precisam colocar o telhado no templo. “Eu nem sei o quanto isso vai custar, mas é um monte de dinheiro”, disse. Os fieis se enfileiraram para fazer doações. Em um determinado momento, Macedo caminhou até ele e colocou as mãos sobre a sua cabeça em bênção. “Eu quero que você seja rico”, disse ele. “Só não deixe o dinheiro ser o seu mestre. Deixe-o sempre ser o seu servo”.

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