Crise faz aliados pensarem em desembarque no DF

Por Mario Coleho – congressoemfoco.com.br

A atual crise política e administrativa do governo do Distrito Federal desencadeou uma série de conversas e articulações de bastidores que já visam as eleições de 2014. Mesmo faltando aproximadamente dois anos e meio para o próximo pleito, aliados e até integrantes do próprio PT começaram a discutir esta semana alternativas para se descolarem da imagem de Agnelo Queiroz, desgastado com as seguidas denúncias em seu governo, especialmente após os indícios de envolvimento com o esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira, identificados nas investigações da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. No PT, discutem-se hipóteses de candidaturas alternativas à reeleição de Agnelo. Entre os aliados, a discussão é ainda pior: os partidos já discutem a hipótese de deixar o governo.

Na Câmara Legislativa do DF, Agnelo já enfrenta um pedido de impeachment, movido pela ONG Adote um Distrital. E, na noite de ontem (16), o deputado Fernando Francischini (PSDB-PR) encaminhou à Justiça um pedido de prisão de Agnelo. O porta-voz do GDF, Ugo Braga, admitiu que o Gabinete Militar de Agnelo acessou dados sigilosos de Francischini na Rede Infoseg, sistema de dados coordenado pelo Ministério da Justiça.

Aliados preocupam-se com destino de Agnelo no GDF

Outros temas de destaque hoje no Congresso em Foco

Desde o início do seu mandato, Agnelo sofre com denúncias. Primeiro, elas eram sobre sua atuação como ministro do Esporte no primeiro mandato do presidente Lula. Depois, os questionamentos vinham de sua passagem pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No último mês, após a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, o petista é acusado de envolvimento com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e de ter beneficiado a empresa Delta, também ligada ao esquema do bicheiro, em contratos de lixo no DF. Além das denúncias, Agnelo sofre com a existência de uma extensa rede de grampos montada por pessoas ligadas à área de segurança pública, inclusive dentro do seu próprio governo.

Depois de ter incialmente negado, Agnelo agora admite ter encontrado Cachoeira uma vez, quando era diretor da Anvisa. E ressalta que os contratos de lixo com a Delta foram mantidos não por sua vontade como governador, mas por ordem judicial. No sábado, ele afirmou que não vai mais se pronunciar sobre seu suposto envolvimento com o bicheiro e as supostas irregularidades nos contratos com a Delta. Ressaltou que a crise pertence ao DEM de Goiás e que ficará no cargo até o fim do mandato.

Para Agnelo, a crise política pertence ao DEM de Goiás
Renúncia é para quem tem culpa no cartório, diz Agnelo

Alternativas para 2014

Para os aliados de Agnelo, o problema é que, sejam ou não justas, as seguidas denúncias deixam o governo do Distrito Federal paralisado. E o desgaste torna-se, assim, inevitável. E acaba de alguma forma comprometendo a todos os que apoiam o governo. Assim, ao ser obrigado a responder às denúncias, aliados aproveitam o mau momento do governo para, nos bastidores, começarem a articulação em torno de uma nova chapa de centro-esquerda para disputar o governo do Distrito Federal. A própria cúpula política dentro do GDF, mais próxima de Agnelo, já percebeu a movimentação de políticos da base. No Executivo, os secretários de Governo, Paulo Tadeu, e de Administração, Wilmar Lacerda, dão como certa a candidatura do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) ao cargo em 2014.

Nas últimas semanas, o senador pedetista, que já foi governador do Distrito Federal, tem reiteradamente feito críticas ao mandato de Agnelo. Reclama da falta de diálogo com a bancada federal e aponta problemas em setores como educação, saúde e segurança pública. Cristovam, porém, tem repetido que vai terminar o mandato de senador aos 72 anos. Caso resolvesse disputar o GDF, ele poderia tomar posse com 68. Apesar de seu governo ter recebido muitas críticas por problemas administrativos, Cristovam não sofreu denúncias de corrupção nem houve deslizes éticos.

É justamente por isso que, para políticos da base aliada ouvidos pelo Congresso em Foco, Cristovam relutaria em concorrer em 2014. Assumir o cargo após um governo até então marcado pelo caos administrativo e por denúncias de corrupção aumentaria as chances de ele também acabar vendo seu mandato manchado pelas mesmas situações. Agnelo, por exemplo, deve ser um dos primeiros alvos da CPMI do Cachoeira e ainda pode sofrer um processo de impeachment.

Na bolsa de apostas dos aliados, cresce o nome do senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF). Embora os mais próximos a Agnelo não acreditem na candidatura do socialista, outros petistas dão como alta a probabilidade de o senador concorrer. “Ele é mais jovem que o Cristovam, mais arrojado e corajoso. Pode muito bem concorrer”, disse um petista ouvido pelo Congresso em Foco. Nos bastidores, comenta-se que Rollemberg até já está elaborando seu plano de governo.

No domingo (15), o Congresso em Foco mostrou a preocupação do senador com o atual rumo do governo local. Rollemberg disse que Agnelo se cercou de pessoas inexperientes e que deixou de lado a experiência dele e de Cristovam. Também nunca recorreu à bancada do DF no Congresso, formada por oito deputados e três senadores. Pessoas próximas lembram da discussão do orçamento no ano passado, quando o governador não conversou com os parlamentares sobre as emendas, deixando todo o trabalho para Paulo Tadeu.

Desmanche

Na verdade, o PSB de Rollemberg discute desde o carnaval uma possível saída da base do governo. Sábado houve uma conversa com a cúpula nacional do partido sobre isso. Foi inconclusiva. Se depender da vontade do presidente nacional da legenda, Eduardo Campos, a coligação será mantida por mais um tempo. Também é a vontade do deputado distrital Joe Valle (PSB). A expectativa é que as conversas continuem nos próximos dias.

Entretanto, deixar a base do governo neste momento pode prejudicar mais do que ajudar o socialista no seu plano de ser o próximo governador. Se entrar para a oposição ou assumir uma posição de independência, aponta um petista, perde as duas secretarias que ocupa no momento – Agricultura e Turismo –, e os cargos no segundo e no terceiro escalões do Executivo local. “Ainda é cedo para sair da base, o governo ainda tem tempo”, disse um petista.

Outros partidos, como PPS e PDT, também devem começar a discussão sobre se permanecem ou saem da base governista na Câmara Legislativa. O presidente nacional do PPS, Roberto Freire (SP), defende a ida para oposição. Cristovam e o deputado Reguffe (PDT-DF), outro apontado como possível candidato ao GDF, têm a mesma posição que Freire. Porém, a posição dos dois, por enquanto, é minoritária dentro da legenda.

Fogo amigo

Nas discussões de bastidores, o afastamento de Agnelo faz parte de conversas inclusive dentro do próprio PT. No caso, o que alguns defendem seria um isolamento de Agnelo, de modo a construir uma alternativa que não fosse a reeleição do governador nas eleições de 2014. Secretário de Habitação e deputado licenciado, Geraldo Magela (PT-DF) é colocado como uma opção.

A posição é minoritária entre os petistas da capital do país. Mas pode crescer conforme apareçam novas denúncias contra o governador e o desgaste de seu governo continua. Enfrentando greve dos professores da rede pública e números agravantes na segurança pública, como 88 homicídios em apenas um mês, Agnelo sofre da síndrome de qualquer denúncia colar em um governo com baixa aprovação pública. Pesquisa do Instituto Datafolha o colocou com o pior índice de aprovação entre dez chefes de Executivo.

“O governo é refém da sua baixa popularidade. As denúncias até aqui são fracas. Em alguns casos, até são favoráveis a Agnelo. Mas em um governo com baixa popularidade, tudo cola com maior facilidade”, analisou um parlamentar com proximidade do GDF. Ontem, como informou o Congresso em Foco, a bancada do DF já fez uma reunião para discutir a crise no governo. Hoje (17), uma nova reunião deverá ocorrer. A expectativa é que os deputados e senadores do Distrito Federal divulguem uma nota conjunta pedindo a investigação rigorosa das recentes denúncias contra o governador e seu primeiro escalão.

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