Dilma é favorita no segundo turno, mas não está eleita

Contrariamente ao objetivo da campanha midiática anti-Dilma e anti-Lula, esta onda de denuncismo não agregou votos a Serra. Isto é importante refletir, apesar da eleição ir para o segundo turno, Serra não cresceu, mesmo com toda a máquina midiática a seu favor.

Por Dennis de Oliveira – revistaforum.com.br

Do lado dos partidários de Dilma há uma certa desolação por conta da não eleição no primeiro turno, do lado da oposição, uma quase-comemoração não apenas pela ida ao segundo turno, mas principalmente pelo gostinho de ter que obrigar os governistas a novamente enfrentarem um pleito dado como ganho. Os comentários hoje (4/10) no Bom dia Brasil feitos por Miriam Leitão e Alexandre Garcia foram interessantes. Leitão ressaltou que o eleitorado brasileiro é “autônomo” e não vota a mando de ninguém referindo a um pretenso voto de “cabresto” do presidente Lula; Alexandre Garcia tentando encontrar algum entusiasmo esperançoso da possibilidade de virada de Serra, mas logo ceifada por um comentário preciso de Miriam Leitão: “Dilma é a favorita, Serra terá muito mais dificuldades para ganhar esta eleição que Dilma.”

Há vários revezes no campo progressista que não podem ser desconsiderados, como o recuo de Dilma em São Paulo (ela estava liderando as pesquisas e no final, Serra venceu no seu estado); a eleição de um senador tucano em São Paulo, quando havia a perspectiva de eleger dois senadores do campo governista; a quase derrota no Pará, estado governado pelo PT; o segundo turno no Distrito Federal (local onde se contava uma vitória no primeiro turno), entre outros.

Porém, há indicadores que demonstram uma vitória ampla do campo progressista nestas eleições e uma derrota da direita. A coligação PSDB/DEM perdeu muito espaço no Congresso Nacional, em especial no Senado, no caso do DEM, partido que assume cada vez mais o discurso de extrema-direita, a derrota foi acachapante, com a eleição de somente dois governadores em estados pequenos (RN e SC) e uma redução substancial do número de senadores e deputados eleitos. Pesa ainda a derrota de pesos-pesados do bloco conservador, como Tasso Jereissati, Marco Maciel, Cesar Maia, Arthur Virgilio Neto e a surra tomada por Jarbas Vasconcelos em PE, este mesmo que recebeu uma simpática cobertura da mídia hegemônica quando teve a “coragem” (sic) de dizer que o seu partido, o PMDB, era corrupto.

Outra discussão que mobilizou as análises deste primeiro turno foi o desempenho da candidatura de Marina Silva pelo PV. É fato que o seu desempenho foi primordial para que a eleição fosse para o segundo turno. É muito difícil vencer uma eleição em primeiro turno quando se tem mais de dois candidatos fortes.

Considero, porém, um certo apressamento considerar este fenômeno de votos de Marina como uma nova força política. Primeiro porque o Partido Verde não tem esta votação e isto é demonstrado pelo seu pífio desempenho nas eleições proporcionais e estaduais. Segundo que a origem político-ideológica de Marina, vinculada ao movimento social em defesa dos povos da Amazônia não se consubstanciou em uma força política, tanto é que ela foi derrotada no seu estado (ficou em terceiro lugar, atrás de Serra e Dilma) e teve o grosso da sua votação em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, principalmente em estratos médios. Terceiro, que parte da sua votação originou de uma campanha de cunho fundamentalista religioso que tirou alguns pontos percentuais de Dilma. E, quarto, que boa parte dos seus votos veio em forma de um protesto, um certo “cansaço” pela onda de denuncismo que a mídia imprimiu nesta campanha e a busca de algo novo na política (daí o grande número de jovens que votaram em Marina e o grande uso das redes sociais, Marina foi a preferida dos usuários das redes sociais). Assim, não há uma unidade mínima em termos de posicionamento político para considerar este fenômeno como uma nova força política (lembro que em outras eleições surgiram fenômenos semelhantes que ficaram só na promessa de força política nova, como Garotinho, Ciro Gomes, Soninha na cidade de São Paulo, Benedita da Silva no Rio de Janeiro).

Contrariamente ao objetivo da campanha midiática anti-Dilma e anti-Lula, esta onda de denuncismo não agregou votos a Serra. Isto é importante refletir, apesar da eleição ir para o segundo turno, Serra não cresceu, mesmo com toda a máquina midiática a seu favor. Pelo contrário, o desempenho da sua coligação foi ruim nos estados, houve uma redução do número de parlamentares eleitos e os candidatos a governador afinados com a coligação de Dilma saíram vencedores na maioria dos estados. O discurso mais conservador, de tipo udenista, saiu derrotado desta eleição. O DEM, partido que encarna este discurso, foi o maior derrotado.

O blogueiro “sujo”1 Luiz Carlos Azenha observa que o candidato Serra pode fazer um deslocamento político para o centro buscando conquistar estes votos de Marina no segundo turno, dificultando uma polarização política a ser feita pela candidatura governista. É uma tentativa real, demonstrada inclusive com a intenção dos tucanos de trocar o candidato a vice. Mas há pouco tempo para esta complicada articulação política (o DEM já adiantou que não aceita esta mudança) e, mais ainda, pouco tempo para que esta mudança tenha impacto no eleitorado. Pelo contrário, as sucessivas mudanças de rumo da candidatura Serra – de uma oposição mais propositiva para uma de caráter mais radical e udenista e, depois, para uma mais centrista se ocorrer – pode fortalecer a impressão de uma candidatura sem rumo. O voto em Serra é um voto anti-Dilma, o que se depreende pelas pesquisas qualitativas realizadas pelo Ibope e analisadas pelo blogueiro “limpo” do Estadão, José Roberto Toledo – o “top of mind” dos eleitores de Serra desqualificam muito mais a adversária Dilma com os adjetivos de “despreparada”, “péssima” e “oportunista”, do que ao contrário. Os eleitores de Dilma até reconhecem que Serra é “bom” e “inteligente” , mas optam por Dilma pelo fator “continuidade” do governo atual. Assim, sobra para Serra a definição em manter e consolidar o seu eleitorado atual mantendo um discurso de oposição mais duro a Dilma ou arriscar-se novamente para uma oposição mais “light” que pode até pegar uma parcela dos votos em Marina mas também pode por em risco o seu eleitorado. Arrisco dizer que este segundo turno terá uma grande quantidade de votos nulos e brancos.

De qualquer forma, é importante lembrar que este segundo turno é bem diferente do que aconteceu em 2006. Naquele ano, houve um crescimento da votação no candidato do PSDB. Geraldo Alckmin, o que não ocorreu agora com Serra que está brigando há tempos para sair dos 32%. Porém, há o fato de que o candidato Lula é muito mais forte eleitoralmente que Dilma que, ao meu ver, não tem se saído bem nos debates (só não foi pior porque Serra também foi muito mal).

Fazendo como o nosso presidente da República uma metáfora com o futebol, Dilma vira o intervalo vencendo por dois a zero. Serra fica naquele dilema: tem que atacar, mas corre o risco de tomar o terceiro e dar por perdido o jogo. Mas todo o time que está vencendo por dois a zero tende a relaxar e por tudo a perder.

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