Debate é marcado por acusações entre Serra e Dilma

PorRenata Camargo – congressoemfoco.com.br
 
O debate entre os presidenciáveis promovido pela Rede TV e a Folha de São Paulo, na noite deste domingo (12), foi marcado pela troca de acusações entre os candidatos Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). Episódios como a reportagem sobre suposto lobby feito por filho da sucessora de Dilma na Casa Civil e a violação do sigilo fiscal da filha de Serra provocaram direitos de resposta entre a petista e o tucano.

Além de Serra e Dilma, Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) fizeram menção às últimas denúncias que têm pautado a campanha presidencial. Mesmo assim, houve polarização entre a petista e o tucano.

Marina questionou a ex-ministra de Lula sobre o que faria para evitar vazamento de dados sigilosos dos cidadãos, fato que ela considerou banalizado. Desconsertada, Dilma respondeu que não concorda que o caso esteja sendo banalizado. A candidata afirmou que foi a sua campanha que solicitou que houvesse uma investigação do episódio do vazamento de dados sigilosos. E afirmou que, em seu governo, vai tomar medidas para que funcionários responsáveis pelas violações sejam punidos, se necessário, demitidos.

Em resposta, Marina defendeu um sistema de alerta ao cidadão. “Como medida, considero que todo e qualquer acesso a dados da Receita deve ser comunicado”, disse, usando como exemplo o sistema dos cartões de crédito. Marina acrescentou que, caso seja eleita, em seu governo qualquer desvio de conduta nesse sentido será punido.
 
Foi Marina a primeira questionar Dilma sobre as semelhanças de escândalos de corrupção entre o governo petista e tucano. A candidata do PV quis saber “por que esse atraso ético ainda permanece”. Em resposta, Dilma afirmou que o governo Lula aperfeiçoou mecanismos de controle do governo, ampliando, entre outras coisas, as investigações da Polícia Federal.
 
À frente nas pesquisas de intenção de votos, Dilma foi a candidata mais requisitada no debate. A jornalista Renata Lo Prete, da Folha de S. Paulo, perguntou se ela colocaria a mão no fogo pela ministra-chefe da Casa Civil e braço direito, Erenice Guerra. Dilma afirmou que tem “até hoje a maior e melhor impressão da ministra Erenice” e que as acusações são contra o filho da ministra.

“Não vou aceitar que se julgue a minha pessoa pelo que aconteceu com o filho da minha ex-assessora”, disse a candidata do PT, tentando se isolar do caso. “O governo deve investigar e avaliar se houve tráfico de influência. Acho que isso cheira manobra eleitoreira.”

Em um momento posterior, Serra tentou desmontar a argumentação de Dilma. “O escândalo não é só do filho da ministra, não”, criticou. “Envolve gente do governo.”
 
“Imbecis”
 
Serra aumentou os ataques a Dilma ao ser questionado pela jornalista Renata La Prete sobre o fato de ter classificado de “imbecis” as críticas de que sua campanha utilizou o dossiê contra sua filha oportunamente. Segundo a jornalista, Serra soube do dossiê e optou por não revelar à imprensa, tendo feito isso no momento em que a candidata do PT o ultrapassou nas pesquisas de opinião de voto.
 
“Não cabe a mim colocar rumores. Não cabe dizer que eu tenho impressão de tal coisa. Quebraram o sigilo da vida da minha filha. O que eu deveria fazer? Agradecer ao PT? agradecer a campanha de Dilma?”, disse Serra.
 
Foi neste momento que a candidata do PT pediu seu segundo direito de resposta, que foi concedido. Dilma afirmou que Serra quer ganhar a campanha no “tapetão”. “O meu adversário, ele quer ganhar essa campanha no tapetão, pois não consegue convencer o povo brasileiro. O que ele quer é virar a mesa da democracia. Vou manter o alto nível da eleição e não vou passar para a história como uma caluniadora”, disse Dilma.
 
Serra também pediu direito de resposta, que foi concedido. “Essas questões que envolvem a democracia e a moralidade não se resolve com ‘braveza’ [sic]. A Casa Civil parece ser um foco de corrupção”, replicou Serra, citando o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o caseiro Francenildo, personagens do escândalo do mensalão do PT.
 
O embate continuou quando Serra questionou Dilma sobre a relação de “carinho e amizade” do presidente Lula com o presidente do Irã. Em resposta, a candidata do PT disse que as relações internacionais não devem ser resolvidas com o “fígado”. “Vimos que certos tipos de guerra não ajudam na pacificação daquelas regiões”, disse.
 
Na réplica, Serra rebateu afirmando que Dilma de não tem uma trajetória política e que a candidata é “evasiva” em suas respostas. “As pessoas no Brasil sabem que eu não sou caluniador, nem evasivo nas respostas. Não sei se você é ou não caluniadora, nem evasiva. Mas, no caso de evasiva, já está demonstrando. Você não responde às perguntas”, disse o tucano.
 
Irritada, Dilma respondeu que “as pessoas não têm que ser pretenciosas e achar que são donas da verdade”. “Não acho que ninguém trate o Irã com carinho. Eu lamento profundamente a tentativa sistemática de me desqualificar. Eu também tenho uma trajetória. Não subestime ninguém. O senhor não é dono da verdade, o senhor não é melhor do que ninguém”, rebateu.

Nas tentativas de polemizar com os escândalos de corrupção, Serra tentou, inclusive, fazer uma dobradinha com o candidato do Psol, Plínio de Arruda Sampaio, que respondeu que “essa sujeirada não é o que interessa nesta campanha”. “Zé, essa é uma troca de acusações que representa apenas o nível a que chegou o debate político. O debate político deixou as grandes questões. Temos que discutir propostas concretas. Isso é uma sujeirada que não tem nada com o Psol”, disse Plínio. Serra rebateu dizendo que a democracia do governo de Lula é usar o “aparato legal” para quebrar sigilo dos adversários.
 
Propostas
 
Apesar das trocas de acusações, os candidatos também fizeram perguntas sobre as propostas políticas de cada um. Em suas perguntas, Plínio questionou sobre verbas para a saúde e educação. Plínio questionou Dilma sobre o veto a um projeto que propõe destinar 10% do PIB à educação. O veto foi dado no governo do ex-presidente Fernando Henrique e mantido pelo presidente Lula.
 
“Curioso, porque quem vetou os 7%, projeto do deputado Ivan Valente, foi o FHC. E quem manteve o veto, malandramente como o Lula faz sempre. O seu governo manteve o veto, e você era ministra e não fez nada”, disse Plínio em réplica a Dilma. A candidata afirmou que era favorável a 7% do PIB para educação.
 
Ao responder uma pergunta de Dilma, sobre importação de plataforma de sondas e navios da Coréia e de Singapura, Plínio levantou risos da plateia. O candidato do Psol afirmou que aquilo era uma “pegadinha”, que ele não estava a par do assunto e não tem obrigação de responder tudo. “Dilma, você não respondeu ao veto do Lula sobre os 7%, não respondeu sobre a bolsa banqueiro. Agora está contente porque você pegou o Plínio no pulo”, disse. Dilma afirmou que achou que estava “levantando a bola” do candidato.

Mágica”

Em outro momento, Plínio criticou Serra. Disse que ele promete aumentar o gasto com saúde para 10% do PIB ao mesmo tempo em que promete reduzir impostos e pagar a dívida pública. “Isso é mágica”, ironizou.

Serra afirmou que era possível cumprir o prometido porque o governo possuiria “muita gordura” e que o Estado tem muito “cabide emprego”.
 
Desastres

Marina Silva questionou Serra sobre políticas para evitar desastres ambientais e socorrer pessoas vítimas dos desastres. O candidato tucano afirmou que pretende criar uma defesa civil nacional permanente, ligada ao governo federal. “Vamos criar uma força nacional permanente estável, que possa articular os diferentes ministérios do governo federal”, disse Serra. Na réplica, Marina afirmou que o PV pretende criar sistema de alerta de desastres, fundo de defesa civil e regulamentar a Lei de Mudanças Climáticas. “A gente precisa de prevenção”.
 
O candidato do Psol foi questionado em relação à desapropriação de terras no país. Plínio afirmou que não será o povo brasileiro que terá que pagar a conta das desapropriações de terra e outras medidas. Para ele, quem bancará a despesa serão “aqueles proprietários que não cumprem a função social da propriedade”. “Só não entendem aqueles que estão preocupados em defender os privilégios do capital”, defendeu Plínio.

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