Dilma sai da sombra de Lula

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

Contrariando expectativas, Dilma Rousseff terminou seu primeiro ano na presidência com um governo de características bastante pessoais, e prepara planos ambiciosos para o resto do mandato.

Durante seu primeiro ano como presidente do Brasil, Dilma Rousseff teve o cuidado de não fazer alterações tão grandes que poderiam ser vistas como uma reprovação de Lula, seu antecessor e mentor. Ela esperou para substituir os ministros que herdou dele até que as acusações de corrupção contra eles tornaram-se grandes demais, e implementou apenas reformas limitadas. Muitos especialistas esperavam que em 2012 ela aproveitasse o calmo período entre o Natal e o Carnaval, em fevereiro, para ser mais ambiciosa, mas continuaram desapontados com seu comportamento.
 No entanto, mesmo evitando gestos ousados, ela progressivamente emergiu da sombra de Lula para reformular o Estado brasileiro, dando a ele seu toque pessoal. Após um ano, o governo de Dilma está mais firme em seus princípios, mais tecnocrático, mais leal no nível pessoal, e bem mais feminino que o de Lula. Resta saber se essas mudanças farão dela uma presidente mais capacitada que seu antecessor para levar adiante as reformas estruturais de que o Brasil precisa.
 
Dilma deve sua vitória nas urnas em 2010 inteiramente a Lula, que a escolheu como sucessora. Ele, por sua vez, deve sua popularidade ao rápido crescimento econômico de seu segundo governo, e aos programas sociais que ajudaram a reduzir a pobreza e a desigualdade. No entanto, Lula era um negociador pragmático que, como muitos presidentes brasileiros, comprou a lealdade distribuindo cargos no governo, e boa parte das reformas econômicas que formaram a base do crescimento econômico brasileiro dos últimos anos são, na verdade, obras de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.
 
Durante o primeiro ano de Dilma apenas uma grande reforma, que livrava o governo de algumas obrigações constitucionais, foi aprovada no Congresso. Conseguir algo em Brasília é um processo lento, que exige negociações complexas com os parceiros de coalizão. Sua liberdade de manobra foi limitada também por sua inexperiência e por dívidas políticas aos aliados que ajudaram a elegê-la.
 
Mas o mandato de Dilma ainda está longe de terminar e muitos enxergam no seu primeiro ano a criação de alicerces para um projeto muito mais ambicioso. Muitas de suas nomeações pareceriam estranhas no governo de Lula. Eleonora Menicucci, a nova ministra-chefe da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, é uma professora de saúde coletiva que é amiga da presidente desde que ambas dividiram uma cela durante o regime militar. Dilma também nomeou Marco Antonio Raupp, um respeitado médico, como ministro da ciência, quando seu antecessor deixou o cargo.
 
A nomeação de Maria das Graças Foster para a presidência da Petrobras é particularmente interessante. Uma engenheira da Petrobras por 31 anos, Foster expressou sua “gratidão e lealdade eterna” a Dilma quando foi nomeada na última segunda-feira, 13. Essa decisão pode não ter agradado os acionistas minoritários, mas sua experiência fez a diferença: as ações da Petrobras subiram quando seu nome foi anunciado.
 
Passada a reformulação ministerial, Dilma agora impulsionará seu programa de governo. Embora tenha tido pouca sorte com o Congresso até agora, ela propôs a reforma da Previdência, leis para impedir o desmatamento, e um acordo na divisão da receita da exploração de petróleo entre os estados e a União. E ela vem pressionando sua equipe para que metas sejam atingidas e para que serviços públicos para a população de baixa renda sejam tratados coma devida importância.
 
O Brasil até agora sobreviveu bem à tempestade que se bateu sobre a economia global. Após um crescimento acelerado em 2010, a economia teve um crescimento de 3% em 2011, graças a uma desaceleração no terceiro trimestre. Uma moeda supervalorizada fará com que os exportadores tenham dificuldades. Mas cortes nas taxas de juros devem reanimar a demanda doméstica. Economistas preveem uma expansão entre 3 e 4% para 2012.
 
Enquanto isso, pesquisas recentes mostram que o índice de aprovação de Dilma está em 59%, um aumento de 10% com relação à metade do ano passado. Isso poderia estimulá-la a reduzir sua complicada coalizão. Sete partidos estão representados no governo, e a oposição conta com apenas 91 deputados entre os 513 da Câmara. Livrar-se de seus problemáticos aliados sem tanta expressão ajudaria a fortalecer sua imagem enquanto mostraria ao restante quem é a chefe do Brasil.

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