E se os vices vierem a assumir?

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

Esses coadjuvantes nas chapas majoritárias merecem um pouco mais de atenção, “porque não há nada mais democrático do que o imprevisto”. Por Hugo Souza.

Está no ar na TV brasileira uma bem-humorada campanha publicitária de um banco para vender seguros de vida. Em uma das peças, um ator caminha por uma linha férrea, com um trem se aproximando ao fundo, enquanto diz:

“Muita gente não faz seguro porque acha que nada vai acontecer. Tudo bem, tudo bem, é uma maneira de pensar. Mas vai que… né? Porque não há nada mais democrático do que o imprevisto. Concorda? O sujeito é milionário, está naquela piscina olímpica maravilhosa e vai que… foi! Ou não. É o cara mais sortudo do mundo, mas ele tem um segundo ruim. E nesse um segundo ruim vai que… Já o azarado, pensou, vai que… piscou, vai que… Na verdade tudo pode acontecer, e contra isso…”

O comercial termina com o ator dizendo que, contra isso, não há nada melhor do que fazer um seguro da empresa em questão. Isso no exato instante em que o trem toma o rumo de um desvio, em vez de passar por cima do locutor.

Parafraseando esta peça genial, e sem querer agourar os nobres candidatos que ora se esmeram para conquistar o apoio do eleitorado, o político sua a camisa na campanha, é escolhido pela maioria para ser o presidente da República ou o governador do estado, e vai que… foi! Ou então o mais reto dos eleitos com o voto do povo tem um segundo ruim, digamos, e nesse um segundo ruim tem uma câmera escondida ou uma testemunha falastrona e vai que… impeachment!

Contra isso, ou melhor, para isso existem os vices (entre suas outras atribuições). Os candidatos a vice nas chapas para cargos de eleições majoritárias, porém, costumam ser absolutamente irrelevantes para as escolhas dos eleitores. Talvez valesse a pena um pouco mais de atenção a esses coadjuvantes que podem virar protagonistas da noite para o dia. Afinal, “não há nada mais democrático do que o imprevisto”.

Eleitores não sabem quem são os vices

Uma pesquisa do Datafolha feita em julho mostrou que 94% dos eleitores brasileiros não sabiam dizer o nome do vice de Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (PMDB), e 96% desconheciam quem assumiria o cargo de presidente no lugar de José Serra (PSDB), ou seja, Índio da Costa (DEM).

Em eleições como as que se avizinham, para presidente e governadores, a irrelevância dos vices junto ao eleitorado costuma ser ainda maior, tendo em vista que daqui a dois anos, nas eleições municipais, em teoria nenhum eleito agora deixará o cargo conquistado para se candidatar a prefeito ou vereador, deixando a vaga para seu substituto imediato.

Não é o caso de o cidadão, na frente da urna eletrônica, chegar ao ponto de escolher entre Temer e Índio, em vez de pensar em Dilma ou Serra, como é óbvio. Mas há uma evidente contradição entre o descaso para com os candidatos a vice e o fato de que o Brasil, desde que deixou de ser administrado pelos militares, já teve dois “reservas” assumindo a presidência da República: José Sarney e Itamar Franco, respectivamente nos lugares de Tancredo Neves, morto antes da posse, e Fernando Collor de Mello, destituído do cargo.

Mesmo o “golpe” de 1964 aconteceu, entre outros fatores, como reação às políticas de João Goulart, ex-vice que havia assumido a chefia do Estado brasileiro anos antes, após a renúncia de Jânio Quadros. Ele já havia sido eleito vice de Juscelino Kubitschek em 1955. Naquela época, as eleições para presidente e vice eram separadas, e o candidato a vice Jango, quem diria, recebeu mais votos do que o próprio Juscelino.

Alguns vices com pouca projeção eleitoral acabam alavancando suas carreiras políticas quando o destino lhes reserva o exercício do poder. É o caso de Geraldo Alckmin, que assumiu o governo de São Paulo após a morte de Mário Covas, em 2001, e apenas cinco anos depois chegou ao segundo turno da disputa presidencial com Lula.

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