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Diretor da Toyo revela que pagava propina com doação oficial ao PT

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p3aO empresário Augusto Ribeiro de Mendonça Neto afirmou, em depoimento feito ao Ministério Público e à Polícia Federal, em outubro, que parte do suborno pago pelo cartel das empreiteiras (Clube do Bilhão) para obtenção de obras superfaturadas na Petrobrás virou doação oficial ao PT. Segundo o depoimento de Mendonça Neto, tornado público na quarta-feira (3), por ordem do juiz federal Sérgio Moro, as doações oficiais ao PT, em valor aproximado de R$ 4 milhões, foram feitas entre 2008 e 2011 a pedido de Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobrás.

Mendonça, que é membro do conselho de administração do Estaleiro EBR, dono da Setal Óleo e Gás – que se uniu à japonesa Toyo Engineering para a criação da Toyo-Setal e do EBR –, presidente da Abenav e vice-presidente do Sinaval, afirmou aos procuradores que, em 2008, conversou pessoalmente com o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, na sede do Diretório da legenda, em São Paulo. Em seu interrogatório o executivo disse que foi orientado por Renato Duque a procurar Vaccari Neto, tesoureiro do PT, e que manifestou o interesse em fazer contribuições ao partido. O executivo afirmou que negociou o pagamento de propina diretamente com Duque, mas explicou que normalmente tratava do assunto com o então gerente da área de Serviços da estatal, Pedro Barusco.

A Toyo-Setal e o Estaleiro EBR têm contratos com a Petrobrás avaliados em cerca de R$ 5 bilhões e incluem a construção e a integração dos módulos para a plataforma P-74 (cerca de R$ 1,85 bilhão), que está sendo feita pelo Estaleiro EBR e será utilizada na Cessão Onerosa do pré-sal; a unidade de hidrogênio do Comperj (R$ 1,1 bilhão) está sendo feita pela Toyo-Setal; e a unidade de amônia (R$ 2,09 bilhões) para a planta de fertilizantes da Petrobrás em Uberaba (MG) e a UFN V (Planta de Amônia), também pela Toyo-Setal.

Mendonça Neto e Júlio Camargo – que também assinou um acordo de delação premiada e é, como Mendonça, integrante do grupo Toyo Setal – confessaram ter pago pelo menos R$ 153 milhões de suborno em contratos da Petrobrás. Destes, R$ 4 milhões teriam sido repassados como doações oficiais ao PT, segundo Mendonça Neto. O executivo explicou que fez as doações ao PT por meio de três empresas sob seu controle: a Setec Tecnologia, a PEM Engenharia e a SOG Óleo e Gás.

De acordo com ele, no caso da Refinaria do Paraná (Repar) foi firmado um contrato de prestação de serviços com uma das empresas de Júlio Camargo, no valor de R$ 33 milhões. Desse total, R$ 20 milhões foram transferidos ao exterior, em uma conta indicada por Duque, denominada “Marinello”. No caso da Replan, Mendonça Neto afirmou que pagou “comissões” tanto para Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, quanto para Duque. O executivo disse que o valor foi de R$ 30 milhões. Renato Duque foi preso na sétima fase da Lava Jato e deixou a carceragem da PF em Curitiba na quarta-feira (3), após decisão do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Nos depoimentos, os executivos detalharam outras duas formas de pagamento do suborno. Segundo o empresário, o dinheiro era entregue também em espécie, em partes, dentro do país a emissários de Renato Duque e remessas para contas no exterior sob controle deste e de Pedro Barusco, ex-gerente de engenharia que também fez acordo de delação premiada e prometeu devolver US$ 97 milhões (R$ 248 milhões). Júlio Camargo admitiu ter usado suas empresas Treviso, Auguri e Piemonte, para pagamento de R$ 4,2 milhões nas eleições de 2008, 2010 e 2012, a políticos de 11 partidos. Ele disse também que pagou US$ 40 milhões (R$ 102 milhões) a Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, pela intermediação de vendas de sondas da Samsung à Petrobrás.

De acordo com Mendonça Neto, para justificar o pagamento de propina, a Toyo Setal firmou contrato de prestação de serviços com cinco empresas de fachada. No depoimento, o executivo informa que os contratos eram “simulados”. As empresas disponibilizavam então, segundo Mendonça Neto, dinheiro em espécie ou remetiam os valores ao exterior. No depoimento, Mendonça revelou ter pago entre R$ 50 milhões e R$ 60 milhões em propina ao ex-diretor de Serviços da Petrobrás, Renato Duque, em contas bancárias na Suíça e no Uruguai

O HP já havia revelado, na nossa última edição, que o cartel passou parte do suborno nas campanhas oficiais. Cerca de 20% dos R$ 350 milhões arrecadados pela campanha de Dilma Rousseff a presidente, por exemplo, foram doados pelo chamado “Clube do Bilhão”, formado pelo cartel das empreiteiras que assaltou os cofres da Petrobrás. O mesmo cartel doou também cerca de 20% dos recursos arrecadados pelo candidato Aécio Neves, do PSDB. Na denúncia que serviu de base para as prisões efetuadas no mês passado, na Operação Lava Jato, o Ministério Público Federal afirma que a doação para partidos políticos de recursos desviados da Petrobrás pode ter sido uma “mera estratégia” de lavagem de dinheiro.

O PT soltou nota na quarta-feira negando que tenha recebido recursos de forma irregular. “Reiteramos que o PT somente recebe doações em conformidade com a legislação eleitoral vigente. No caso específico, o próprio depoente reconhece em seu depoimento que foi orientado pela secretaria de finanças do PT a efetuar as doações na conta bancária do partido. Ou seja, todo o processo ocorreu dentro da legalidade”, diz a nota. O PT procura, com a nota, desmentir, sem sucesso, as declarações dos empresários. Só que o que eles afirmaram é que parte do suborno entrou “legalmente” no partido. Portanto, a nota, não desmente nada. Ela só confirma que entrou dinheiro oficialmente nas contas do partido.

SÉRGIO CRUZ – Jornal Hora do Povo

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